Espiritual e festiva, estreia do Corpo usa chão para mirar o alto 

Por Amanda Queirós

Em entrevistas sobre a nova temporada do Grupo Corpo, o coreógrafo Rodrigo Pederneiras afirmou que a formação de um programa reunindo "Bach" (1996) e a estreia de "Gira" era mero acaso do calendário. Bobagem.

Há tempos não se via a companhia dançar uma noite ao mesmo tempo tão espiritual e festiva a partir de dois trabalhos extremamente diferentes, mas, ainda assim, muito próximos.

 

"Bach" é uma antropofagia mineira do compositor alemão. Marco Antônio Guimarães extrai dele o sumo musical e o retrabalha à sua moda, enquanto Pederneiras faz o mesmo com o movimento. A aura do sagrado que emana da partitura original é profanada pelo barroco brasileiro, portanto, a partir de sons de órgãos, sinos e coros tão presentes nas igrejas das Gerais.

 

Isso se desenha desde o início, quando o pano abre e vemos os bailarinos abraçados a longilíneos tubos pendurados no teto. Pouco a pouco, eles escorregam desse órgão antropomorfizado e caem no palco, onde apresentam sua dança. Ao longo da obra, vão buscando retomar o contato com os tubos ora vestidos em azul, ora em preto, ora em dourado, como notas musicais em uma partitura invertida. É uma movimentação difícil, que exige muita força física, e a imposição desse “teto” formado pelo cenário faz com que, por vezes, os bailarinos acabem colidindo com as peças, quebrando a ilusão de invulnerabilidade que um elenco tão destemido quanto esse costuma passar.

 

Poderia ser um problema, mas não mexe na sagacidade da coreografia, que mastiga todas essas referências e as devolve retrabalhadas ao campo do sagrado, sublinhando a força da criação humana na própria representação do que é divino.

 

"Gira", por sua vez, surge como uma obra ao mesmo tempo terrena e aterrada, mas nem por isso menos elevada. Os bailarinos estão ali para evocar uma religião que dança e que aceita o corpo como fluxo de ligação com algo superior. Ler a coreografia a partir dessa chave, sem a referência explícita à umbanda e à candomblé, já daria por si só um tratado filosófico, e o grau de complexidade que os irmãos Pederneiras injetam no trabalho o coloca à altura disso.

 

Falar sobre o “Gira” também é complexo e me leva a sentir a necessidade de ressaltar o algo óbvio: só posso ver algo com os olhos que tenho e toda a bagagem cultural que carrego, com os preconceitos de alguém nascido e criado dentro de uma tradição católica branca. Esse é um ponto de partida muito próximo ao do coreógrafo, instado pelos compositores do Metá Metá a se aventurar em torno de Exu.  

 

Para essa criação, Pederneiras estudou o terreiro do ponto de vista acadêmico e experiencial e contou com a consultoria de babalorixás e bailarinos seus que praticam religiões de matrizes africanas. Ele devolve tais referências a seu modo, num jeito de dançar que, há 42 anos, explora a ideia de um corpo brasileiro como resultado de travessias, interferências e, essencialmente, hibridizações. Essa postura encontra ecos na própria umbanda, uma religião também extremamente sincrética e genuinamente brasileira.

 

Posto isso, “Gira” parece derivar de dois outros trabalhos do grupo: “Benguelê” (1998) e “Sem Mim” (2011). Do primeiro, vemos o peso dos movimentos em sua relação com o chão, em batidas com os pés e troncos curvados. Do segundo, vislumbramos a carne - deixada inclusive à mostra, seja pelo torso nu ou por malhas transparentes - como ponto de partida para encontrar o sublime, fazendo com que ambas as obras sejam puramente humanas e, ao mesmo tempo, transcendentes.

 

A força que se desenha no palco se apresenta no aspecto ritualístico da cena, da qual os bailarinos não saem jamais. Enquanto não se deslocam ao centro para dançar, eles permanecem sentados nas extremidades do palco, na penumbra, a presença de cada um marcada por uma lâmpada acesa sobre suas cabeças, cobertas por um véu preto que, de certa maneira, faz uma ponte do que se verá ali com a herança católica da qual os Pederneiras partem.

 

A música do Metá Metá é essencial para o resultado obtido. Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França apresentam seus instrumentos de formas pouco usuais e criam tensões com as quais os bailarinos podem jogar. O nível de sofisticação proposto encontra eco, em especial, no solo de Dayanne Amaral. O sax de França embala os movimentos dessa figura de cabeça raspada, um tanto andrógina, que hipnotiza o olhar com um corpo sedutor, talhado em ondulações e dinâmicas de desaceleração.

Ela sintetiza bem a evolução gestual do Corpo em “Gira”. Vemos aí novas camadas de movimento que se sobrepõem e se fundem ao que já nos acostumamos a ver da companhia. Os bailarinos praticam um certo despojamento, como se suas extremidades quisessem procurar caminhos próprios. O dorso das mãos sobre as ancas, os braços retidos nas costas, os ombros apontando direções e as caminhadas com joelhos dobrados evocam figuras presentes no imaginário quando se pensa na representação do que se vê nos terreiros. Esses gestos são novidade no vocabulário de Pederneiras, mas, ao mesmo tempo, despontam de forma muito orgânica em relação ao tipo de movimentação que ele sempre perseguiu - e está posto aí um instigante fio da navalha coreográfico.

Tradicionalmente, Pederneiras propõe movimentos à base do vigor e do virtuoso, o que demanda um controle extremo dos intérpretes na dosagem da energia para entregar uma execução à altura e, ao mesmo tempo, conseguir estar de pé para a récita do dia seguinte. O improviso não cabe na dança da companhia. Dessa vez, no entanto, os bailarinos canalizam essa força para emular o imponderável, materializado não só nos corpos, mas no balanço da longa saia branca trajada por todos. A maestria deles está em obter esse efeito de liberdade mesmo que o movimento não seja exatamente livre - e a emanação desse sentido a partir daquilo que supostamente aprisiona é um desses mistérios artísticos que nos faz querer rever obras como essas ad infinitum.

Fotos: José Luiz Pederneiras/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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