21, 7 de genialidade e gestos de dramaturgia

Por Nirvana Marinho *,
convidada do CRITICATIVIDADE

Experimente contar 7. Dançar 7. (Enquanto lê, escute: http://www.grupocorpo.com.br/obras/21#trilha). Sentir o pulso de 7 em círculos quase mágicos de sons combinados, melódicos, as vezes de sonoridade de pouca familiaridade, mas leve, pontual. Veja como o 7 insiste em dois acentos distintos: um que sugere um compasso quaternário e outro que segue em um compasso ternário. E outros pulsos são possíveis em “21”, quando, cena a cena, o bit do pé cantarola a música e as tantas oscilações de movimento. Em plena década de 90, a dança buscava novos pulsos dramatúrgicos – e isso incluía a ascendente trajetória do Grupo Corpo. Estabeleceu-se, neste período, a companhia de dança profissional Grupo Corpo, de renomada performance, com um dado passo brasileiro, contemporâneo e, ao mesmo tempo, um tanto tropical ou ondulante, não sendo de fato popular ou brincante. Certo que, por sua vez, mostrava-se comprometido com composições burlescas de cadências de som e movimento.

 

Assim, podemos perceber a importância histórica de “21” (1992), coreografia de Rodrigo Pederneiras (1955-). Para muitos, uma obra inaugural para o coreógrafo, para a companhia e para os artistas que vem acompanhando a produção artística do Grupo Corpo, como o cenógrafo Fernando Velloso, a figurinista de Freusa Zechmeister, o também iluminador e diretor Paulo Pederneiras – quarteto que virá a se repetir em inúmeras obras de repertório – e, neste caso de “21”, o músico Marco Antônio Guimarães, diretor artístico do grupo musical UAKTI, de igual reconhecida importância. 

 

“21” é uma coreografia que pode ser vista sob diversos aspectos – da fruição estética, da inevitável “vontade de saber” que a dança provoca e também de complexas relações conceituais, das utopias do movimento dançado e das articulações infindáveis que a dramaturgia deste coreógrafo tomou e veio a se multiplicar, nas obras subsequentes. 

 

Uma delas, sem dúvida, é a relação do movimento com a música. Fez parte dessa geração questionar-se sobre as relações literais – um som, um movimento de igual e exata dimensão, alcance; uma literalidade quase obrigando um ou outro a estar em equivalência ou subserviência. O que Pederneiras fez, e tem feito, estabelece uma gramática própria. Sua pesquisa de movimento, comprometida, inclusive em “21”, fornece pistas de cadências, arranjos, desvios de movimentos, composições e repetições como citações no espaço da cena, uma partitura trimensional do movimento, fazendo dessa relação cada vez mais complexa. Nesta coreografia, esse desafio ganha acentos e gestos. Acentos que desconcertam e refazem a relação movimento e som, num desenho cada vez mais conciso de movimento. E gestos. Confesso que ainda não havia visto “Grupo Corpo” (por desatenção minha, talvez) sob ponto de vista de sua gestualidade. Por sua movimentação ser marcante e tão determinante, nunca me permiti ver seu movimento no rastro. Porque o gesto sugeriria algo de vestígio, não tão presente no Grupo Corpo. Mas “21” anuncia sim um jeito de gesto.

 

Num dos primeiros gestos a surgir, introduzindo o tempo como questão, o antebraço articula-se em cadência como os ponteiros de um relógio, com os bailarinos em linha horizontal de frente para o público. Não se engane, não há nada de literalidade aqui (21, tempo, relógio, pulso, acento). Seria uma linha primeira do texto. Em fonte caixa alta. Elegante, inclusive. As demais linhas vão tornando complexa essa relação entre som e movimento. O gesto abre uma reflexão sobre o tempo, a duração, a extensão, o compasso e descompasso, portanto, o tempo e o contratempo ou o acento e o vestígio que o movimento traça no espaço. O movimento emergente dos gestos demarca a gramática do coreógrafo, o que inclui torna icônico na história do gesto na dança brasileira e justifica também a estima que mantém “21” no repertório, apresentada anos depois, agora em 2018. Tal movimentação tem precisão, mas, logo depois, os acentos deslizam o movimento e não deixam marcas duras, rígidas como negritos. Há, na verdade, o deleite de ver o movimento escoar do acento. A duração se estende em diversos sentidos. Em duos, quartetos, ou passagens de lateral a lateral, uma escrita singular do coreógrafo. Em diversas combinações de acentos, tanto ritmicamente na composição musical como espacialmente na composição dos movimentos. 

 

Surge deste gesto de tempo, uma questão sobre o tempo. Tanto na duração, extensão e fluência dos movimentos como, primordialmente, nos seus possíveis acentos. E, no encanto do movimento, em meio aos corpos esguios e ondulantes de gestos, a composição cadencia 7, 14, 21; 7 dançarinos em cena, quadras de 14 movimentos, até o ápice: surge um colorido. Um painel de cenário de retalhos, um brasileiro que anuncia as curvas do gesto sambado. Assim, uma dramaturgia tal singular orquestra os 7, os 14, as 21 combinações. O gesto do relógio, que irá voltar à composição, marca a cronologia dos passos mas também nos convida a desdobrar o tempo em acentos, extensões e durações cadenciadas embora difíceis de acompanhar. Escute o tempo em 7. 

 

Não menos proeminente, “Gira” (2017), que fez parte do programa apresentado no Teatro Alfa na temporada de agosto de 2018, o Grupo Corpo faz-nos pensar sobre uma brasilidade, um mistério do movimento que retorna, que tomba, que desconcerta. Embora este texto não seja sobre essa coreografia, coloca-la ao lado de “21” sugere-nos pensar no tempo em que questões persistem: uma brasilidade desconcertante, um tempo descompassado, que tomba sobre si, que faz, seja na precisão de “21”, seja no transe de “Gira”, um corpo de exatidão singular. 

 

O “axé” do movimento de Pederneiras, para usar uma expressão do universo de “Gira”, desde década 90, quebra o quadril, busca acentos no espaço estendendo o gesto o fazendo fluir em cadências estéticas de movimento faz o tempo um presente. Não é possível deixar a mente vagar longe da movimentação do Grupo Corpo. Seus olhos não conseguem parar de olhar, de contar, de gingar. Sua mente pode até buscar significados alheios, mas seu corpo fica comprometido com a beleza da coreografia de Pederneiras.

 

Dessa forma que o Grupo Corpo tem marcado a história da dança no Brasil e assistir “21” é se propor a não mais olhar o repertório como algo repetido, mas se propor a reinventar o olhar, tornando nosso gesto de ver dança uma política do olhar, a fruição um ato de resistência, como a arte tem sido em tempos de golpe. Amigos do Corpo, como estrutura de apoio à companhia além de seu oficial patrocínio, só reforça que essa companhia trata a estética com tamanho afeto como os gestos merecem.

* Nirvana Marinho  é mestra e doutora em comunicação e semiótica pela PUC-SP, graduada em dança pela Universidade Estadual de Campinas . Coordenou o Acervo Mariposa, atuando na implementação do acervo de vídeos de dança. Foi curadora de dança no Centro Cultural São Paulo (2015) e do programa Dança Contemporânea, do SescTV (2017–2018). Em 2014, estabelece ação de pesquisa chamada Cartografia de ficções. Desde 2014 integra o Ação Vizinhas, coletivo de projetos de acervos de dança e história da dança.

www.plataforma78.net  |  www.acervomariposa.com.br  |

https://cartografiaficcoes.wordpress.com  |  nirvana.curadoria@gmail.com

Fotos: José Luiz Pederneiras/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Instagram Icon
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now