'Você não perdeu nada' ('Ó')

Por Henrique Rochelle

“Ó” é uma obra conceitual. Não está ali precisamente para ser vista, mas para fazer pensar. O que isso significa? Numa observação bem rasa, significa que o público que assiste à peça acaba se dividindo em dois grupos grosseiros: aqueles que se interessam por refletir sobre aquilo enquanto assunto, e aqueles que só esperam a obra terminar. No programa, e na proposta, reflexões sobre Orfeu e Eurídice, sobre olhar pra trás, “experiência meditativa”, “dramaturgia tátil”. Na prática, como alguém do público explicava para um casal de amigos que se atrasou e não pode entrar na apresentação final do trabalho na Bienal SESC de Dança, “você não perdeu nada, eles só rolam no chão o tempo todo”.

 

Um soco no estômago. Mas, de fato, com alguma razão. A estrutura cênica é realmente isso. Dois bailarinos rolam no chão, com os corpos esticados. Eventualmente eles batem em algo (ou alguém do público, deixado solto pelo espaço do Armazém do CIS Guanabara), e isso faz o movimento dos intérpretes alterar de sentido. É isso. O principal dispositivo que acorre à composição é o público, que rapidamente entende o seu papel e passa a brincar com os intérpretes, propositalmente interferindo nos caminhos que eles trilham rolando pelo chão.

 

Faz lembrar propostas pós-modernas de rompimento com a noção de escritura coreográfica e de controle do coreógrafo sobre a criação da obra de dança. Mas não é esse o caso. Cristian Duarte assina coreografia e direção. Assinasse como “Proposta”, seria bem entendido seu papel, e a relação do trabalho com essa estrutura apontada. Como “Diretor e Coreógrafo”, não.

 

Mesmo que fizesse sentido, restaria a pergunta: quanto a dança pós-moderna ainda é contemporânea? Porque já são décadas de insistência em questões repetidas e retrabalhadas à exaustão e em múltiplas formas. Relevante? Precisa ser. Claramente, os artistas ainda sentem a necessidade de se voltar para esses tópicos. A dúvida é se essa necessidade ainda é sentida quanto à dança ou se ela trata apenas do indivíduo-artista-contemporâneo.

 

Do que é anunciado como uma intenção de “modular a percepção e o afeto”, nada fica. Longo e arrastado, o espetáculo só se sustenta porque duas ou três pessoas bem dispostas da plateia continuam “interagindo” com os intérpretes, enquanto a maioria se esquiva, observa e espera a coisa acabar. Aqui, o cíclico, o repetitivo, o constante, não levam ao hipnótico, mas ao cansativo, transformado em entediante pela temporalidade prolongada da obra. Economia comunicativa: qual o tamanho dessa ideia e o tempo / forma de sua comunicação? Se pensarmos na comunicação matematicamente, aquilo que carrega mais sentido são os elementos diferentes de um conjunto, que, nessa estrutura de repetição e constância, são paulatinamente apagados pelo “eles só rolam no chão o tempo todo”.

 

De certa forma, há na obra um intelecto: quanto pode ser subtraído da dança até que ela ainda seja dança — o que não é, em nenhuma instância, uma proposta autoral, tampouco nova. Muito pelo contrário. Mas é ainda uma proposta perigosa, por ser negativa, no sentido de ser subtrativa. Até um pouco oposta aos acúmulos quase distópicos que moldaram certas formas do contemporâneo (também exemplificadas em outras obras dessa Bienal, diga-se de passagem). Entre os dois extremos, onde está o equilíbrio? A quem esse tipo de exercício realmente interessa?

 

“Você não perdeu nada, eles só rolam no chão o tempo todo”. Mas esse só rolar no chão carrega conceito e história. Já pesquisa e desenvolvimento, talvez menos. Nessa obra, o que parece importante é o pensar, e não o transmitir, não o se fazer entender. Algo que tem seu lugar, tem sua relevância, mas para um grupo reduzido de iniciados dispostos. 

 

“Ó” é uma daquelas obras que faz pensar sobre a estrutura da própria dança, mas, mais que isso, faz pensar sobre a estrutura de um evento como esse, cujas escolhas curatoriais parecem identificar uma tendência clara e repetitiva, com mais atenção aos artistas do que a seus públicos, e insistindo numa nucleação: grande parte dos que se apresentam nessa Bienal têm alguma relação de proximidade, histórico de colaborações de trabalho recente, etc. O resultado é uma Bienal de nicho. Atende a um grupo de artistas, e atende a um tipo bem pontual de produção em dança — que nem sempre se preocupa com seu público.

 

Emprestando as palavras de um outro indivíduo, de uma outra plateia (agora de uma mesa na primeira tarde da Bienal), “vocês vão ter que suar muito pra gente entender isso que vocês estão fazendo”. E, literalmente, sim, os bailarinos suam. Mas fica a observação, para artistas e curadores, que talvez essa referência fosse mais metafórica: há, sim, interesse em entender “essa tal dança contemporânea”; mas onde está e como nos é mostrado o interesse em se fazer entender?

Fotos: Federico Gomes / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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