Vibração, sinônimo de existência

Por Amanda Queirós

O título do mais recente trabalho solo de Thiago Granato é daqueles que intriga desde a primeira leitura. Afinal, como se pronuncia “Trrr”, esse somatório de consoantes sem vogais? Se não é uma palavra, estamos diante do quê?

 

Gosto de pensar “Trrr” como uma vibração - algo corroborado pela performance do próprio bailarino em cena. Essa interpretação é reforçada quando lembro de sua obra anterior, “Trança” (2016), segunda parte da trilogia iniciada com “Treasured in the Dark” (2015).

 

Do movimento ágil das mãos, virtuosamente isolado do resto do corpo, passando pelo tunts tunts da música eletrônica e o pisca-pisca da luz, tudo ali é pulsação. E o que acontece quando um batimento é acelerado? Chegamos à vibração que está no cerne de “Trrr”.

 

Esse solo, no entanto, não tem nada a ver com velocidade - pelo contrário. O que importa mais aqui é como o corpo ouve e responde a esse estímulo, fundindo-se a ele a partir de uma camada de observação menos literal.  

 

Se há vibração, há vida. Se não há, abre-se espaço para o vazio. Granato reforça essa ideia ao falar em cena que tudo, um dia, vai deixar de existir. A observação sublinha um caráter de transitoriedade que paira sobre todos nós, seja do movimento ou da matéria e, especialmente, da própria dança ou performance, que desaparece no instante em que se realiza.

 

Ancorado sobre essa constatação, Granato se permite experimentar o ato de criar formas que nunca estão plenamente prontas, tal como o termo que batiza a obra. O estímulo que surge bem delineado no pé percorre todo seu corpo para vir desaguar na mão, em um fluxo que, por sua vez, se desdobra de volta para o tronco, tudo amparado ora pelo som do silêncio que esse corpo provoca no espaço, ora por uma trilha que nos faz confundir barulho de engrenagens e maquinário com marcas da natureza.

 

Com pleno domínio sobre cada parte de seu físico, o bailarino materializa viagens possíveis dessa vibração em um tempo e um espaço que extrapolam os limites de sua própria constituição. Em um bem cuidado trabalho de iluminação, enxergamos essa energia extravasar em um fluxo que toma a forma de luzes coloridas percorrendo o teto da caixa cênica. Matéria orgânica e inorgânica se tornam visivelmente parte de um mesmo ecossistema, em um interessante campo de trocas que sugere transformação.

 

Granato reforça esse campo também com o público, que o cerca como em uma arena. A vibração dele, enquanto performer, também resvala em quem o assiste. É a partilha dessa sensibilidade que produz um lugar possível de existência daquilo que, hoje, já deixou de existir.

Fotos: Paula Faraco, Sebastian Gabsch e Dajana Lothert/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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