Com pesquisa louvável, Colker fala de realidade chocante sem chocar

Por Amanda Queirós

À primeira vista, os espetáculos de Deborah Colker e os filmes de Cláudio Assis parecem como água e óleo. Deborah é afeita ao grandioso, o surpreendente e o belo. Cláudio, por sua vez, costuma trabalhar com uma estética crua, suja mesmo, e uma atenção especial para o que senso comum considera feio. Que conversa seria possível entre esses dois para “Cão sem Plumas”?

 

O fato é que, mesmo ao falar do que está à margem, o diretor pernambucano nunca descuidou da imagem. Quem escala um Walter Carvalho para fotografar seus filmes (como no caso da trilogia “Amarelo Manga”, “Baixio das Bestas” e “A Febre do Rato”) busca definitivamente seduzir o olhar. Seu cinema também é muito carnal. A psiqué de seus personagens se constrói no próprio corpo deles, e é como um caldeirão de desejos que eles se colocam no mundo. Assim, encontramos pontos de conexão para os dois começarem a trabalhar em cima do poema de João Cabral de Melo Neto.  

 

O texto do escritor pernambucano carrega as características que tornaram a literatura dele grande. Suas construções de palavras são extremamente simples e falam de coisas muito concretas. Ainda assim - ou justamente por isso -, elas projetam uma densidade que, acumulada a cada verso, entra na pele e reverbera no pé do estômago. Assim como acontece com o cinema de Assis, esse é um texto escrito na pele, e fica fácil entender porque Deborah, que tomou o corpo como profissão, ficou tão mexida ao lê-lo.

 

A amálgama proposta entre poema, dança e cinema é poderosa e resulta no espetáculo mais coeso e instigante da companhia desde “Nó” (2005). Obcecada pelo trabalho e pelo controle em tudo que faz, a coreógrafa se permitiu ser desestabilizada por novas parcerias e processos de busca de movimento fora das quatro paredes da sala de aula. O que surge em cena mostra o quanto isso é saudável.

 

Vistos nos últimos tempos em obras aéreas, como “Vero”, os bailarinos surgem agora mais pesados. Com em “Gira”, último trabalho do Grupo Corpo, os movimentos buscam sua energia da relação entre os pés (e, por vezes, das mãos) e o chão. As linhas nobres dos bailarinos ganham leves borrões com os ombros curvados à frente. As referências de danças tradicionais do interior de Pernambuco são explícitas e enriquecem o vocabulário de Colker, conferindo balanço e soltura de braços, tudo com muito vigor, como se vê desde o poderoso solo de abertura. Ao centro, sob o foco, um bailarino surge com visual esbranquiçado e dança em meio a uma nuvem de pó que ele mesmo levanta ao atingir coxas e tronco com as próprias mãos, resultando em um visual à la butô.

 

Os duetos surgem especialmente inspirados. Na busca por evocar imagens encontradas no sertão, os corpos se encaixam uns nos outros de maneira nada óbvias. Dois deles se transformam em um só, uma criatura disforme evocando o bicho-homem que Colker buscou retratar aqui. Essa ideia se reforça a partir da indistinção proporcionada pelos figurinos, formado por malhas cor da pele pintadas com lama. Às vezes fica difícil saber onde um começa e o outro termina, e esse quebra-cabeça instiga o olhar.

 

Vale falar um pouco mais sobre esse embaralhamento proporcionado pela forma como os bailarinos se apresentam. As últimas criações da companhia - “Tatyana” (2011) e “Belle” (2014) - foram calcadas na ideia de personagem, ou seja, via-se ali o indivíduo em maior evidência que o coletivo. Acontece que a lama é democrática. Ela coloca todos no mesmo patamar.

 

Em cena, o gênero se dilui, homem e mulher viram uma coisa só. Os momentos de conjunto, sempre muito bem ensaiados, se destacam justamente por ressaltar essa massa de corpos castigados. É uma metáfora poderosa para a indiferenciação dos corpos que não apenas habitam, mas se transformam na própria aridez retratada no vídeo. Aqueles sujeitos são a própria terra rachada, e os bailarinos surgem justamente como essas fraturas.

 

Quase toda a coreografia é acompanhada pela projeção do filme criado por Cláudio Assis durante uma viagem de imersão do elenco pelo interior pernambucano. Em preto e branco, o vídeo acrescenta mais uma camada expressiva ao trabalho dos bailarinos ao explorar a conexão do público com o olhar deles - uma relação muitas vezes diluída em teatros de grande porte - a partir do contraste do branco do olho com a pele escurecida pela lama.  

 

Ouvi alguém diagnosticar uma competição entre o vídeo e a dança, forçando-se a escolher para o que mirar. De fato isso ocorre, mas não é de todo ruim que o faça. O fundo do palco, com seu pé direito alto, faz às vezes daquelas telas gigantes estilo Imax, e essa parece uma escolha adequada para nos fazer nos perder na vastidão da secura do rio. O fato de os intérpretes acabarem engolidos pela dureza dessas imagens reforça essa sensação.

 

Isso acontece de forma ainda mais interessante na cena que alude a um canavial. Junto à das palafitas, na qual os bailarinos interagem com caixas de madeira e pedaços de pau, esse talvez seja o trecho no qual está mais evidente o DNA de Deborah, sempre preocupada em fazer a dança estabelecer relações inovadoras com o espaço.

 

Nele, uma nova tela é sobreposta à que está no fundo. Ela está recortada em tiras verticais que são deslocadas e cruzadas pelos bailarinos. Algumas estão amarradas aos próprios intérpretes e balançam ao ritmo da dança deles. Nesse momento, a luz se concentra na projeção e eles ficam sob a penumbra. O que se vê é uma acumulação de movimentos: da própria câmera, dos bailarinos no filme, dos bailarinos em cena e da projeção “dançando” entre duas telas. O efeito é hipnótico.   

 

O elenco cresce em relação ao vídeo em números que ressaltam o aspecto massivo desse conjunto, como quando todos, movendo-se em uníssono, simulam um enorme caranguejo. Eles são apenas 13 pessoas, mas tomam conta do palco de tal forma que parece pelo menos o dobro.

 

A dramaturgia do espetáculo, também de Cláudio Assis, é clara até demais, mas não encontra esse mesmo eco na música, assinada por Jorge Dü Peixe, da banda Nação Zumbi, e Berna Ceppas, velho parceiro de trilhas de Colker. As batidas do manguebeat soam empolgantes de início, mas, ao longo do espetáculo, faltam nuances capazes de acompanhar a dramaticidade proposta pelo vídeo e pela dança, fazendo com que elas soem mais como panorama sonoro do que uma trilha que se conjuga a todos os outros elementos cênicos. Isso se destaca ainda mais quando trechos do poema de Melo Neto são recitados por Lirinha, mas boiam no meio do ritmo proposto. A indistinção que funciona bem para a estética dos bailarinos não funciona para a música.  

 

Com todos esses elementos na mão, Colker enfrenta algumas questões. Como tornar a realidade do outro também a sua própria realidade? Como usar o espetáculo sem espetacularizar? Como criar diferença a partir de um sistema de indiferenciação? O esforço de pesquisa da coreógrafa é visível em cada elemento do que apresenta, mas, no fundo, fala-se de uma situação chocante sem chocar. “Cão sem Plumas” é, portanto, um deleite visual que chega na pele, mas ainda tem dificuldade para se entranhar no estômago tal como o poema no qual se baseou.

Fotos: Cafi/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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