Dança enquanto grito
('Título em Suspensão')

Por Amanda Queirós

Não é só o título que está em suspensão na mais nova criação em solo de Eduardo Fukushima. Tudo presente na cena parece ainda esperar por acontecer.

Essa sensação é reforçada pelo quase imobilismo do bailarino em comparação com o virtuoso vocabulário de movimento com o qual ele costuma trabalhar, calcado nas possibilidades das articulações de seus braços, tronco e pernas.

 

Ao adentrar a cena, o público é convidado a sentar ao redor de Fukushima tal como em torno de uma fogueira, uma sensação ampliada pelo barulho de crepitar que sai das caixas de som. O bailarino mantém um olhar completamente impassível ao que acontece em sua volta até que o som estoura e as luzes apagam, como se fosse um terceiro sinal.

 

Enquanto a iluminação volta, começa o movimento. Sem perder sua conexão com chão, mas sem nunca ficar de pé, ele se desloca lentamente, de forma quase minimalista. Antecipando o percurso, o público abre espaço para vê-lo passar.

 

Nesse caminho, ele faz surgir de dentro de sua roupa alguns objetos, como espetos, que tomam por um momento o lugar das mãos, e chocalhos, que, balançados junto ao tremor do corpo do bailarino, fazem-no parecer um brinquedo.

 

Um som cada vez mais alto surge no ambiente. Não dá para entender ao certo se ele reproduz uma avalanche, a demolição de um prédio ou a derrubada de árvores, mas fica claro que o áudio remete a uma força de destruição avassaladora e incontrolável, que só acaba a seu próprio tempo.  

 

Fukushima obedece ao comando da trilha. Antes feito com cuidado, o percurso ganha velocidade e imprevisibilidade. Sem cerimônias, o bailarino começa então a cortar o público ao se jogar sobre ele, que não tem tempo de se desviar. Quando volta ao mesmo lugar de início, ele põe uma pedra a sua frente, para a qual mantém o mesmo olhar impassível do começo, e a ação cessa.

 

Ter como ponto final uma pedra no meio do caminho, em um país que leu a poesia de Drummond, faz com que “Título em Suspensão” faça questão de sublinhar que é, no fundo, uma reação ao atual estado das coisas.

 

Apesar de partir da busca por uma reconexão com o que há de ancestral no homem, como sua relação com a natureza, Fukushima não abandona seu ponto de partida: um meio urbano cada vez mais esfacelado. Diante do esmagamento do sujeito nesse espaço,  especialmente nos contextos políticos e sociais dos dias de hoje, sua única ação é gritar - um gesto traduzido por um percurso de orientação difusa, que busca chamar a atenção ao cortar o caminho do outro.

Isso faz com que a obra atinja o público como uma resposta artística imediata e um tanto desesperada à realidade na qual se insere. Mas, justamente por ser extremamente reativa, falta a essa resposta algum tipo de horizonte capaz de colocar o panorama apresentado sob uma perspectiva para além do status quo.

 

O resultado é agridoce, pois o trabalho guarda uma força que se dissipa em si mesma, sem direcioná-la para algum fim capaz de transformar o que se vê ou apontar para outros caminhos, lugares ou ações.

Fotos: Cristiano Prim e Dorothee Haeseling / 

Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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