Entre hibridismos e individualismos 

('Trânsito', do Balé Teatro Guaíra)

Por Amanda Queirós

Nada mais justo para uma companhia em plena comemoração de seus 50 anos que encenar uma peça significativa de seu repertório no ano da festa. Criada em 2001 e dançada em várias partes do país, “Trânsito” preenche esse requisito. 

 

A obra foi concebida por Ana Vitória justamente quando a coreógrafa vivia seu auge de popularidade após a conquista de prêmios importantes, como o Mambembe e o APCA. Ela representava, portanto, uma chancela para a companhia paranaense continuar reafirmando sua importância no cenário da dança nacional.  

 

O interesse em ver “Trânsito” quase 20 anos anos depois de sua primeira montagem está em perceber o que dela ainda escorre em um corpo de baile já profundamente renovado e o quanto de sua estrutura ainda conversa com o fazer coreográfico de hoje.  

 

A percepção sobre o tema da obra, por exemplo, foi completamente transformada. Na virada do século, o hibridismo cultural se impunha como questão após a acelerada globalização ocorrida depois da queda do Muro de Berlim e o fim da divisão política que separava o planeta em entre capitalismo e comunismo. 

 

Havia um clima de euforia que vislumbrava uma convivência pacífica entre povos. No entanto, a crise dos refugiados e a dificuldade de países ricos em lidar com imigrantes de suas antigas colônias têm direcionado a sociedade global a uma tendência isolacionista, impondo restrições à livre circulação cultural pregada com tanta ênfase naquele hoje já longínquo ano de 2001. 

 

Uma das virtudes da obra de Ana Vitória está no fato de a coreógrafa não fazer um juízo sobre o que está dizendo. Ela fala de misturas e de trocas, mas como pura constatação. Em vez de abordar o tema pelo aspecto político, ela o faz sob uma perspectiva quase antropológica, algo acentuado pela trilha de Cláudio Dauelsberg, que funde nela diversas referências de música tribal.

 

Em termos estruturais, há uma simplificação na organização dos conjuntos com a divisão entre mulheres e homens tal como nas comunidades primitivas. Logo após a luz acender, eles saem de cena para deixar o primeiro ato totalmente dedicado à presença feminina. 

 

Elas executam em uníssono uma coreografia de chão que se alterna entre quatro apoios e gestuais com as mãos - uma escolha que diminui a amplitude de movimento das bailarinas e a sensação de ocupação do espaço, tornando mais difícil o trabalho de convidar o espectador para dentro da obra, algo pouco usual para um número de abertura.    

 

Pouco a pouco, elas chegam ao plano alto e se dividem em conjuntos menores, cada um com suas sequências, que são paulatinamente incorporadas uns pelos outros. Essa fusão provoca estranhamento porque a distribuição espacial das intérpretes não evidencia qualquer conexão entre elas, fazendo com que essa contaminação soe antinatural. 

 

Em seguida o palco é tomado pelos rapazes, que trazem um tônus e um posicionamento de tronco e mãos próprio das artes marciais. A presença deles coincide com uma incidência maior de percussão na trilha. A organização em cena, no entanto, será a mesma das garotas, com três conjuntos afastados em movimentações distintas até se encontrarem. A diferença é que eles partem do plano alto para só depois chegarem ao chão e, posteriormente, recuperarem o ponto de partida.

 

É só no quarto final que mulheres e homens se reencontram de forma mais significativa, produzindo fluxos de adensamento e esvaziamento do palco, com grupos se deslocando em passadas rápidas, quase robotizadas, evocando o ritmo acelerado das grandes cidades e investindo em um tom urbano que traz os elementos tribais da música para o presente. A trilha, por sua vez, fica mais animada, mas isso não se traduz em variação das dinâmicas gestuais apresentadas até então, provocando certa monotonia.   

 

Algo interessante de perceber é que, mesmo na formação de duos, não parece haver uma conversa real dos bailarinos entre si e, a esta altura, fica a impressão de que a coreografia fala mais sobre sujeitos que tentam se articular no meio de um todo do que sobre o que eles são capazes de incorporar uns dos outros. Sob essa perspectiva mais individualista, pode-se entender “Trânsito” como uma obra talvez até mais coerente hoje do que quando foi criada.

Fotos: Daniel Cabrel / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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