Conexão e comunicação. Com quem?

('Cria', do Grupo Suave)

Por Henrique Rochelle

O grande livro que apresenta a programação da MIT tem um efeito duplo. Ao apresentar “Cria” do Grupo Suave, por um lado ele nos dá a expectativa (verdadeira) da influência que a obra tem da dancinha, do funk e das linguagens artísticas periféricas. Por outro lado, ele traz a ideia — confusa, e talvez ausente no espetáculo — da ótica da paternidade, e por fim se entrega ao problemático campo da diversidade cultural.

 

Apresentada assim de forma solta, diversidade cultural é mais um desses termos que parecem já saturados no vocabulário dos discursos sobre a arte. É necessário então, trabalhar as possibilidades de abordagem para esses efeitos. De partida, a proposta aqui é ignorar um tanto daquilo que insistem em nos dizer sobre as obras, para podermos chegar a alguma reflexão do que elas de fato sejam, tenham a nos mostrar e possam falar sobre a arte e a dança de agora.

 

Isso porque se o discurso feito sobre “Cria” arrisca parecer vazio, a obra, em si, não parece nada vazia. Repleta de significado, trabalhada em alta elaboração e complexidade técnica, a construção de Alice Ripoll adentra a veia da espetacularização para além da mostração — a que se limita tanto do dito performático experimental.

 

O trabalho a partir das danças urbanas é capaz de trazer à cena uma reflexão da dança como festa, do rito como união. Um processo de religar palcos e plateias, praticantes de públicos, e humanizar e individualizar o artista — e não da maneira rasa em que o artista/estrela é defendido por e defende o seu direito de fazer arte e ser assistido, independente daquilo que de fato chega ao palco.

Aqui, é o caráter único do conjunto do trabalho que nos diz que ele precisa e vale a pena ser assistido. É o aspecto que beiras as dança sacras que faz com que essa experiência calcada em algo prosaico como a vida cotidiana possa ser elevada em uma percepção maior e aplicável a realidades tão distintas, entre aqueles que assistem, aqueles que a apresentam, e aqueles que são por ela representados.

 

O trabalho não é sem falhas ou sem desvios para um tanto do discurso menos significativo. A uma brilhante primeira cena, repleta de dança, se sucedem sequências menos interessantes e silenciosas — em som, em movimento, em dança, em espetáculo. Nelas, adentramos o espaço do aleatório, misturando múltiplas referências sem tempo de digestão e sem muita ligação entre elas.

 

Sim, a vida contemporânea é caótica, repleta de referências que nos são colocadas constantemente frente aos olhos, sem nexo e sem coerência. Mas a arte, ainda que não seja o domínio do lógico, é um domínio do nexo. É o concatenamento das ideias dos artistas — a organização daquilo que eles fazem — que nos apresenta conteúdos que de alguma forma conseguem chegar ao público.

 

Sem nexo, há espaço para a investigação, para o laboratório, para a criação, para o processual, para a descoberta, para o encontro de novas formas de se fazer. Mas no momento de apresentar essas novas formas e novos caminhos ao público é fundamental trabalhar além dos processos do fazer artístico. É necessário separar a prática do labor criativo e, sobretudo, do momento da recepção e da apresentação ao público.

 

Nesse sentido as partes em silêncio da obra, junto de suas explorações multi linguagens sem resolução cênica, falam acerca de estruturas performativas que seriam necessárias ou importantes apenas para o público já cativo de semi-especialistas e curadores convidados deste evento, que lidam com essa forma de abordagem, numa introspecção hermética que frequentemente arrisca só falar entre poucos pares.

 

Se isso não é um problema geral para todas as formas de arte, ele é um problema para essa obra, que tem um grande potencial de comunicar com diversos públicos. Isso porque ela fala acerca de coisas que dizem respeito a indivíduos e realidades nem sempre representadas dentro dessa cena, e precisa ser capaz de falar, portanto, por elas, mas também para elas. É uma questão de ampliação de plateias. E uma questão que pode muito bem ser trabalhada por esse grupo, por esta obra. No todo, tem muita arte, e uma gostosa densidade, especialmente na individualidade no elenco e em sua técnica de dança. E a maior força de “Cria” é o prazer de ver esta forma de se mover em cena. Mas falta ainda um tanto de tratamento teatral, dramatúrgico, para garantir e firmar, além do interesse, o peso cênico e o seu valor.

Fotos: Renato Mangolin/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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