O incômodo olhar do outro ('Alla Prima')

Por Amanda Queirós

"Alla Prima" é dessas obras que, ao gosto da performance, acontecem a partir da obediência a algum tipo de dispositivo - no caso, uma instrução.

Diante do público, sobre o palco, Tiago Cadete tem por missão reproduzir a pose de pessoas retratadas em pinturas e fotos. Essas imagens são projetadas em seu próprio corpo nu, enquanto tenta desvendar o movimento até se transformar em estátua viva por alguns segundos, e também em uma tela por meio da qual o público toma conhecimento a que cena as ações dele remetem.

 

Obviamente, essas não são imagens aleatórias. O artista escolhe quadros de pintores como Jean Baptiste-Debret e Victor Meirelles, para citar apenas alguns. Popularizadas em livros escolares, as telas deles foram fundamentais para a construção das representações de como teria sido o Brasil em um momento em que ele ainda se esboçava enquanto nação. São cenas que mostram, por exemplo, negros escravizados carregando senhores de engenho e índios dóceis entre sinhás em paisagens tropicais idílicas.

 

De início, o processo de imitação é também acompanhado por vozes em off que descrevem as cenas trabalhadas, sobrepondo uma representação sobre outra. O interessante, aqui, é perceber os diferentes percursos traçados por cada locutor na hora de tentar explicar a cena diante de si. O que vale ser ressaltado? O que merece ser narrado antes do resto? E o que fica de fora?

 

Já estamos de pronto diante dos desafios do processo tradutório que Tiago impõe para si com "Alla Prima". O fato de o artista ser um português branco - sob o qual repousa o rótulo de colonizador - complica ainda mais as coisas. Com exceção do quadro “Primeira Missa no Brasil”, onde ele levanta o cálice tal qual o padre, sua primeira opção parece ser sempre incorporar o negro ou o índio.

 

A operação gera inicialmente um desconforto. Que autoridade tem ele para se colocar naquele lugar? Logo somos levados a pensar que os autores de boa parte daquelas imagens também estavam na mesma situação do artista, a de alguém que cria uma representação do outro a partir de referenciais alheios aos do protagonista da ação.

 

Após uma série de falas, Tiago segue seu trabalho de imitação de forma silenciosa, com um intervalo cada vez mais curto de uma imagem para outra. Os quadros que retratam a época colonial passam a ser intercalados com obras modernistas e mais atuais, inclusive fotografias explicitamente carregadas de tons políticos. Os movimentos gerados a partir das conexões perseguidas por ele de uma pose para outra (que agora deixam de ser pose para se tornarem elementos de passagem) acabam se transformando em uma espécie de coreografia ditada pela imagem. Um elemento imóvel guia a mobilidade. 

 

Ao transformar seu corpo em tela para esses quadros, ao mesmo tempo em que também age motivado por eles, o artista questiona os limites da representação, especialmente quando ela se dispõe a revelar, explicitamente ou nas subtexto, aquilo que nos faz brasileiros. Em uma cultura tão miscigenada como a nossa, é possível identificar quais imagens podem ser apresentadas como retratos genuínos e quais outras são uma invenção imposta por quem está de fora? O que está em jogo são séculos de representações que, como evidenciado pelo artista, são incapazes de dar conta de um país como o Brasil.

 

Em paralelo a esse debate, surge outro sobre o papel da representação na construção da percepção e, consequentemente, da comunicação. Problematiza-se, assim, os ruídos despertados quando se busca estabelecer algum diálogo em torno de identidades. Com isso, "Alla Prima" se revela um trabalho cheio de perguntas sem respostas cuja relevância está em complexificar debates muito atuais em torno de questões sobre lugar de fala, protagonismo e alteridade.  

Fotos: Luís Martins / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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