Sobre discursos e frustração ('Codex Mundo Algodão')

Por Amanda Queirós

A pesquisa artística de Sheila Ribeiro é norteada por temas da cultura digital. Seu discurso é recheado de palavras que estamos acostumados a ouvir quando falamos de redes sociais e tecnologia. São termos como decodificação, tags, plataforma, ubiquidade, realidade aumentada e acesso remoto. Em “Codex Mundo Algodão”, a expressão central é “hackear”.

Esse é o segundo trabalho de um projeto no qual Sheila se propõe a se embrenhar no pensamento de outro artista. Depois de rondar em torno de Wagner Schwarz, em “Codex Sangue de Barata” (2016), a performer escolheu trabalhar agora com Alejandro Ahmed, do Grupo Cena 11.

A parceria faz algum sentido. Ambos têm pesquisas que, mesmo por caminhos distintos, relacionam corpo e tecnologia e se preocupam de forma especial com os trânsitos desses elementos com o ambiente, resultando em um entendimento de que essa tríade (corpo-tecnologia-ambiente) é, no fundo, uma mesma coisa.

A princípio, a curiosidade está em tentar identificar quais elementos vistos em cena vêm de um ou vêm do outro, mas, já em poucos minutos, esse jogo se revela um tanto bobo e dá espaço à performatividade do corpo de Sheila.

Inicialmente sozinha em cena, ela se demora por longos minutos em uma espécie de transe. Em cada uma das mãos estão hastes que balançadas incessantemente em uma velocidade crescente. Elas surgem quase como antenas em um processo de conexão mental da artista com Ahmed, enquanto sua respiração encontra o ritmo do movimento e as pálpebras semicerradas deixam ver o branco de seus olhos.

Apertada por um corpete que lembra as próteses utilizadas pelo Cena 11, com os seios à mostra, ela começa um percurso de preparação, descortinando no piso um enorme de tapete de plástico. As passadas calmas de Sheila sobre ele produzem um barulho muito maior do que se poderia supor. O contraste entre peso e leveza se revela desde então uma das chaves do trabalho e introduz a cena seguinte, quando ela e seus parceiros artísticos põem para funcionar uma série de máquinas de algodão doce, dispostas no centro e em torno do espaço destinado à cena.

 

O cheiro de açúcar domina o ambiente, mas a guloseima não surge exatamente apetitosa. Ela é produzida em tons de um azul escuro, quase preto, entremeada por alguns feixes brancos. Os artistas despejam o produto nas máquinas e delas tiram chumaços que vão despejando em um só lugar, em frente ao público. Esse mesmo processo segue sem qualquer soluço por aproximadamente meia hora, até formar uma espécie de nuvem fofa sobre a qual Sheila se deita ao final. As máquinas são desligadas e, de bruços, ela começa a comer o algodão vagarosamente, enquanto o público se dispersa e deixa o local.   

Ao colocar o próprio corpo sobre o material, sobrepondo seu peso ao caráter quase etéreo do doce, a artista desfaz todo o esforço construído durante a performance. O mundo algodão presente no título, ao qual se associam um sem número de memórias infantis cheias de delicadeza e ternura, acaba achatado e se transformando em uma massa escura amorfa, sem encanto algum.

Uma enorme frustração paira sobre essa cena final. Enquanto público, partilhamos pacientemente, ao longo de uma hora, de um processo de preparação que, em meros segundos, tem seu resultado desmanchado como um castelo de cartas - ou como uma companhia que, ao perder seu principal patrocínio, vê anos de pesquisa artística escorrerem pelo ralo, como quase aconteceu com o próprio Cena 11.  

“Codex Mundo Algodão” se ergue, portanto, como uma obra frustrante sobre o sem número de frustrações que os últimos anos, assombrados por crises, têm imposto, em especial, aos artistas independentes.

 

Dentro desse contexto, vale questionar o discurso usado para vender o trabalho, mais preocupado com o dispositivo do que com o conteúdo. Esse não é exatamente um problema em si, pois é natural que uma coisa evoque a outra, mas, ao insistir em se guiar por terminologias da cultura digital, como nesse caso, Sheila parece apenas encontrar sinônimos descolados para conceitos que não são necessariamente tão inovadores quanto soam.

O pecado de “Codex Mundo Algodão” é, portanto, se apresentar como síntese de uma pesquisa complexa, mas não dar vazão, em cena, justamente à complexidade dessa pesquisa.

Fotos: Karin Serafin / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Instagram Icon
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now