Quem é o agente da ação de 'Mira'?

Por Amanda Queirós

“Mira” é uma obra que nasce a partir da forma. Em vez de se montar uma coreografia para o palco e depois adaptá-la para a tela, faz-se aqui o caminho inverso: a prioridade é a câmera  no caso, uma capaz de registrar os bailarinos em 360 graus. O dispositivo não é o teatro, mas o vídeo.

Há, no entanto, um singularidade: diferentemente do que ocorre em uma produção gravada para a TV ou o cinema, na qual os planos, ângulos e enfoque da imagem são determinados de forma unilateral pelo diretor, esta obra confere um protagonismo maior ao espectador. Ao rodar em torno de si com os óculos de realidade virtual ou mesmo o smartphone, é ele quem define o que importa para a narrativa que ele vai construir a partir do que vê.

 

A princípio, esse excesso de liberdade pode assustar o ego de muitos criadores. Afinal, ele significa abrir mão de uma pretensa garantia na transmissão da “mensagem” da obra. Mas “Mira” - a tirar já pelo nome - foi feita propositalmente com esse desapego em mente. O que importa é experimentar uma possibilidade nova e começar a testar quais poéticas esse suporte pode evidenciar.

 

A coreografia de Milton Coatti, portanto, gira (literalmente) em torno desse conceito. Dispostos inicialmente em um círculo ao redor da câmera, parados, os bailarinos convidam o espectador a um reconhecimento daquele território. Ele é o centro da ação que vai se desenrolar em seguida, um canon que determina o início dos movimentos e conduz para onde se deve começar a olhar.

 

Ao orientar a visão, esse recurso confere a sensação de espaço percorrido e, justamente por isso, é usado em abundância ao longo da obra, embalado pela tensão do crescendo de cordas da trilha de Max Richter.

 

Bastante simples, a estrutura coreográfica se alterna basicamente entre quatro momentos: filas, agrupamentos em conjunto, duos breves e cada bailarino afastado um do outro. Para além da exploração do espaço - que evidencia a sagaz escolha do côncavo branco da Oca como cenário, realçando o conceito de circularidade em torno da obra -, essa oscilação entre concentração e dispersão remete à estrela Mira, que muda de aparência de tempos em tempos e também serviu como inspiração para o trabalho.

 

Distantes entre si, os artistas se relacionam ora pelo uníssono, ora pelos canons - apesar de isso nem sempre ficar evidente a partir do ângulo em que se vê a ação. Esses pequenos momentos de falsos solos trazem uma ideia de individualidade partilhada com espectador, transformado também em uma figura isolada, longe da formação de plateia à qual é costumeiramente relegado.

 

A tecnologia impõe algo estranho nessa relação. Se à primeira vista há o fascínio da descoberta de um jeito novo de ver dança, a revisão deixa mais evidente suas limitações. A pouca fidelidade de imagem faz com que os rostos e expressões dos bailarinos se percam, esfriando a conexão com as emoções que eles dançam. A impossibilidade de aproximar a vista do elenco ou focar em detalhes, bem como a necessidade de adaptação ao uso do óculos ou o manejo do celular, também nos lembra que aquela experiência não é uma imersão tão autônoma quanto se pretende. Quem dança está muito perto e, ao mesmo tempo, muito longe.

 

No fundo, “Mira” é uma obra tão mediada quanto qualquer outra pensada para o palco ou para a tela. Afinal, estamos falando de representação. O que o vídeo retrata não é a coisa tal como ela existe no mundo, mas um recorte possível que passa sempre pelas escolhas de outras pessoas. São elas que definem o quanto de agência é concedido ao público em um ambiente que, no fundo, é extremamente controlado.

 

A introdução da tecnologia é, certamente, um fator desestabilizador, mas, assim como acontece no dia a dia, ela é rapidamente normalizada. E, quando isso acontece, qual o próximo passo? Penso em interações como as dos videogames, em que cada ação do jogador determina uma recombinação específica dos rumos da história, tornando-o ainda mais protagonista, apesar de ainda se valer de um avatar para ser introduzido naquele meio.

 

Enquanto isso não chega, um interessante exercício para subverter “Mira” é vê-la sem o recurso de 360 graus, em uma tela plana e estática. A captação panorâmica das imagens gera uma distorção intrigante. Os bailarinos surgem ainda mais longe do que deveriam, e o espectador se vê desnorteado, sem saber o que é frente ou trás. A noção de espaço é redefinida a cada instante e gera surpresas, como quando alguém some da tela no lado direito e imediatamente reaparece do lado esquerdo. O dispositivo, portanto, realça o caráter fictício do que se vê, e é excitante poder testemunhar uma realidade paralela impossível de ser reproduzida apenas com carne e osso.

Fotos: Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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