Muito sofrimento por quase nada ('Dança Doente')

Por Amanda Queirós

A ideia de uma dança doente, como a que Marcelo Evelin se propõe a apresentar em sua criação mais recente, não desperta exatamente uma atração imediata. Chega-se ao teatro sabendo de antemão que as cenas a seguir irão incomodar. Acontece que, assim como há toda uma sorte de patologia e sintomas, há também diferentes escalas desse desconforto. Algumas são muito potentes e acabam encaradas como um sofrimento necessário para se chegar a um outro lugar. Outras simplesmente não conseguem se justificar e surgem apenas como um mal-estar que se encerra em si mesmo, a angústia pela angústia.  

 

“Dança Doente” se enquadra na segunda categoria. Durante 90 minutos, o público se põe a testemunhar corpos que se distorcem e se revelam como que ao avesso. Eles se opõem a ideais de beleza não só no que diz respeito às formas que apresentam, mas a como se movem, de modo completamente descontrolado. Em vez da imposição de uma coreografia ou de técnicas formatadas, eles dançam de forma individualizada como em um fluxo de consciência corporal, sem raciocinar muito sobre os caminhos percorridos por braços, pernas e troncos. É cada um por si, emulando dor e gestuais que aludem ao impacto de certas doenças mentais na organização física de quem é acometido por elas.

Diante de toda essa cena, uma única bailarina permanece estática e impassível por um bom tempo, tal como o público diante do que está vendo, até ela ser tragada por esse núcleo que passa a se debater por trás de um painel escuro responsável por lhes cobrir as cabeças. Aqui, Evelin segue à risca uma das máximas do japonês Hijikata Tatsumi, que lhe serviu de inspiração para o trabalho: “Quero pensar a minha dança como a dança de uma galinha decepada”, dizia o mestre do butô.

O efeito inicial é por vezes cômico e também dramático, mas a dilatação da ação em um moto-contínuo de movimentos cada vez mais enérgicos, executados sob uma trilha tensa, faz com que ela se torne incapaz de levantar uma reflexão profunda em torno do que se vê. Para contrapor a ideia de uma dança supostamente sadia - ou seja, capaz de evocar beleza -, os bailarinos desempenham o estereótipo do que seria uma dança feia. Essa aposta no banal enfraquece o poder questionador desse movimento “do contra”, produzindo uma cena mais aborrecida que provocadora.

Enquanto isso, uma passarela traçada em branco pelo palco recebe uma espécie de desfile “freak”, no qual os elementos que dançavam “sem cabeças” se revezam. Ele é sucedido pelo solo de um bailarino que, com vestes remetendo ao candomblé, apresenta o número mais reconhecível como dança dentro das concepções do mundo cênico ocidental.

Tudo isso é interrompido pela violência com a qual dois bailarinos - um deles o próprio Evelin - se atracam em cena, simulando um ato sexual. Por longos minutos, eles perseguem as partes um do outro despudoradamente, mas não é o desejo que os guia. Há outra força presente aí, e ela carrega um ímpeto mais destrutivo do que o caráter de geração e de renovação intrínsecos ao sexo.

   

Diante de tanto desconforto, a cena final surge como um alívio. À medida que o palco esvazia, um homem de vestes brancas o percorre lentamente enquanto toca, também de forma devagar, algumas cordas do instrumento carregado à mão. Ele cumpre a missão de trazer certa paz para quem está prestes a deixar o teatro, mas a caminhada é tão vagarosa que, a seu fim, esse sentimento acaba mesmo substituído pela impaciência.

Com uma discussão sobre os impasses das danças que têm sido feitas no presente, “Dança Doente” surge, curiosamente, como um trabalho repleto de intenções saudáveis. O tiro, no entanto, tem muita dificuldade de acertar o alvo. Ao instigar uma dança que parece fazer questão de se autodestruir, Evelin decreta o fim dela, ou seja, em vez de fazê-la reencontrar sua força, o coreógrafo evoca o sentimento de que, no fundo, essa dança não vai fazer tanta falta assim após deixar de existir.

Fotos: Maurício Pokemon / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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