A escassez e o excesso

Por Rodrigo Monteiro, convidado do CRITICATIVIDADE *

Ao partir do poema “Cão sem plumas”, de João Cabral de Melo Neto, Deborah Colker investe em um processo tradutório para criar um outro “Cão sem plumas”, um que acontece na dança, no palco. O movimento de tradução que Deborah Colker desenvolve parte de um certo entendimento do que é virtuoso: o que é grande, forte, bom e belo. Pode a tradução ser um movimento de percepção que convoca uma outra possibilidade de virtuosidade?

As traduções são operações constantes em trabalhos de dança. Tradução não é somente aquilo que acontece quando um idioma é traduzido em um outro. Ela também acontece entre linguagens, quando um conjunto de informações é organizado em outro sistema, um outro conjunto de vocabulários conectados através de uma gramática. O que se busca em uma tradução é a comunicação, em um outro sistema, do que estava sendo comunicado anteriormente em um primeiro. Processos tradutórios trabalham com formulação de imagens, imagens essas que não precisam ser necessariamente as visuais, mas também aquelas que lidam com uma composição complexa de outros signos, como a memória, a percepção corporal de si, a percepção do outro e do ambiente. A tradução escolhida por Deborah Colker trouxe à cena um emaranhado de imagens muito coladas a um entendimento bastante particular de virtuosidade, um em que a visualidade é convocada o tempo todo.

A virtuosidade trabalhada por Deborah Colker é aquela em que o objeto apresentado é cerceado pelas qualidades triviais que definem o que é bom: ele é forte, grande, preciso, sem erros aparentes. Tais características convidam o espectador a fazer o que ele faz de melhor em uma sociedade cognitivamente treinada na produção imediata de muitas imagens visuais: bradar. Não há tempo para se aprofundar, de entrar nas imagens; os significados são alcançados de forma quase instantânea. Em tempos de hábitos que vangloriam mais e mais as grandes produções da indústria do entertainment, o virtuoso, quando colocado na dança a partir deste mesmo entendimento, corrobora para que ela cumpra com protocolos dados, ao invés de ser propositora de outros tempos e espaços para a percepção.

Quando se traduz um poema em corpos que compõem com o movimento, com o espaço, com o tempo, com uma trilha sonora e, no caso de “Cão sem plumas”, também com um material audiovisual, é imprescindível que as conexões entre todos esses elementos não sejam somente uma figuração das palavras daquele poema. Para dançar “Cão sem plumas” de João Cabral de Melo Neto, é necessário dar consistência aos materiais supostamente invisíveis de sua obra; é trazer ao ritmo e à fluência uma poesia que está no poema, mas que está em camadas que fogem do domínio das palavras lá colocadas.

Nesse sentido, haveria um outro entendimento possível de virtuosidade a ser trabalhado. Baseado em uma concepção desenvolvida por Aristóteles a respeito da práxis e da política, o filósofo italiano contemporâneo Paolo Virno traz, em “Gramática da Multidão: para uma análise das formas de vida contemporânea”, outras conotações para a virtuosidade. Para este autor, o virtuoso está relacionado à produção de trabalho, mas um trabalho que não gera um produto, uma obra separada do ato. Pelo contrário: o próprio ato tem um fim em si mesmo, ele é o trabalho. A tradução também tem um fim em si mesma, sem que sejam gerados produtos dela. Outro importante ponto colocado por Aristóteles acerca da virtuosidade e que Paolo Virno relembra é que para uma atividade ser virtuosa, é necessário que ela seja desenvolvida na presença de um público. Uma vez que a virtuosidade não implica em um produto que resulte de uma atividade, ela requer que a presença seja fundamental entre aquele que a realiza e as testemunhas de sua execução. O virtuoso, com isso, vai além daquilo é forte, grande, preciso e sem erros aparentes. Por não oferecer um produto para além do próprio ato, a virtuosidade é uma qualidade que convoca a conexão entre artista e público. É aí que outras formas de aproximação podem se dar, que não aquelas que apelam para a virtuosidade do suposto bom. Através desse conceito de Paolo Virno, a tradução pode também ser virtuosa a partir do momento em que ela opera com a abertura de espaços para a significação, ao invés de oferecer os produtos já esperados e validados. É nesse entremeio criado que outras possibilidades de comunicação emanam. 

Ao trazer ao mundo imagens que figuram as palavras de um poema, “Cão sem plumas” nos dá representações achatadas em termos dessas possibilidades de significação. Toda a composição é forte, grande, precisa e não possui erros aparentes de execução; no entanto, aquela virtuosidade que convoca uma conexão mais radical, uma que pudesse encontrar sentidos outros a partir de um mergulho mais profundo feito na execução do ato, não acontece. Em “Cão sem plumas”, o objeto ofertado é também aquele que é demanda dos hábitos do excesso. Tudo é feito na intensidade do demais e o que poderia ser desvelado na singularidade da execução e no encontro entre artista e público é deixado de lado, em nome da realização daquilo que já se faz bem.  

* Rodrigo Monteiro é educador e produtor cultural. Bacharel em Comunicação das Artes do Corpo e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Atuou no Projeto 7x7, projeto artístico de escrita sobre dança. Foi professor de teoria da dança do CLAC - Centro Livre de Artes Cênicas. Atualmente, integra o núcleo de artes cênicas do Itaú Cultural. 

Fotos: Cafi/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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