Sobre preencher lacunas com o exercício da imaginação ('Vestígios', de Marta Soares)

Por Amanda Queirós

“Vestígios” (2010) faz parte de um restrito grupo de obras que, apesar da pouca idade, conseguiu se afirmar enquanto marco em meio à enxurrada de produções que testemunhamos hoje.

 

O fato de ter sido citada no enciclopédico solo “The Hot One Hundred Choreographers” (2011), de Cristian Duarte, é um indicativo de que esse é um clássico contemporâneo - mesmo que a utilização dessas duas palavras para designar um mesmo objeto possa ser controversa.

 

Meu primeiro encontro com “Vestígios”, portanto, foi cercado de uma expectativa inevitável e algumas dúvidas. Eu já tinha o spoiler sobre qual era o dispositivo do trabalho, mas queria descobrir o que fazia dele um espetáculo em vez de uma performance (além, é claro, de ser invadida pela genuína curiosidade sobre como, afinal, Marta Soares consegue respirar debaixo daquele monte de areia).

Encontrei minha resposta na centralidade que o tempo ocupa na obra, em uma perspectiva distinta da de outros trabalhos seus, como “O Banho” (2004) ou “Deslocamentos” (2014). Isso se dá a partir da forma que Marta escolhe para falar sobre apagamentos, desvelamentos e construção da memória.

Ao aterrar-se por completo e deixar que apenas um ventilador sopre vagarosamente a areia que nos impede, a princípio, de vê-la, a artista convida a um exercício um tanto fora de moda: ver o tempo passar.

 

A sensação inicial de mirar um massa estanque é, pouco a pouco, substituída pela percepção de pequenos grãos voando. Antes invisíveis, eles formam uma espécie de halo em movimento em torno daquele monte.

 

Esses grãos - que sozinhos parecem não ser nada - passam então a se espalhar e a se acumular sobre o chão, materializando o tempo como uma ampulheta horizontalizada e sem barreiras. Quando vemos o entorno da mesa recoberto por uma fina película que há pouco não estava ali, somos confrontados com as múltiplas formas físicas que podem assumir elementos supostamente intangíveis, como segundos, minutos e horas.

 

É nesse momento que entram em cena os tais vestígios do título.

 

Eles estão nos pedaços de corpo que começam a vir à tona com o esforço do ventilador (é uma mão? é um joelho? é um pé?) e acabam sendo novamente recobertos sem ao menos nos darmos conta disso (afinal estávamos prestando atenção, do outro lado, no desvelamento de uma possível mecha de cabelo).

 

Eles estão também nas pegadas que deixamos nessa fina película de areia enquanto exploramos a cena em 360 graus - e que também somem enquanto o vento insiste em espalhar os grânulos.

Imóvel sob a areia, Marta dá ao público o protagonismo do movimento. Cabe a ele usar o corpo para explorar a cena e, com isso, guiar o olhar dos demais para determinado foco de atenção.

 

Lá para as tantas começa a ficar claro que, diante da duração do espetáculo e sem nenhuma expectativa quanto à introdução de algum novo dispositivo, não vai dar tempo de ver a Marta ser descoberta por completo. Mas é assim que a memória opera, não é mesmo?

 

Por maior que seja nossa curiosidade em torno dela, é impossível acessá-la de forma integral. Dispomos apenas de fragmentos que ora se evidenciam, ora são novamente encobertos, e é a partir dessa incompletude que tentamos construir sentidos para as coisas.

 

Isso vale tanto para o aspecto imaterial, como lembranças de episódios vividos, quanto o material, mais facilmente identificado nas heranças de civilizações passadas, na forma de objetos descobertos após escavações que apresentam apenas indícios de como viviam povos de antigamente.

 

O que completa os “buracos” entre uma informação objetiva e outra (e, pelo visto, algo nos leva invariavelmente a buscar preenchê-los) é a nossa capacidade de raciocínio e, especialmente, a nossa imaginação. Aterrados também nós nos porões do Centro Cultural São Paulo, sem qualquer sinal de celular à vista, somos exigidos por “Vestígios” a fazer esse exercício - e é sempre um maravilhamento ser lembrado disso a partir de uma obra de arte.   

Fotos: João Caldas/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Instagram Icon
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now