A intensidade do vermelho

Por Simone Alcântara,

convidada do CRITICATIVIDADE *

A Cia Carne Agonizante leva ao palco a luta contra a ditadura do guerrilheiro Carlos Marighella (1911 – 1969) no espetáculo "Não tive tempo para ter medo", sem cair em julgamentos ou na idolatria de herói. 

Poeta, ex-estudante de engenharia, o baiano Marighella serviu no Exército, militou pelo Partido Comunista (PC), foi deputado federal e engajado na luta armada da Ação Libertadora Nacional (ALN), tornando-se o grande inimigo da ditadura militar, que o perseguiu até o assassinato em 1969. 

Dançar a trajetória de Marighella é uma escolha da Cia Carne Agonizante que dá continuidade ao seu trabalho político na dança, que há 20 anos tem sempre se apoiado em muita pesquisa artística e teórica sobre os temas tratados. "Não tive tempo para ter medo" percorre a dor das torturas sofridas pelo guerrilheiro e a beleza da relação com a sua companheira de militância e de vida, Clara Charf.  

Além da “Internacional Comunista”, a trilha sonora vai ao “Bolero” de Ravel passando por sons de atabaques e de vozes, entre outros. A barbárie das prisões pelas quais Marighella passou, desde os 20 anos de idade, estão no corpo exaurido e persistente da atuação de Rafael Carrion. Em repetidas quedas ao chão, se reergue para lutar quantas vezes forem necessárias, assim como o ativista lidava com a vida e a política. O consistente trabalho corporal do grupo, por Sandro Borelli e Vanessa Macedo, denuncia a violência, mas surpreende poeticamente. 

A entrada quase discreta da figura feminina é o ponto alto do espetáculo interpretada por Mainá Santana, de pés descalços num vestido longo e vermelho... Vermelho como a esquerda, como a paixão e como o sangue. 

Juntos, Mainá e Rafael dançam com uma delicadeza arrebatadora entre a clandestinidade e o “casamento do amor”, como a própria Clara Charf nomeou a sua relação com Marighella no documentário," Carlos Marighella – Retrato falado do guerrilheiro", de Silvio Tendler (2001). Dançam cuidadosamente num intenso vermelho que quase nos suspende a respiração...

A coreografia de Sandro Borelli e o trabalho da Cia Carne Agonizante fazem jus à história do incansável Marighella e de sua parceira Clara na vida pela luta contra a injustiça social e à história de duas décadas da companhia.

* Simone Alcântara é Pedagoga e Doutora em História Social. Foi membro de comissões como Lei Mendonça, Fundação Vitae, PROAC Circulação de Dança, APCA e jurada do Movimentos da Dança SESC e do Mapa Cultural Paulista. Atuou como Oficial de Projeto pela UNESCO-SP e como formadora de educadores pelo Instituto Avisa Lá e pelo Museu da Pessoa. Atualmente é consultora de Dança e professora de História da Dança da Pós-Graduação em Dança e Consciência Corporal pela ESTÁCIO, FMU e USCS em São Paulo e outros estados. 

Fotos: Júnior Cecon e Alex Merino/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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