Uma forma e uma fórmula de sedução

Por Henrique Rochelle

A abertura da temporada de 2018 do Balé da Cidade de São Paulo parece confirmar aquilo que começava a se observar como um plano de gestão de Ismael Ivo. Agora já há um ano encabeçando a companhia, Ivo nos apresenta sua quinta produção, e podemos começar a ver o que o tempo e suas propostas têm feito com a companhia.

 

A melhor das mudanças está no elenco, que vai se recuperando e voltando ao nível em que estávamos acostumados a vê-los em anos anteriores. Eles nunca foram menos do que bons, mas o hábito e a continuidade do trabalho, com toda a equipe sob essa nova proposta, finalmente vão surtindo efeitos tangíveis.

 

Aquilo que começou a se mostrar desde “Risco”, primeira das obras da nova gestão, continua, numa tendência que se afirma em um tom fundamental para a dança de agora, em um objetivo digno de elogio de se captar e seduzir público. Para tanto, Ivo tem apostado em grandes manipulações visuais, em estruturas de impacto que convencem — muito mais do que as coreografias que até agora vimos — dessa possibilidade da dança como escolha do público para a cultura e o entretenimento.

 

Mesmo se debruçando em temas sérios e atuais, há um tratamento palatável que aproxima o espectador — do espaço do Theatro Municipal, da obra, e da companhia. A temporada de agora começa com um incentivo a mais: Caetano Veloso, e, por resultado, “Um Jeito de Corpo - Balé da Cidade Dança Caetano” abriu sua segunda semana de apresentações com a temporada já esgotada. A direção do BCSP parece decidida a mostrar que a dança tem público, que a dança interessa.

 

Sim, estamos apoiados no palatável. Estamos apoiados em um nome tão grande como Caetano. E isso não pode ser encarado como fórmula, porque não é algo que se possa reproduzir e desdobrar. Mas é algo que funciona muito bem neste momento em que é colocado, de abertura de temporada. Funciona porque atrai grande quantidade de pessoas, e, pelo menos parte delas, não serão atraídas apenas para um espetáculo: devem voltar ao teatro para rever essa companhia, com a qual estão criando um vínculo.

 

Uma temporada esgotada já é, em si, uma forma de sucesso, porque revela o interesse do público por aquilo que ela propõe. Num momento em que tanto se fala sobre o esvaziamento das plateias de dança, o BCSP se volta àquilo que seduz o público. Seu mérito é reconhecer que certas propostas despertam um maior interesse, e trabalhar com isso — sob o risco de apoiar a produção no marketing, mas, no momento, colhendo doces frutos.

 

Não se tratou de fazer uma obra sem pulsão: o projeto do Balé da Cidade mistura aquilo que cativa o público com um tanto de pesquisa, de trabalho e de construção artística que justificam a sua existência para além do entretenimento. Para tanto, foi formada uma grande equipe de profissionais. Debaixo da assinatura de Ismael, que aparece sob a rubrica de “Ideia”, e da coreógrafa convidada, Morena Nascimento, encontramos também assinaturas de Dramaturgia, de Direção e Concepção Musical, que se juntam à Cenografia, Figurino, Luz, Consultoria, Visagismo, e um grande número de assistentes, num todo de fôlego.

 

Para desenvolver “Um Jeito de Corpo”, o BCSP olha para todos os lados, junta diversos convidados e organiza essa proposta na qual podemos ver, ora uma certa simplicidade no trato, ora questões mais profundas sobre a sociedade. Passamos da beira do mar em Copacabana à violência sexual e institucional, em diversos flashes — um retrato de um Brasil múltiplo, observado em diversas piscadas de olhos.

 

A estrutura musical contribui para essa sensação desde o início da obra, usando não os maiores sucessos de Caetano, mas diversas músicas — frequentemente menos notáveis de seu repertório — em samples, manipulações, releituras, edições e sobreposições que constroem uma continuidade, às vezes cíclica, às vezes instantânea. Desde as primeiras cenas, esse formato permite que Nascimento trabalhe a movimentação em alternadas combinações do extenso elenco da obra, e assim parecemos ver variações sobre os temas, que se desenvolvem a partir das canções, ou com elas de fundo.

 

Do lado negativo, as variações — e, como um todo, a estrutura que as organiza — não trazem nada de especialmente notável. Insistente nas entradas e saídas de cena, em agrupamentos previsíveis, o que vemos é uma coreografia de um só corpo: a obra parece um solo, executado simultaneamente por um elenco de mais de 30. Esse corpo só é magnificado pelos conjuntos, que formam uma massa — rica em teatralidade e em dramaticidade, mas menos potente em articulação. Depressa, a estrutura escorrega para o episódico, alimentado por essas entradas e saídas, e pela coreografia pausada de muitas poses, às vezes bem sucedida, mas cuja insistência enquanto forma de criação parece levar ao trivial, como se existissem para ocupar, preencher o tempo da obra.

 

Nesse todo misto, há bastante energia, bastante euforia e sentimento, mas também diversos momentos em que o elenco não é aproveitado coreograficamente, se ocupando apenas num andar pelo espaço à espera da hora da próxima ação ou da próxima pose. O resultado é um gosto intenso de laboratório de improvisação — que sabemos estar na base da nova proposta de direção, ainda que não tenha tido oportunidades de se revelar bem resolvido nos corpos que dançam.

 

Frenético, o espetáculo faz retrato de uma violência sensível, ainda que não se desenvolva em compreensões — nos trazendo uma transposição atual da sociedade, não por um trabalho temático, mas por sua construção cênica, composta de todas as muitas partes e muitos artistas envolvidos, e nem sempre tão bem solucionada.

 

O figurino, por exemplo, é de altos e baixos, trabalha desde formas sutis de revelar o corpo até uma proposta que parece recuperada diretamente de um VHS de ginástica ou lamba-aeróbica. Junta-se a isso a cara de praia da cena, e nos encontramos numa balada disco na areia, ou numa pool party de gosto questionável. Do diáfano ao colorido e estruturado, e terminando numa constância azul mais sóbria, trabalha diversas tendências de moda, e faz peças de roupa que provavelmente venderiam bem, mas seu ponto de vista enquanto figurino compondo o todo desse espetáculo é menos facilmente compreensível.

 

Ai fica um pouco menos resolvida a junção das partes. O próprio cenário, por exemplo —algo como uma casa abandonada —, ocupa o fundo da cena com uma porta que, ainda que visualmente interessante, atrapalha constantemente a movimentação, sendo aberta e fechada pelos bailarinos que passam por ela, e simplesmente dificultando a ação cênica, para nenhum resultado cênico perceptível. Ao final da obra, produz-se um efeito visual interessante, como se terra vermelha tomasse conta do palco, sendo soprada de uma das coxias. Mas bastava sentar um pouco fora do centro da plateia, que já era possível ver a equipe técnica e os ventiladores que organizavam o efeito — que parecia não funcionar tão bem quanto o esperado, pela reação frenética dos técnicos e pela movimentação nas coxias, insistentemente distraindo da cena no palco.

 

O efeito é bonito e chamativo para o encerramento, mas seu sentido cenográfico parece importar pouco, porque não tem tempo de desenvolvimento. Lembra bastante a estrutura de “Titã”, de 2016, em que a companhia dançava num cenário também ladeado por paredes, e sobre toneladas de arroz, mas sem causar a alteração na movimentação que naquele outro espetáculo foi produzida. Aqui, o efeito é puramente visual, e insiste mais pelo lado do surpreender e impactar o público do que por um objetivo de se construir uma proposta cênica sensível e palpável.

 

A ideia de se aproximar do público é fundamental para o Theatro Municipal e para a dança. E tem se apresentado em diversas estruturas dessa instituição — por exemplo, o #bisnomunicipal, momento ao final das obras em que a plateia é convidada a pegar seus telefones, fotografar, gravar e transmitir um trecho da apresentação, com a hashtag mencionada. Enquanto projeto, a ideia funciona porque atende ao que as pessoas querem fazer, ao como as pessoas querem interagir com esse espaço, que é público, mas precisa sim ser muito mais democratizado.

 

Porém, desde que foi instituído, o bis tem funcionado mal — do ponto de vista artístico — para a dança. Fosse uma apresentação de orquestra, o conjunto apenas precisaria voltar suas partituras para qualquer momento do que apresentaram, e reprisar a passagem escolhida para o público. Nas artes da cena, vêm os obstáculos como as trocas de figurino e as alterações do espaço cênico. “Um Jeito de Corpo” traz no bis uma de suas melhores cenas, mas com o palco agora coberto dessa “terra vermelha” e com os bailarinos vestidos em outro figurino — e a impressão que isso passa é de que os trechos e elementos da obra são intercambiáveis, de que suas propostas e suas múltiplas partes são independentes e não se articulam num todo artístico.

 

É uma pena, porque essa ação tem uma boa e bela repercussão com o público. Mas  ainda precisa ser pensada não só enquanto estratégia de marketing, mas dentro de suas forças moventes. Se o bis não cumprir simultaneamente seu papel de publicização nas mídias sociais e de criação de arte e de valor estético, ele será só parcialmente eficiente. Funcionará por um certo tempo para levar as pessoas — algumas vezes — ao teatro, mas não servirá para mostrar a elas todo o potencial dessa arte, nem todo o trabalho e o pensamento artístico que são desenvolvidos pelas notáveis equipes que se esforçam por muito tempo na elaboração dessas obras.

 

O que aqui encontramos é uma afirmação do ponta-pé inicial que Ivo deu logo ao assumir o Balé da Cidade: fazer espetáculos para o público. A missão é admirável, fundamental, e, com o tempo, poderá encontrar as boas dosagens de seus elementos, fazendo dança de primeira qualidade, para plateias amplas e ávidas. Esse primeiro ano de trabalho marcou uma melhora considerável na mistura dos ingredientes, e esperamos, ao final desse segundo ano, encontrar no palco resultados ainda mais bem sucedidos, em ambos os frontes.

Fotos: Rodrigo Fonseca/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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