'Trrr': torcer o espaço-tempo para coreoversar

Por Beatriz Rangel, convidada do CRITICATIVIDADE *

É o 13º andar do Sesc Avenida Paulista. Pleno verão. O hall dos elevadores, usado como antessala das apresentações de dança, vai ficando cheio de corpos em pé, o calor sobe.

 

Em instantes estaremos sob o ar condicionado, isolados dos ruídos da cidade. Num futuro próximo, um corpo se dará a ver, nu. Impulsos serão transportados rapidamente por baixo da pele, musculares, táteis, e transmitidos pelas costas, vivas. A intensidade irá crescer, ao ponto de mover articulações e escapar por mãos e pés, tremer dedos, transferir peso, torcer, virar direções. Uma modulação minuciosa, elaborada sob controle(s).

 

"Trrr" é uma coreografia. Ou melhor, uma coreoversação, como define o bailarino Thiago Granato, algo como uma conversação que se faz pela lógica coreográfica e tendo seu corpo como veículo. É o terceiro trabalho de uma trilogia de solos, iniciada em 2013, durante uma residência artística na Alemanha, onde Granato vive e trabalha uma parte do tempo. Em" Treasured in the Dark" (2015), o primeiro da série, ele evocou dois coreógrafos mortos para com eles coreoversar. No segundo solo, "Trança" (2016), fez o mesmo com dois coreógrafos vivos. Já "Trrr" (2018) é uma colaboração, imaginada e realizada, com coreógrafos ainda não nascidos.

Trrr de trilogia, Trrr não forma palavra (ainda), Trrr (escrito) é uma coisa, como seria testar com a boca, a língua vibrando. Trrr som de máquina e som orgânico. De fato, abre-se para imaginar, conjecturar. Abre-se.

 

A sala não tem palco, as cadeiras delimitam o espaço de um retângulo. A plateia senta e, na luz branca e fria, nos entrevemos. O bailarino anda pelos cantos, próximo da plateia. Nossa atenção é convidada aos detalhes, quando ele chega perto. Tira sons do tecido grosso da jaqueta que está vestindo, daquele tipo que protege do vento e da chuva. Seus passos são ritmados, pesados. Dá tempo de ouvir e observar em várias direções. Essa maneira de adentrar a dança ficará, digamos, como um pedacinho de pão na trilha de João e Maria, a ser reencontrado mais uma e outra vez, ao longo do percurso e do tempo em que ele, as pessoas, a luz, o som, as vozes, as coisas imaginadas... você lendo, talvez... estivermos presentes, ali.

 

Quando a iluminação mudar, o impacto será o de uma reentrada, em um novo ambiente. Quando a camada de som se erguer, mais contínua, será, ainda, torção. Também uma absorção.

 

Algumas imagens e climas se instauram e demoram a sair das retinas. O bailarino sentado em um banquinho com rodas, empurra o chão com os pés, que ondulam, de tão articulados. Move-se em velocidade constante. As palmas das mãos vão junto aos ouvidos, dois anteparos, como para escutar o que vem das costas... ou melhor, da frente, no sentido do deslocamento. Frente-trás, trás-frente, essas referências se torcem e recombinam em momentos diferentes da dança, a partir da posição do corpo ou de partes do corpo, do ângulo e proximidade com a plateia, da iluminação, a delimitar regiões no espaço, entre outros.

 

O futuro está atrás do corpo, o presente está no corpo e o passado, na sua frente: essa visão de tempo e espaço Granato conheceu em estudos sobre algumas culturas indígenas brasileiras e o inspirou na criação corporal e da dramaturgia de "Trrr", trazendo, por exemplo, um foco ao que está atrás do corpo, à topologia que se reconfigura, aos movimentos que criam imagens disso, acionam memórias e as transformam continuamente.

 

“Nessa perspectiva [indígena], tudo o que você vê já foi visto antes e o que está atrás do corpo, como você não vê, representa mais o desconhecido. Comecei a imaginar que o futuro poderia ser: para trás, para baixo e para dentro. Como um jeito de questionar um pouco o ideário ocidental moderno capitalista, que está direcionado, em termos físico e espacial, para frente, para cima e para fora. Quer dizer, o futuro é visto à frente, o tempo inteiro olhamos para fora de nós e queremos ir para cima, conquistar outros planetas.”

 

No centro do espaço cênico, uma haste pende do teto e, nela, uma maçaroca de cabos elétricos e equipamentos de som e luz. Esse objeto está ali, sobre as cabeças, o tempo todo. Em contraste com ele, o corpo humano, nu, parece (é) bastante wi-fi. Os sons, partindo de fontes espalhadas pelos cantos da sala, ora circulam, como cochichos por cima do ombro; ora criam uma imersão, um ambiente só, com o corpo do bailarino – sons que lembram um futuro vindo do passado: engrenagens, máquinas, metais, guinchos, sobrepostos a outros (ecos, resssonâncias, água, entre tantos). Nesse ambiente corpo-som-luz-espaço-tempo decolamos e, então, descolamos. Um gesto, uma respiração ou a voz, de repente, coincidem com a mudança da luz, do som, da ação. Quem (o que) estaria acionando quem (o que)? Se há um jogo de acionamentos entre esses elementos, ele se deixa sugerir, suspeitar. Às vezes com estranheza.

 

“No 'Trrr', você segue uma jornada, mas é cheia de rupturas. Quando se acostuma com uma lógica, ela muda", diz Granato. "A metamorfose do corpo é outro assunto que está presente nos trabalhos da trilogia. É uma tecnologia do corpo, a de transformar coisas de ordens diferentes, inaugurar espaços, transitar e criar mudanças na atenção. E, para mim, também está muito na capacidade de transformar signo em força, força em signo”, acrescenta.


No projeto Coreoversações, a proposta de uma colaboração com coreógrafos do passado, do presente e do futuro (ainda não nascidos) vem tensionar os modos de criar em relação com a história e as noções de temporalidade, por meio da dança, sua invenção, suas ficções. Interessa a Thiago Granato imaginar os diálogos com esses coreógrafos por meio do seu corpo, o que o leva, ainda, a refletir sobre formas de atuação e responsabilidades como performer e como coreógrafo. “É como se eu fosse um livro. Um livro que tivesse o registro de uma conversa feita entre esses coreógrafos que escolhi para o projeto. Essa colaboração sempre foi imaginária, articulada por mim. A ideia nunca foi fazer um trabalho sobre esses coreógrafos, mas pensar o que eles fariam hoje, se estivessem presentes comigo no estúdio”, conta.  

Fotos: Dajana Lothert, Paula Faraco e Sebastian Gabsch/Divulgação

* Beatriz Rangel trabalha com dança e pesquisa e é mestranda em artes cênicas pela USP. Desenvolve com o Núcleo Enxertía trabalhos solo e em grupo de criação cênica a partir das relações entre som e movimento. Participou de projetos com Wellington Duarte e Núcleo Entretanto, Grupo [MOS], Cia Oito Nova Dança, entre outros. Na saída de "Trrr", fez viagem rápida, sem trancos, sem ruídos, sem lembrança de engrenagens. (Elevadores ditos inteligentes, os do Sesc.) No bebedouro e no banheiro, teve o corpo e os movimentos no controle remoto: desde a porta até a torneira, tudo é acionado por sensores. Até voltar à rua. Sentiu que esse percurso, de algum jeito, esteve rondando a dança e essa escrita.

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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