Dança que se transforma no corpo do outro

Por Marcus Moreno, convidado do CRITICATIVIDADE *

Corpos se movem sob a luz de serviço do teatro que, acesa naquele momento, transborda pelo espaço, aproximando os diferentes tipos de preparo, tanto daqueles que estão prestes a partilhar de sua dança, como daqueles para os quais a partilha está na esfera do observador. No espaço do palco os últimos ajustes são feitos. Bailarinos se alongam, aquecem, combinam detalhes, ajeitam objetos de cena. O público segue entrando pela porta e tomando assento, num ambiente de informalidade. A sensação é de acolhimento. E nesse limiar, entre palco e plateia, o coreógrafo da peça "Singularidades" – apresentada na Sala Paschoal Carlos Magno do Teatro Sérgio Cardoso nos dias 21 e 22 de Novembro – Luis Fernando Bongiovanni, inicia uma reflexão, não apenas como um artista que fala sobre sua Cia ou sobre sua obra.

Claro, o ponto de partida da fala é o Núcleo Mercearia de Ideias, enquanto grupo de pesquisa dirigido por Bongiovanni que teve início em 2009, e que declaradamente se dedica ao “refinamento da construção cênica através do encontro da performance técnica com o conteúdo sensível em dança e temas poéticos que dialoguem claramente com a sociedade contemporânea”. No entanto, a fala do diretor extrapola a apresentação, passando a um patamar de mediação: “Por que você é do jeito que você é?”; “existe fricção entre as escolhas que são feitas no momento da criação e aquilo que não se pode escolher por já estar no corpo”; “trabalhos como o que vocês verão são produzidos com o apoio de leis específicas para a cultura”... A fala se estende e leva o espectador a universos distintos de reflexão. Coincidência ou inspiração, Bongiovanni nos faz remeter à entrevista de William Forsythe do ano de 2003, dada à Helena Katz para o Estado de São Paulo:

“Meus projetos são políticos e minhas coreografias, evidentemente, passaram a ressoar nessa direção. Um dos programas que mais me atraem no momento é o que desenvolvemos com o público e onde assumo o papel de um “guia turístico”. O público chega e eu o conduzo por todas as dependências do teatro, oportunidade em que eu transformei em uma conversa sobre política, economia, dramaturgia e dança. Mas se trata de uma proposta de encenação, não é uma preleção didática de esclarecimento. É um ato político que toma a forma de uma montagem de dança. Eu me vejo como uma pessoa política que faz dança”.

 

Ao longo do tempo, independente da área de conhecimento em que atuemos diferentes mestres cruzam nossos caminhos. Talvez alguém seja um mestre para outro indivíduo por conta de um saber adquirido sobre algo específico, que passa pela empatia que o segundo tem sobre este determinado assunto. E ao entrar em contato com este mestre, tal saber irá possivelmente perpetuar em algum nível, mas também sofrerá interferências e modificações, pois nesse momento diferentes singularidades estão passando por um processo de troca. Por sua vivência na Europa, integrando o elenco de peças como "Artifact/II" e "Enemy in the Figure", Bongiovanni traz consigo fortes elementos técnicos e estruturas dramatúrgicas que aludem ao seu mestre William Forsythe. No entanto, ao olharmos uma técnica, distanciados daquilo que o senso comum associa a algo cristalizado e mecanicamente repetitivo, veremos nela um sistema aberto com recursos para a construção de um corpo disponível às descobertas que está em curso. Nesse percurso, obras dirigidas por Bongiovanni como "Microbiografias Visíveis" (2012), "Breve Compêndio para Pequenas Felicidades e Satisfações Diminutas" (2016) e o trabalho atual "Singularidades" (2018), por exemplo, colocam em cena características técnicas do trabalho corporal de William Forsyhte, mas partir de novas traduções e da autonomia de Bongiovanni, que como mestre que também se tornou ao longo de sua trajetória artística, cria novos contextos para que cada membro do elenco do Núcleo Mercearia de Ideias possa ir investigando sua própria dança.

A luz de serviço desaparece, e no palco, luminárias, como pequenos holofotes, uma para cada intérprete, passam a conduzir a dança que se constrói em forma de depoimento. O dançarino cria em cena, organiza o movimento num fluxo inestancável de conexões e adaptações que vão se atualizando em um processo inesgotável de troca de informações com o ambiente. O espectador, à sua maneira, também está em movimento e, com sua coleção de informações, adquiridas ao longo da vida, vai experienciando o momento da dança, deixando-se afetar, e vai sendo transformado por estes afetos. Neste processo de contaminação a concepção cênica de "Singularidades" é de rápido reconhecimento: as estruturas vão sendo encadeadas a partir do universo particular de cada intérprete, aquilo que move a dança de cada um. A potência e a precisão dos gestos dos jovens bailarinos vai construindo uma espécie de coletânea, como um álbum que é completado a cada novo acontecimento.

“Mas, se a dança é um modo de existir, cada um de nós possui sua dança e seu movimento, original, singular e diferenciado, e é a partir daí que essa dança e esse movimento evoluem para uma forma de expressão em que a busca da individualidade possa ser entendida pela coletividade humana. (Klauss Vianna, A Dança)

Fotos: Clarissa Lambert/Divulgação

Marcus Moreno é artista da dança e gestor cultural. Formado em Comunicação das Artes do Corpo, possui especialização em Técnica Klauss Vianna pela PUC-SP e Licenciatura, pela Universidade Anhembi Morumbi. Tem interesse em práticas orientais, improvisação cênica e estudos somáticos.

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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