Coreografia atesta não haver possibilidade de indivíduo sem o outro

Por Amanda Queirós

O conceito de indivíduo tem sido central nas últimas criações autorais de Luiz Fernando Bongiovanni. Foi assim com "Breve Compêndio para Pequenas Felicidades e Satisfações Diminutas" (2016), e é assim com "Singularidades", o mais recente trabalho de seu Núcleo Mercearia de Ideias.

 

Na obra anterior, o coreógrafo perguntava a cada um de seus bailarinos o que os fazia felizes e construía, a partir das respostas, uma dança muito particular de cada um. Dessa vez, a dança se ergue a partir de uma pergunta com ares filosóficos, colocando o elenco para responder individualmente: "quem é você?".

 

Há um esforço para sublinhar essa tônica desde antes mesmo do início do espetáculo, quando o próprio Bongiovanni substitui o programa da peça por uma fala introdutória para situar o espectador naquilo que ele vai ver. As palavras têm um tom de conversa e demonstram uma preocupação excessiva com a tal "formação de público", mas a sensação é de que elas explicam demais, criando pré-conceitos para o público aplicar nas cenas que virão a seguir.

 

Quando a obra inicia, fica logo claro que o papo era dispensável dada a clareza que esse discurso assume ao ser encenado. No palco, cada bailarino tem a seu lado um spot que mantém sob seu comando. Toda a luz em cena emana desses instrumentos, acendidos e apagados por cada um deles a seu bel prazer. O fato de os intérpretes controlarem a iluminação serve como metáfora para algo que pode ser encarado como um mantra para a vida: em vez de entrar no foco determinado por alguém de fora ou esperar que o holofote recaia sobre si, é o bailarino que determina o que e quanto mostrar de sua dança, deixando claro quem está no controle da ação.

 

Nove artistas fazem isso simultaneamente, cada um a seu tempo, provocando uma situação de pisca-pisca que guia o olhar do público, tal como besouros, para onde há luz. Os spots, no entanto, dão a ver apenas uma pequena fração de cada intérprete, como se aquelas personalidades - ou singularidades - não pudessem ser reveladas por completo. Tudo o que conseguimos capturar é apenas um pedaço delas, exatamente como funciona no dia a dia.   

 

Passado esse momento, quando a luz da caixa cênica se acende, encontramos um elenco extremamente diverso. Há homens e mulheres, brancos e negros, altos e baixos, mirrados e corpulentos. Enquanto que no balé clássico há um esforço para homogeneizar o corpo de baile, aqui a proposta parece ser inversamente proporcional: quanto mais diferentes uns dos outros, melhor.

 

Essa opção sublinha que, mesmo quando os passos são iguais, há formas distintas de dançá-los, pois cada corpo é único. Uma sequência de movimentos ganha peso ou dinâmicas diferentes de acordo com o intérprete que os carrega. Em determinada cena, Bongiovanni ressalta esse aspecto com ironia, diferenciando originalidade de autoralidade, ao fazer os bailarinos, um de cada vez, declararem que só eles sabem fazer determinados passos - para, logo em seguida, verem todos os demais copiando o que eles fazem.

 

“Singularidades” poderia enveredar por um caráter introspectivo e metafísico, mas há uma opção deliberada pela leveza. Isso se faz presente com a proximidade física entre palco e plateia, mas, especialmente, pelo caráter de conversa que o trabalho busca ao colocar os bailarinos para falar, seja uns com os outros ou diretamente com o público, narrando experiências pessoais ou questionando-o sobre seus medos. Essa quebra da quarta parede dissolve a solenidade em torno do espetáculo em prol de identificação.

 

O trabalho se constrói a partir da alternância entre esses momentos verbais e não-verbais, nos quais o discurso surge apenas a partir do corpo. A coreografia de Bongiovanni tem um referencial técnico muito claro, estabelecido a partir da fusão de sua experiência com William Forsythe e na lida com o que os bailarinos lhe entregam. São movimentos exigentes, que se destacam, especialmente, nas formações em trio ou quartetos, quando parte dos bailarinos se desdobra entre suportes para fazer com que outro seja elevado, forçando situações de diálogo em que cada um precisa negociar entre si para decidir o que vai ser destacado em cada situação.

 

É curioso que as cenas mais interessantes de uma obra concebida a partir do indivíduo sejam fruto, justamente, de um contexto no qual as tais individualidades são testadas em prol de um acordo. É algo que diz muito sobre o papel que o outro tem na constituição de nós mesmos. Com isso, Bongiovanni afirma um paradoxo. Para além do ensimesmamento, o que nos torna únicos, no fim das contas, é a alteridade - e não poderia haver época melhor para tal mensagem.  

Fotos: Clarissa Lambert/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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