Afago às memórias e ao coração 

('Sei Solo', de Miriam Druwe)

Por Amanda Queirós

Desde o primeiro momento em que aparece na cena de “Sei Solo”, Miriam Druwe já estabelece, de pronto, o caráter intimista do que está por ser construído, nos minutos a seguir, entre ela, o violino de Erich Lehninger e o público a sua frente. É um encontro significativo, no qual a bailarina retorna a uma posição de solista que não vivia havia pelo menos 15 anos devido à dedicação à sua Cia Druw, voltada ao público infantojuvenil. 

 

A energia experimentada com o grupo contagia o solo, mas por vias pouco óbvias. Afinal, este é um trabalho adulto, sobre amadurecimento, e a dramaturgia trabalhada por José Possi Neto toma emprestado o frescor de obras como “Vila Tarsila” e “Poetas da Cor” para transformá-lo no suporte sobre o qual Miriam vai erguer suas camadas de interpretação. 

 

As cordas do violino que tocam a “Chaconne” de Bach conversam com o extenso fio vermelho que se estende tortuosamente pelo palco, reforçando uma ideia de fluidez e continuidade, apesar de o som evocar curvas e solavancos. Miriam incorpora naturalmente essas qualidades em sua movimentação, na qual administra acelerações e desacelerações de forma bastante delicada.  

 

Os gestos e deslocamentos da bailarina são acompanhados de um sentimento de descoberta, como se eles tivessem sido criados, pela primeira vez, naquele instante. ressaltando o caráter singular de cada dança e, consequentemente, de cada encontro de uma obra com seu público. 

 

Isso investe “Sei Solo” de uma vivacidade que, em uma primeira leitura, aparenta ir na contramão do que a obra quer dizer. Há certa alusão a um estado solitário, mas ele não apresenta a conotação de tristeza à qual é comumente associado. 

 

O fio vermelho que paulatinamente se enrola no corpo da bailarina, na verdade, é o fio das memórias que a ajudam a se afirmar enquanto indivíduo e, para Miriam, não há lamento algum carregar tudo isso. Pelo contrário: ela abraça essas referências com ardor. Por mais doído e conturbado que tenha sido, o passado não é um peso, mas uma mola pronta para projetá-la adiante. 

 

A solidão dançada por Miriam a empurra a um reencontro com as marcas que tantos outros depositaram nela, fazendo-a trazer consigo algum tipo de companhia que, apesar de não estar fisicamente presente, se materializa em seu corpo.

 

Como se vê no próprio tônus da intérprete, esse é um processo recheado de densidade, mas, ainda assim, capaz de exalar leveza - qualidade que transforma o que se vê em um caloroso e sincero afago. A verdade é que nunca estamos verdadeiramente sozinhos, e Miriam nos lembra disso com a beleza de sua dança.

Fotos: Daniel Cabrel / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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