Um estranho pas-de-deux ('A Boba', de Wagner Schwartz)

Por Amanda Queirós

Assistir à mais nova performance de Wagner Schwartz significa carregar junto para o teatro toda a via-crúcis vivida por ele desde que se tornou alvo de linchamento moral após uma apresentação de seu “La Bête” (2015) no MAM-SP, em setembro de 2017. Logo, é justificável que as leituras possíveis de “A Boba” sejam profundamente contaminadas por esse fato, ainda mais quando o que se vê em cena é um exercício metalinguístico sobre a relação de um indivíduo com uma obra, ou de um artista com o seu trabalho.

 

A obra, no caso, é uma cópia da tela “A Boba”, pintada por Anita Malfatti (1889-1964). Em 1917, o quadro integrou uma exposição que acabou sendo trucidada em uma crítica escrita por Monteiro Lobato (1882-1948). Esse é um dado que acrescenta camadas de sentido ao que Schwartz está para mostrar (especialmente quando se conhece o teor conservador de tal texto), mas não saber disso não é nada determinante para o que se pode experimentar partir dali - e isso é um alívio.    

 

A primeira parte do solo é composta por várias tentativas do performer de fazer a tela parar em pé sozinha, mas nenhuma delas funciona. É um teste de física que o bailarino parece não querer racionalizar. Em vez de calcular variáveis como força e contrapeso antes de cada tentativa, ele já experimenta direto com seu corpo múltiplas possibilidades de como isso poderia dar certo - só que não dá.

 

Isso gera desconforto e impaciência, mas também permite a exploração de caminhos não óbvios para se atingir tal objetivo. E temos uma dupla acepção aqui: se, por um lado, o bailarino ganha em possibilidades de movimento, por outro ele está limitado pela obra. A conclusão a que se chega, na verdade, é que, para se manter em pé, a tela precisa sempre estar aparada. Ela não se sustenta sozinha.  

 

No segundo ato do trabalho, o bailarino percorre o palco em círculo balançando o quadro em movimento constante, para a direita e para a esquerda, ora mais lento, ora mais acelerado. Há um efeito interessante quando, após várias repetições, passamos a questionar quem é o autor daquele gesto. O próprio quadro é quem parece puxar o braço de Schwarz, que, por sua vez, demonstrando cansaço, dá a impressão de não conseguir se livrar dele.

 

Por fim, inicia-se uma espécie de luta com a tela. Ele fica deitado no chão, enquanto a tela ocupa a região dos quadris como se fosse uma espátula, dividindo-o ao meio. O performer se contorce exaustivamente para tirá-la dali, em vão, até que a tela migra para cima e cobre sua cabeça. Inclinada aos olhos do públicos, essa é a primeira vez na noite em que a pintura é mostrada de frente, estática. O retrato da “Boba” de Anita, portanto, substitui a face de Schwartz, resultando em uma estranha fusão de um corpo humano com um rosto pictórico.

 

Tudo neste solo reforça a ideia de relação simbiótica entre criador e criatura, mesmo que o quadro em questão não seja, exatamente, uma obra de autoria do performer, mas uma ressignificação. Enquanto McLuhan dizia que o meio é a mensagem, Schwartz parece nos dizer que, no mundo de hoje, o artista é a obra, um entendimento reforçado justamente pelo fato de a pessoa física de Wagner Schwartz ter sido substituída, de forma ruidosa, pela figura do “pelado do MAM”, como se essa alcunha apagasse tudo o que o constitui enquanto cidadão para além da atividade que exerce.  

Esse é um debate rico e necessário, especialmente na atual conjuntura social e política, mas que não surge com o devido aprofundamento na cena. De forma quase didática, “A Boba” expõe o problema sem problematizá-lo, funcionando mais como um momento de depuração particular das relações entre artista e obra do que de discussão sobre os efeitos dessa percepção na esfera pública.  

Fotos: Mario Miranda Filho e Guto Muniz/

Divulgação

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