À procura da liberdade
('Do Desejo de Horizontes')

Por Amanda Queirós

Na ordem do dia, a atual crise de refugiados sofre de um desafio comunicacional. De tão presente no cotidiano dos noticiários, ela passa por um momento de banalização. As imagens de sofrimento são tão parecidas umas com as outras, repetidas há tanto tempo, que deixam de provocar diferenciação. Consequentemente, elas perdem sua capacidade de sensibilização e, quanto mais o tempo passa, mais longe a questão parece estar de ser resolvida.

O que o coreógrafo Salia Sanou faz com “Do Desejo de Horizontes” é usar a dança para dar nova potência a esse campo do sensível, apresentando os corpos dos refugiados não a partir dos dados frios da geopolítica internacional, preocupada em entender números e fluxos migratórios, mas de sua humanidade.      

Como entrega o título, o caminho percorrido pelo trabalho, criado a partir de oficinas em campos de refugiados em Burquina Faso e no Burundi, tem como guia justamente as mais diversas manifestações do desejo. Em vez do lamento puro (e justificável), entra em cena a esperança, mas nuançada pelos obstáculos que se impõem no caminho desses personagens.

Isso se revela, por exemplo, no elaborado trabalho de braços dos bailarinos, que evocam um bater de asas cada vez mais forte e intenso. Os pés deles, no entanto, não saem do lugar. Quando o fazem, em saltos que procuram o alto, os corpos desfalecem logo em seu reencontro com o chão.    

As camas de campanha usadas como cenário trazem à memória o dia a dia dos acampamentos. Essa lembrança vem acompanhada de outras imagens duras, como quando os bailarinos se amontoam uns sobre os outros, remetendo às pilhas de corpos daqueles que não sobrevivem às arriscadas travessias de fuga pelo mar ou à violência contra a mulher nesses espaços de confinamento.

Enquanto esperam por um destino que não vem e que eles mesmos não têm capacidade de tomar pelas mãos, os refugiados reivindicam seu status de gente a partir da poética. O caráter de coral do movimento dos pés deles reforça a unidade que estabelecem entre si, uma estratégia de sobrevivência para seguir em frente.  

Dispostas na vertical, as camas se transformam em um misto de labirinto, esconderijo e prisão, onde a inteireza dos corpos fica distante do olhar do público. Os bailarinos destroem essa estrutura de dentro para fora, como um grito pelo fim dos muros e da invisibilidade que o mundo ocidental, sem saber como tratá-los, determina sobre eles.     

  

A beleza de “Do Desejo de Horizontes” está em trabalhar em cima de tantas imagens negativas e, mesmo assim, conseguir extrair alguma alegria dos indivíduos que a protagonizam. Sobre motos, tão presentes em comunidades mais pobres, os bailarinos tomam o palco, aos pares, retomando o uso dos braços como asas. Nesse momento, tomam de volta a sensação de liberdade perdida. Dançando e cantando juntos, eles atestam para si mesmos e para nós a potência da cultura e do afeto como meio para reafirmar suas existências e resistências.     

Fotos: Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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