Ainda Reich, mas de que modo?

Por Henrique Rochelle

“Still Reich”, de Alex Neoral para a Focus Cia de Dança, se propõe a tratar da influência que as composições de Steve Reich criaram para o trabalho do coreógrafo. Feita de quatro cenas distintas e descoladas, a obra dá uma costura entre seus momentos com falas do compositor, gravadas em áudios de pouca ligação com as cenas, instaurando uma aura de desconjuntado que domina o todo.

 

A primeira das quatro coreografias da obra, “Pathways”, trabalha intensamente a partir do movimento simples / cotidiano, e sua transformação em cena. A reflexão coreográfica, que inclusive faz parte da assinatura de Neoral, é calcada na percepção do corpo como instrumento e sua organização orquestral: é a combinação dos corpos-instrumentos em cena que produz aquilo que queremos encontrar na cena da Focus.

 

Essa fórmula posta, a coreografia se ocupa com tratar do posicionamento do corpo no espaço, e é a qualidade de ensaio e realização desse elenco que faz a proposta funcionar em encaixes macios e objetivos, quase nunca dependendo de pequenos ajustes.

 

O trabalho das dinâmicas do movimento é voltado para a organização do fraseado musical de Reich, que também é pontuado pelo primeiro dos trechos de entrevista em que o compositor discute o "phasing" — procedimento de mudança progressiva e contínua na estrutura musical, que se tornou tema e objeto de pesquisa de tantos coreógrafos, com o maior destaque para a série de obras do “Fase” de Anne Teresa de Keersmaeker.

 

“Trilhas”, excerto de uma obra do repertório da Focus, trabalha impulsos e nos mostra seus bailarinos sendo empurrados e se reorganizando contra a queda, no espaço. Oposta à tendência de micro-movimentação, a coreografia trabalha pela amplitude, sustentada em linhas clássicas mas num desenvolvimento mais contemporâneo, refletido em corpos em tensão, demonstrados por olhares constantemente espantados e apreensivos.

 

A segunda transição é uma das maiores falhas de programação. Antecipando “Wood Steps”, toda focada nos pés e com um estranho uso de sapatos como elemento cênico, vem uma fala de Reich sobre a mão como instrumento.

 

Numa coreografia de chão, encontramos uma construção não sistemática desse trabalho: apaga-se a lógica entre os elementos do conjunto em movimento, e, apesar do aspecto neutralizador/equalizador da proposta, surge espaço para o indivíduo dançando e a reflexão de seu percurso.

Junto com a espacialidade baixa da obra, é essa a porta de entrada para uma construção entre o animalesco e o ritual, que ganha força num tom religioso — no sentido de se colocar abaixo de algo — que se ilustra em tentativas constantemente frustradas de se reerguer.

 

A última coreografia, “Keta”, é a melhor do programa e trabalha a oposição de conjuntos, e de um elemento contra o conjunto, num formato de cânon coreográfico em que se repete não a movimentação, mas as sequências de impulso para os movimentos. O efeito é uma construção de continuidade acumulativa, que abre espaço, ao final, para a ação mais pronunciada do conjunto todo.

 

Sobre o todo, pesa a força das referências. “Drumming”, trilha de “Keta”, já foi usada por companhias como o Rosas, de Keersmaeker, a qual, dada sua afinidade pelo matemático, sistemático, algébrico, criou um mundo de representatividade e afinidade entre a trilha e sua obra.

 

Esse não é o caso aqui. Reich não é homenageado, estudado, discutido. Ele é uma fonte de inspiração, não completamente aproveitada. Ainda que a estrutura geral das obras seja faseada e canônica, a coreografia não lida o tempo todo com o faseamento e os cânones da trilha — e, quando isso ocorre, como uma disrupção inesperada, torna-se extremamente perceptível o desencaixe.

 

Não que seja obrigação do coreógrafo transformar o compositor em sua inspiração processual, estrutural, etc., mas essa expectativa é provocada pelo próprio título da obra. Sim, ainda Reich. Mas Reich onde? Como? Inspirar-se por Reich inclui a necessidade de explorar seu trabalho além de uma estética sensorial, e debruçar sobre o complicado caminho matemático de suas construções.

 

Mas esse propósito em si talvez seja anti-Focus: a companhia é notoriamente descomplicada, trabalhada com algo de direto, de na sua cara, que a faz aproximável, compreensível e deliciosamente palatável — todas essas, coisas que Reich não é, não tenta ser, e nem precisa. Seu trunfo é um elenco técnico e sensível, brilhante em cena, e que nos lembra que às vezes a dança ultrapassa as propostas e a coreografia, e isso pode ser uma coisa boa.

Fotos: Fernanda Vallois, Paula Kossatz e Manu Tasca /Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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