'Still Reich' traça panorama da evolução coreográfica da Focus

Por Amanda Queirós

Alex Neoral é um artesão das linhas e formas, e os quase 20 anos de trajetória de sua Focus Cia de Dança revelam uma busca incessante por novos meios de alcançá-las. Esse trabalho de carpintaria está no foco de “Still Reich”, que recoloca o grupo no plano da abstração após uma sequência de espetáculos com pano de fundo mais temático.    

 

Em vez de escolher uma só obra para ocupar a noite inteira, a proposta reúne quatro números curtos e distintos agrupados pelo fato de terem sido inspirados no compositor Steve Reich. Expoente do minimalismo, o americano é conhecido por abrir mão da primazia melódica para criar música a partir da combinação rítmica, um exercício formal que Anne Teresa de Keersmaeker traduziu de forma brilhante para a dança em obras como “Fase” (1982).   

 

Não é exatamente isso que motiva Neoral. Para ele, o mais importante é se valer do “ambiente sonoro” criado por Reich, e isso resulta em uma exploração de musicalidade completamente distinta daquela feita pela artista belga. Ele opera na superfície do que se ouve, e essa escolha provoca uma resposta mais imediata, porém menos complexa do que poderia ser. 

 

Criadas em 2008, “Pathways” e “Trilhas” apresentam um coreógrafo que abusa do diálogo entre partners para testar possibilidades de movimentação. Já “Wood Steps” e “Keta”, estreadas dez anos depois, agregam a isso um desenvolvimento maior de dramaticidade e coletividade.  

 

Ao som de “Music for Pieces of Wood”, “Pathways” se concentra em um jogo de duos entre duas duplas. O primeiro casal trabalha mais fortemente os pesos e contrapesos, enquanto o segundo explora diferentes dinâmicas de movimento. Essas diretrizes são bagunçadas quando os bailarinos fazem uma análise combinatória entre si, com a tônica de um duo se misturando à do outro para produzir algo diferente. 

 

O minimalismo “reichiano” surge apenas no terço final, mais como ilustração do que como conversa, a partir de uma coleção de gestos executada de forma ultrarrápida por todos, que se movem pelo palco sobre os joelhos. O resultado evoca brincadeiras infantis executadas com as mãos, uma espécie de “trava-línguas corporal” no qual, para acertar a sequência, é preciso confiar mais no transe do movimento do que na racionalização do que se está fazendo. 

 

Tal como o primeiro número, o segundo abre com alguém entrando e saindo da cena correndo. A luz também é neutra e o estilo dos figurinos, baseado em roupas comuns, se repete. O nome já entrega: “Trilhas” surge quase uma extensão/desdobramento de “Pathways”, com a mesma devoção aos duos vista no trabalho anterior. 

 

Dessa vez, embalado por “Different Trains - After the War”, Neoral se debruça na busca por encaixes pouco óbvios e soluções de movimento com fluxos inesperados. Tudo isso é talhado com muito capricho, mas, por vezes, a extrema simplicidade da cena não consegue realçar esses detalhes, fazendo com que tudo fique meio parecido quando, na verdade, não é.

   

A iluminação clara das duas cenas iniciais se opõe ao caráter sombrio incorporado pelo trabalho seguinte. Em “Wood Steps”, a abstração que se via até então abre espaço para a incorporação de certo senso narrativo e um investimento em dramaticidade, algo sobre o qual a Focus tem se dedicado mais desde “As Canções que Você Dançou pra Mim” (2013). 

 

O ritmo surge na obra antes mesmo da música iniciar, com uma espécie de sapateado a capela. A faixa é “Proverb”, única da noite que envolve canto, e isso ressoa nos bailarinos de forma um tanto literal: eles dançam com as bocas abertas, em uma sugestão de súplica e de tentativa de comunicação, aprofundando certo clima de suspense evocado pela música. 

 

O mais interessante do trabalho - e seu diferencial em relação aos demais - está na assimilação do chão como contraparte de movimentos. Os duos surgem mais uma vez, mas ganham dimensão completamente diferente por envolverem a negociação com esse novo plano, agregando certa suspensão que ainda não havia surgido em cena. Apesar de ainda investir na criação entre duplas, Neoral explora melhor a noção de conjunto, e isso resvala em “Keta”. 

Baseada na música “Drumming”, a obra final carrega essa qualidade de levantar plateias própria dos números que se prestam a encerrar programas. Ela toma emprestada da música a energia dos tambores e as coloca nos corpos a partir de movimentos em staccato, em uma lógica de acumulação, e em sequências de canons que precisam de todo o coletivo para funcionar. A composição de desenhos é bastante rica, criando mosaicos ora esvaziados, ora plenos, mas sempre com uma presença cênica forte de todo o elenco. 

Há uma novidade em termos de movimentação: os bailarinos experimentam certo molejo de tronco, algo que ainda não parece tão azeitado a corpos tão afeitos a linhas limpas. O staccato da coreografia pede um domínio pleno dessa propriedade, que às vezes falha em entregar a precisão exigida, apesar da extrema competência do elenco. A luz realça o ambiente poderoso construído pelo tripé entre música, coreografia e intérpretes. 

 

Nos intervalos entre uma cena e outra, Neoral joga uma luz azul sobre o palco nu e apresenta trechos de gravações de entrevistas nas quais Reich discursa sobre a própria obra. Sem tradução e interrompidas, por vezes, abruptamente, elas parecem estar ali apenas para não entediar o público enquanto os bailarinos trocam de roupa e recobram o fôlego. 

 

Um dos aspectos mais interessantes do programa está em seu aspecto documental. Apresentadas em ordem cronológica, as obras evidenciam uma clara evolução da assinatura de Neoral, que parte de uma obsessão formal motivada pela abstração para chegar no desenvolvimento de uma dramaturgia mais bem estruturada, capaz de fazer sua dança abrir novas frentes de comunicação. “Still Reich” evidencia, portanto, o lugar da Focus como uma companhia com muita clareza do que faz.

Fotos: Fernanda Vallois, Paula Kossatz e Manu Tasca /Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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