Ainda a dança, o minimalismo, a repetição e a estética de Reich na cena contemporânea

* Por Ítalo Rodrigues, convidado do CRITICATIVIDADE

No palco do Sesc Pompeia se desenrola a curta temporada da Focus Cia. de Dança ocorrida no mês de junho de 2019 sob a paleta de cores e corpos apresentada por Alex Neoral, que é coreógrafo, figurinista e diretor deste espetáculo. A obra apresenta quatro coreografias as quais são resultantes da junção de dois momentos diferentes na história da Focus: o coreógrafo une duas obras de 2008, “Pathways” e “Trilhas”, e duas de 2018, "Keta" – vencedora do Prêmio Cesganrio de Dança e "Wood Steps”. As quatro coreografias integrantes de "Still Rech"  (título que em português significa "ainda Reich"), partem de inspiração na obra musical de Steve Reich (1936-): filósofo, compositor, musicista de inúmeros talentos. 

O compositor influenciou com seu estilo minimalista músicos de todos os gêneros, além de grandes coreógrafos tais como Alex Neoral (Brasil) e Anne Teresa de Keersmaeker (França), com obras que adotam estruturas, harmonias e ritmos arrojados mudando e redirecionando aspectos de parte da música contemporânea, trazendo à tona composições que adotam questões de fé, sociedade e filosofia.

Da junção da genialidade de Reich e a maestria de Neoral surgiram coreografias que merecem o reconhecimento da grande crítica, dos espectadores brasileiros e de outros países, além do mecenato da Petrobras por muitos anos. 

As coreografias de Neoral são precisas, pensadas milimetricamente em cada movimento os quais exigem do corpo do intérprete muito esforço, tônus e atenção. A precisão das composições exige corpos que se desdobrem em uma sincronia quase perfeita na busca pela expressividade que se exprime em sons, pausas, respiração, olhares e deslocamentos que exploram e desafiam os sentidos do espectador. 

A obra em tributo a Reich é magnífica no sentido em que busca exprimir toda a sutileza de um compositor ímpar. Um esforço em tanto ao qual se presta o coreógrafo em sua jornada de criação. Trazer Reich à tona não é fácil, porém, como o próprio coreógrafo revelou, traz inúmeros desafios os quais, superados, ficam impregnados na memória do artista da dança. O som minimalista não quer deixar de soar aos ouvidos de quem um dia se atreveu a dançar essas músicas. 

Em "Trilhas", o que chama a atenção são as pausas intercaladas com a respiração. Duos que se desdobram ao colorir o espaço com linhas, curvas, contrações, torções, corridas ao redor do espaço cênico e suor, muito suor. A coreografia explora na música minimalista as possibilidades sonoras que vão do estado de congelamento do movimento corporal até o esgotamento com repetições frequentes de pequenos trechos e variações que atravessam os corpos dos bailarinos, fazendo com que os intérpretes precisem executar a coreografia se desdobrando em períodos de repouso, contenção e explosão de energia. Frequentemente, nas variações dos trechos rítmicos apresentados na obra de Reich, a música cruza o espaço sonoro se valendo da repetição e elasticidade com tons executados durante um longo tempo. Isto provoca no espectador um estado quase hipnótico levando-o a estesia ao vislumbrar no espaço cênico aqueles corpos marcados por diferentes técnicas corporais. 

Em todas as composições há que se atentar para a iluminação do palco. A luz pensada pelo designer Binho Schaefer ressalta a maestria da composição coreográfica com suas variações de tons, sobreposição de vermelhos, jogos de sombra que criam espaços dentro do espaço. A iluminação de "Still Reich" evoca sensações e sentimentos que, aliadas ao fantástico minimalismo das composições, tanto coreográfica, quanto musical, levam ao espectador a um estado de tensão e deslumbramento. É como se o espectador também estivesse dentro do contexto da obra respirando, sofrendo junto com os intérpretes o impacto trazido por Reich e Neoral em suas intenções de explorar ao infinito possibilidades do mesmo som e gesto. 

Em "Keta", assim como em "Wood Steps", a percussão se faz presente de diferentes maneiras. No primeiro ecoam os sons dos tambores que clamam pela ancestralidade, no segundo os sons das batidas dos pés erguem a poeira no espaço com escapadas, corridas e passadas que já atravessaram o oceano em palcos franceses, italianos, alemães e panamenhos com uma composição que apresenta a saga daqueles que não param nunca; daqueles que vivem em constante estado de tensão e atenção deixando o espectador em alerta, a espera do que vem a seguir. 

Enquanto que "Wood Steps" explora o caminhar, o correr, o se jogar e o atropelar dos corpos que se diluem em passos que consomem a vida, "Keta" explode vida. A obra apresenta corpos seminus que se misturam na tela pintada de luz por Schaefer e Neoral. Há um debruçar-se sobre que leva o espectador a pensar e se debruçar sobre questões que nunca se apagarão da memória coletiva evocadas das relações de poder e submissão as quais o continente africano teve com várias partes do mundo. 

Em "Keta", mais uma vez, o que chama a atenção é o perfeito diálogo entre a iluminação, os corpos dançantes e a música. A cada movimento, respiração, pulsar de músculos, escorrer de suor e energia, o espectador é presenteado pelo desenho que perfura o espaço embalado pela sonoridade guerreira evocada pelos timbres dos tambores africanos. A partir disto, o espectador se vê em estado de animação que o leva a sensação de um “quase deixar de respirar” diante de tanta ação que salta aos olhos, aos sentidos e aos ouvidos. Nota-se a partir deste instante que a obra não se constrói a partir de um único elemento: música, dança e coreografia, ou luz. A apreciação do espectador diante do que se vê remete a obra ao Mundo da dança na arte justamente pela harmonia com que estes elementos são combinados e organizados para exercer a função de ser Arte. 

A obra coreográfica "Still Reich", em todo o seu contexto, é o corpo, o movimento, a música, o desenho da luz e a coreografia sob a organização e sincronia de Neoral e de toda a equipe, produz sentidos que possibilitam ao espectador diferentes leituras; todas válidas a partir da percepção de cada um.  

O espetáculo "Still Reich", apresentando pela Focus Cia. de Dança, que já foi vista por mais de 120 mil espectadores, é um dos muitos exemplos de como nossos artistas da dança estão no mais alto patamar e excelência dentro do contexto nacional e internacional. 

* Ítalo Rodrigues Faria é doutor e mestre em Artes (UNESP), bacharel Licenciado em Dança (UAM), pós-graduado em Teatro (USJT) e pós-graduado em Formação de Professores em EaD (ESAB). Integra o grupo Pesquisa GPDEE–IA/UNESP. É professor, bailarino, coreógrafo e pesquisador em Dança e Filosofia (artescoreograficas@gmail.com)

Fotos: Fernanda Vallois, Paula Kossatz e Manu Tasca /Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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