Cia Carne Agonizante faz retrato político triste do presente 

Por Amanda Queirós

Ao descobrir que a nova criação de Sandro Borelli seria inspirada em Carlos Marighella, fui rapidamente transportada para o ano de 2009. Eu havia acabado de chegar a São Paulo, e “Estado Independente” foi uma das primeiras obras que me apresentou aos grupos paulistanos, ainda hoje com circulação muito restrita pelo país.

 

Assim como “Não Tive Tempo Para Ter Medo”, aquele era um trabalho dedicado à memória de um militante político - no caso, Che Guevara -, e colocar as duas obras lado a lado parece fazer sentido para entender a evolução do percurso criativo Borelli.

 

Uma das características mais especiais do jeito de pensar desse coreógrafo, e que atravessa toda a sua trajetória, é um entendimento muito particular de política como poética. Ambas são formas de estar e atuar no mundo que se entrecruzam na forma de manifestos -  e, para Borelli, não existe uma distinção clara entre elas.

 

Mais do que evocar o ideário de Marighella, que atuou em tensão com o regime militar brasileiro até ser morto por ele, “Não Tive Tempo Para Ter Medo” impressiona no que consegue captar sobre o hoje.

 

Em “Estado Independente”, uma luz representava Che - ou melhor, seus ideais revolucionários. A dança se desenrolava enquanto os bailarinos passavam esse facho de mão em mão. Independentemente da qualidade do movimento, a luz nunca se apagava, e reforçava ali um senso de união que também falava muito sobre o que é ser um artista independente e a força surgida a partir de uma forma de organização que prioriza o coletivo. 

 

Essa perspectiva injetava um ar de esperança pouco comum à voz de Borelli e que passa longe desse novo trabalho.

 

Em vez de um grupo, vemos agora um espetáculo dividido em dois atos: um solo e um duo. Na primeira meia hora, o bailarino dança sozinho. De punho cerrado, bate no peito sucessivas vezes e olha para o alto, como a esperar algo. Os movimentos são interiorizados e, em raras vezes, ele se deixa projetá-los para o exterior. 

 

Essa toada ganha um novo elemento na meia hora seguinte, quando a entrada da bailarina sugere uma mudança na dinâmica da cena. Mas não há exatamente uma transformação. O que se vê é uma balada na qual os dois embarcam na mesma sintonia interiorizada de antes, sugerindo a afinidade no diálogo das duas figuras - no caso, Marighella e sua companheira, Clara Sharf. Essa parceria é materializada visualmente quando os dois vestem uma mesma camisa ao mesmo tempo, tornando-se um só. 

 

Há algo de incômodo no que se mostra aí porque, diferentemente do que se via em “Estado Independente”, o ideal militante surge agora intrínseco à figura de seu idealizador, em um gesto quase ensimesmado, como que em crise existencial. Isso faz a obra se apresentar mais como um mergulho na subjetividade do personagem do que no pensamento que ele defendia para a construção de um mundo melhor, e isso reflete muito de como se lida com política hoje, em um cenário no qual o consenso parece impossível, os discursos estão cada vez mais personalistas e, mesmo diante de um quadro de extremo desânimo, tem-se uma imensa dificuldade de se estabelecer qualquer ação conjunta em prol de um algo.

 

Quem lembra de Marighella? O que ele representa ainda hoje? Como ele pode nos fortalecer? O trabalho não responde nenhuma dessas questões. Desesperançoso, parece colocar o personagem para discutir a validade de tudo o que fez. E, de certa forma, esse também é um questionamento que se apresenta para os artistas da dança em um momento de políticas públicas desconstruídas e que um modo de existência dado como garantido é colocado em xeque.

 

O duro de assistir a “Não Tive Tempo Para Ter Medo” é não encontrar em cena nenhuma tábua de salvação. Não há ali inspiração ou esperança, mas apenas a pura afirmação de que os tempos estão difíceis pra caramba. E, diante da constatação de que não vamos conseguir mudar nada mesmo, talvez nos agarrarmos nos afetos seja a melhor solução para manter a sanidade enquanto a tormenta passa.

Fotos: Júnior Cecon e Alex Merino/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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