Quando o corpo se torna religião ('Protocolo Elefante', do Cena 11)

Por Amanda Queirós

Desculpem-me se o que digo parece pouco caso com os bailarinos que enfrentam anos de treinamento exaustivo e pesquisa constante, mas o fato é que experimentar "Protocolo Elefante" exige uma entrega tão visceral do público quanto daqueles que estão sobre o palco.

 

Mais do que um espetáculo, o que se vê em cena é a construção de um ambiente possível de existência. O objetivo é situar plateia e intérpretes na mesma frequência - e a complexidade desse exercício faz com que os artistas precisem se dedicar a ele incessantemente do começo ao fim.

 

A chave para isso está no campo da religiosidade (ou espiritualidade, em uma perspectiva mais ampla). Ela se mostra, por exemplo, no caminhar constante dos bailarinos por entre a plateia, como em uma procissão, ou no estranho coro que eles formam com suas vozes, fazendo vibrar toda a caixa cênica, buscando estabelecer uma espécie de transe coletivo.

 

Esse elemento também está no manejo de longos de tubos de metal por onde esses sons reverberam. Eles remetem ao órgão de uma igreja, mas, diferentemente do que ocorre com o instrumento musical, no qual todos os tubos ficam agrupados, cada um deles ganha a mão de um bailarino diferente, que o carrega para lá e para cá de forma individualizada, numa alegoria sobre as partes que compõem um todo da mesma forma que cada um daqueles artistas compõe a companhia Cena 11.

 

Cada uma dessas partes tem jeitos diferentes de se expressar mesmo que o comando ou a partitura seja o mesmo, e é isso o que observamos mais para a frente, quando os tubos se tornam extensões daqueles corpos, que começam a girar em torno de si mesmos de forma aparentemente aleatória, cada um a seu tempo. Em outro momento, os tubos se transformam em balizas e, mantidos sempre rentes aos braços e ao tronco, guiam os movimentos dos bailarinos, que dançam das mais estranhas formas para tentar evitar sua queda - muitas vezes em vão.

 

Às vezes, os metais são passados de uma mão para a outra ou se chocam uns com os outros, provocando a sensação de quando a água gelada bate no dente. É um caos contraditoriamente organizado, em moto contínuo, que pode soar repetitivo para quem não consegue entrar no clima de início. Para os que conseguem tal feito, o interessante está em observar as possibilidades de movimento aparentemente impossíveis que aqueles intérpretes conseguem fazer quando orientados, basicamente, pela devoção ao que eles fazem.

 

Trazer o transe para o palco tem tudo a ver com o Cena 11 porque, no fundo, mover-se sob os comandos do coreógrafo Alejandro Ahmed é um salto de fé. "Protocolo Elefante" é um trabalho que questiona o motivo de este grupo continuar existindo, e uma das respostas está nos verdadeiros testemunhos corporais que cada intérprete dá.

 

Do ponto de vista racional, o que eles fazem tem um quê de inconsequência. São quedas abruptas, torções exageradas e movimentos "ao avesso" que eles executam sem pestanejar. Acontece que, ao se desapegarem do tatibitate do juízo, eles dão vazão a um outro tipo de inteligência que parte do corpo, emergindo instantaneamente quando requisitada e se reconfigurando na mesma velocidade quando o ambiente é transformado. Essa estratégia favorece o surgimento do inesperado, algo tão raro de se encontrar nos dias de hoje que costuma ser acompanhado do espanto.

 

Com isso, "Protocolo Elefante" faz uma defesa da liturgia para além da igreja. Isso significa que o Cena 11 pode até não saber que destino terá, mas, mesmo se deixar de existir, seus ritos seguem vivos e replicados nas práticas que fazem com que cada bailarino tenha uma crença inabalável na potência de seus corpos.

Fotos: Cristiano Prim/Divulgação

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