Balé ‘para exportação’ arrebata olhar e corpo do público

Por Amanda Queirós

Há um quê de furacão em "Um Jeito de Corpo", e isso é, ao mesmo tempo, bom e ruim. Bom, porque implica o retorno de um senso de urgência um tanto esquecido pelo Balé da Cidade nos últimos anos. Ruim, porque desmonta a qualidade de movimento virtuoso e tecnicamente preciso que marcava a companhia. Mas estes são novos tempos e há de se questionar se essa mudança é, de fato, negativa.

 

O caráter coletivo e descentralizado da criação surge mais acentuado aqui do que em outros trabalhos recentes da companhia, quando o coreógrafo surge como sujeito em torno do qual todos os demais elementos da criação orbitam. Os movimentos assinados por Morena Nascimento são apenas uma parte, no meio de tantas outras, a compor a obra. Se há algum nível de supremacia aqui, ele não cabe à dança enquanto somente organização de movimento, mas à música - o elemento motor, sem o qual este trabalho sequer existiria.

 

Maior do que o próprio artista, a obra de Caetano Veloso poderia facilmente sufocar tudo a sua volta, criando um festival de ilustrações óbvias para canções que fazem parte da trilha sonora da vida de qualquer brasileiro. Esse risco é minimizado com uma seleção musical de faixas menos conhecidas, mas que carregam a mesma lógica de composição dos maiores hits de Caê. "Um Jeito de Corpo" torna-se inebriante ao conseguir decodificar essa linha de pensamento e materializá-la em todo o conjunto dos elementos de cena.

 

Isso significa que o espetáculo é capaz de criar traduções para sensações evocadas pela música, sintonizadas no mesmo nível de complexidade que as letras e melodias carregam. Há sensualidade, crítica social, politização, história, urbanidade e brasilidade, tudo amarrado em um fluxo contínuo que sublinha uma inexistência de hierarquia entre erudito e popular. Isso está traduzido desde os figurinos sumários e cheios de transparência, que deixam o corpo à vista, à maquiagem ao mesmo tempo naturalista e chique e à movimentação clássica que se deixa contaminar por manifestações populares em geral amplificadas pelo Carnaval. Até mesmo o controvertido funk ganha moldura de cinema de arte, em uma cena memorável.

 

Para capturar o olhar para dentro desse universo, o trabalho aposta no intenso uso da coralidade. Com exceção do solo de abertura (alguém mais lembrou aqui de Maria Bethânia?), os dez minutos iniciais são dominados praticamente pelo elenco inteiro dançando junto no palco movimentos em uníssono ou pequenas variações deles.

 

Ver tantos corpos deslumbrantes reunidos em uma mesma massa é uma estratégia eficiente para provocar uma sensação de “uau”, mas seu uso excessivo soa um tanto preguiçoso, como uma solução fácil que disfarça muito bem a pouca variação coreográfica dos movimentos. Também cansa um pouco os ciclos de dia e noite criados pela iluminação a partir da suspensão do pano escuro de fundo do cenário.     

 

Morena é tão referenciada na mídia por sua participação na companhia de Pina Bausch (1940-2009) que é difícil não ser induzida a procurar ali influências da mestra da dança-teatro. Como não lembrar da poética fila de pessoas encenando as estações do ano em  “Cravos” (1982) na gigantesca fila indiana montada por ela ao som de “Neguinho”, cantado por Gal Costa? Ou imaginar a cena de crônicas de cotidiano brasileiro em algum dos trabalhos da Wuppertal Tanztheater?

 

Essa espécie de chancela internacional também torna difícil não imaginar que o espetáculo já nasceu com um enorme selo de “para exportação” colado nas costas. Todas as escolhas dali parecem organizadas para viralizar imediatamente no cenário europeu. Para além da seleção da coreógrafa, Caetano é um de nossos cantores com maior visibilidade no exterior, parte das músicas escolhidas é cantada em inglês e espanhol, há um desfile de corpos seminus que alimentam certo estereótipo erótico em torno do brasileiro...

 

Tudo isso surge empacotado em uma embalagem que exalta certo ideal de brasilidade, algo que carrega ainda um toque de exotismo mesmo em tempos globalizados. A diferença, aqui, em relação a tantos outros trabalhos já vendidos para fora, é que “Um Jeito de Corpo” não faz questão de apresentar só flores. Exalta-se também, na obra, contradições desse imenso país longe de ser cordial, e é interessante ver como o público se sente representado por isso.    

 

O aceno do Balé da Cidade para uma dança mais parecida com o que se dança cotidianamente na rua afasta a ideia de técnica como pedestal e devolve-a como pura ampliação de possibilidades. Dar uma chance para outro jeito de criar favorece aqui um fator de identificação singular entre bailarino e espectador. O elenco é ainda capaz de movimentos sobre-humanos, mas ele também dança como qualquer um de nós e partilha conosco de uma enorme sensação de prazer ao fazê-lo. Ao fim do espetáculo, deixa-se o teatro com vontade de dançar lado a lado com aquele grupo, e esse desejo é sempre muito poderoso.

Fotos: Rodrigo Fonseca/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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