Ousadia, langor e alguma provocação em cena

Por Josie Berezin*, convidada do CRITICATIVIDADE

Há alguns anos desenvolvendo um forte trabalho autoral em São Paulo, Morena Nascimento vem atraindo o olhar de um público curioso e entusiasmado em suas peças. Um público diversificado, vale dizer, que vem com o interesse de acompanhar as novas criações desta inquieta artista que busca provocar o lugar da dança em contato com outras linguagens artísticas, e que traz em sua trajetória, entre outras coisas, o mérito de ter dançado sob a direção de Pina Bausch, e de ainda hoje atuar como bailarina convidada da Tanztheater Wuppertal Pina Bausch.

Suas últimas peças – "Claraboia", "Rêverie" e "Antonia" – são de grande inventividade e força expressiva e cativam pela intensidade visceral e tamanha paixão com que são apresentadas. São peças que têm a capacidade de se comunicar diretamente com o público, que de alguma forma se sente conectado ou vislumbrado (ou use a palavra que preferir) pelas experiências sensoriais e estéticas que presencia. E sente que algo se transforma em si ou em sua relação com o mundo ao sair do teatro. A dança, a música, a ambientação cenográfica, a dramaturgia, tudo colabora para isso. 

Em “Um Jeito de Corpo”, nada disso foi diferente. Com o teatro lotado em todos os dias da apresentação, uma miscelânea de cores, sons, formas, movimentos e emoções se transforma e nos transforma. E não poderia ser de outro modo, com esta escolha assertiva do diretor Ismael Ivo. Para comemorar os 50 anos da Companhia, ele pensou em trazer ao palco do Teatro Municipal artistas da nossa cultura brasileira: “como um bom Jorge Amado (...); podia ter sido a adaptação de uma peça de teatro, um bom Nelson Rodrigues, podia ser uma poesia de Cecilia Meireles, um conto de Clarice Lispector, e de repente falei... Caetano Veloso!” (em entrevista concedida em março/2018 aos blogs Dicas de dança, e Agenda de Dança). E esta conjugação de Caetano com Morena não poderia ter sido melhor para o espetáculo que abre o tema do ano “mover de amor” do Balé da Cidade.

Ao longo do curto tempo de trabalho, Morena, dona de um olhar aguçado e intuitivo, faz surgir muitos jeitos de corpo a partir do material trazido de improvisação dos bailarinos, e de partituras coreográficas elaboradas por ela. O que resulta disso é um todo composto de muitas partes, um coro de 33 bailarinos que dança em uníssono mas que também abre espaço para cada um trazer a sua própria verdade e expressão, envolvendo a todos. Segundo Camila Bosso, assistente de coreografia, “Morena se encanta com as personalidades dos bailarinos, trabalha com todo o elenco em cena e sua vontade era de poder daz voz a cada um; ao mesmo tempo, não quer que as coisas se demorem, e se preocupa em trazer apenas o urgente e necessário para o espetáculo, de forma a ainda manter algo em segredo”. 

É dessa forma que “Um Jeito de Corpo” traz uma leitura das diferentes facetas de Caetano e de sua obra  para os corpos dos bailarinos. E há algo de muito brasileiro em cena (que por vezes lembra até um pouco da movimentação cênica do Grupo Corpo), com as “dores e delícias” que isso acarreta: muita sensualidade, alegria, ousadia, praia, carnaval, funk e espontaneidade, mas também violência, opressão, contradições e desigualdades, sobretudo a racial. Já nas últimas cenas, por exemplo, quando os dois bailarinos negros assumem o protagonismo no papel do “neguinho”, nos deparamos com uma evidente porém espantosa constatação: em todo o elenco do Balé da Cidade, no alto de seus 50 anos, não há mais que dois bailarinos negros (por quê?, nos perguntamos). E se por um lado estas cenas provocam uma certa emoção incômoda, trazem também um profundo questionamento sobre este tal protagonismo afro-descendente em nossa história: quando é que terão sua voz reconhecida nos espaços em que atuam? 

Essa questão, como muitas outras, são problematizadas nas diversas cenas, por vezes um tanto provocativas, mas construídas de forma muita poética. E permanecem em aberto, para que sua reflexão nos acompanhe com o fechar das cortinas do teatro, quando saímos ainda inspirados por tanta beleza em movimento, e entre um caetanear e outro.

* Josie Berezin é bailarina, arte-educadora e produtora. Realiza mestrado em Artes da Cena na Unicamp e mantém prática regular de dança moderna e contemporânea. Graduada em Ciências Sociais e com especialização em Gestão Cultural, foi colaboradora da Escola Fórum das Artes em diversos projetos de arte, cultura e educação, e colaborou também com o Museu da Dança com pesquisa e criação de conteúdo. Fez parte do Dança em Diálogo - grupo de estudos de análise e crítica de dança no CCSP, participa de performances de artistas diversos, e é integrante do ENTRE ELAS Coletivo de dança/ performance.

Fotos: Rodrigo Fonseca / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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