A big band de 'Big Bang'

Por Amanda Queirós

O nome do trabalho apresentado pelos uruguaios do Gen Danza é “Big Bang”, mas a ênfase que a obra carrega no coletivo e o peso da música durante toda a encenação bem que poderia fazê-lo se chamar também de “Big Band”.

Diante do público, 14 artistas se alternam na função de bailarinos e instrumentistas - isso quando não misturam as duas coisas ao mesmo tempo.

 

Na primeira parte, eles apresentam uma energia que vai sendo concentrada aos poucos a partir da lógica da acumulação: a entrada de uma bailarina é acompanhada apenas pelo som da bateria; quando a ação termina, ela repete toda a cena, agora com mais um dançarino e mais um instrumento e assim sucessivamente, até todo o elenco se revelar em cena.

 

Pouco a pouco, os gestos de cada um, que pareciam coreografados aleatoriamente e completamente individualizados, evidenciam relações de causalidade entre si. No fundo, eles não estão tão sozinhos quanto imaginávamos.

 

Com isso, a obra concebida por Andrea Arobba declara rapidamente a que veio. Seu interesse está em discutir as várias possibilidades de trânsito entre o singular e o todo a partir da perspectiva do indivíduo diante de uma comunidade.

 

Nesse contexto, é curioso perceber que o uníssono surge apenas em movimentos de espasmo. A massa formada aí, no entanto, logo se dissolve em núcleos que, por sua vez, se unem na criação de imagens distintas a partir da organização dos corpos dos bailarinos. Surgem então símbolos que evocam religiosidade, como totens ou os muitos braços de um deus Shiva, e também fertilidade, como o ato sexual e sua capacidade de gerar novas formas de vida. 

 

A energia concentrada no início se espalha ao longo de 75 minutos na repetição de padrões de concentração/dispersão e calmaria/frenesi à medida que a música ganha peso e intensidade - Andrea chama a peça de um “concerto de dança contemporânea”.

 

A sonoridade é orquestrada por um DJ, responsável por compilar o áudio dos instrumentos tocados ao vivo e elaborar na hora samplers sobrepostos continuamente uns sobre os outros. O barulho contribui para inserir o público ainda mais como parte daquele ambiente e amplia a sensação de caos em um espaço no qual muitas coisas acontecem simultaneamente. Portanto, quando o silêncio surge, vem acompanhado de uma extrema sensação de vazio que insere questões existenciais no trabalho.  

 

Para desenvolver “Big Bang”, o Gen Danza se apropriou de conceitos da física e da cosmologia que soam distantes do resultado final. É um sinal de que a tradução do tecnicismo cientificista para a esfera do sensível funciona ao deixar de lado o didatismo e absorver dela pontos em comum com o processo artístico. Afinal, tanto a teoria sobre o surgimento do universo quanto o trabalho do artista lidam justamente com uma energia de geração que, ao “explodir” - , dá corpo a matérias antes dispersas e amorfas.

 

O que Andrea se pergunta é que fim damos, cada um de nós, aos corpos que dispomos no mundo - uma busca incessante por significados que só podem surgir a partir das trocas com o ambiente e, consequentemente, com o outro.

Fotos: Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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