Rito urbano ('Trânsito',
do Balé Teatro Guaíra)

Por Henrique Rochelle

O “Trânsito”, de Ana Vitória, que o Balé Teatro Guaíra dançou na Semana Paulista de Dança no Masp, talvez seja feito pra um sentido mais espiritual, tribal. O próprio programa nos dá essa sugestão. Mas ali, no meio da Avenida Paulista, depois da confusão do metrô e no fluxo que parece eterno dos carros, não dá fugir de olhar a cena diretamente como o trânsito da rua. E disso São Paulo entende.

 

Direita-esquerda, direita-esquerda, na cena o corpo procura caminhos. Ele se mistura aos outros e se associa, combina pequenas massas em fluxos convergentes. Toda linear pelo espaço, a coreografia vai traçando uma grade de um mapa da cidade, que contrasta com o multidirecionamento dos corpos em cena.

 

O humano tenta achar fendas no sistema para se expressar, e o resultado disso é o trânsito — nas duas mãos. No meio da coreografia, um solo mantém a estrutura proposta, mas abre o espaço para a reflexão separada entre o indivíduo e o grupo, ao qual a bailarina solista se integra ao final, emendando a cena que alimenta a construção de uma reflexão sobre o rito, e sobre as formas de integração.

 

No meio do que poderia ser uma dança da chuva, ou de outros tantos rituais, o trânsito urbano emerge como um rito diário de comunhão. No fundo, rituais são sempre questões de se estabelecer um fator unificador, colocando todos em uma mesma máquina.

 

O indivíduo-engrenagem, seja do coletivo da tribo ou do coletivo da cidade, é um tanto menos sujeito. Importa menos sua expressão individual, sua particularidade, e mais a forma como ele pode se integrar ao sistema. Por esse motivo, a coreografia construída como um grupo que é um conjunto de solos funciona. São poucos momentos em que o trabalho escapa dessa lógica do “um é igual ou equivalente ao outro”.

 

Com pouco espaço de expressividade, é fácil escapar do imaginário (idealizado) do tribal e do ritual e pensar mais no ritual do cotidiano urbano. Mas é fato que a nossa distância do tribal mancha a organização do pensamento e o apresenta frequentemente como algo que ele não é, nem precisa ser.

 

O trabalho segue coerente até seu final, quando passamos, de repente, a duos, replicados pelo conjunto do elenco, com direito a finalização com colo e beijinho. Ai, somos traídos pelas percepções construídas. Não estamos mais na unificação do rito, nem na massa da cidade, mas no espaço das interrelações.

 

Os relacionamentos também têm grandes aspectos ritualísticos, mas ai já parece que tentamos abraçar o mundo, e com uma mão só. Não há tempo nem desenvolvimento suficiente para sustentar o tanto de conteúdos possíveis, o que nos leva à armadilha do “diverso”, ou do “caleidoscópio cultural e gestual” que é apresentado no programa.

 

O interesse do caleidoscópio é que ele transforma algo concreto em uma versão enlouquecida daquilo. Sabemos o que é o concreto e o vemos se transformar e se desdobrar. Há menos interesse, no entanto, quando ficamos por traz da cortina da diversidade, e não temos o apoio concreto de uma construção compreensível, antes de vermos sua desconstrução.

 

Isso traz um tanto de um ponto de interrogação no final da obra, mas não atrapalha o todo de sua proposta. O trânsito-fluxo, de energias, de ritos, e o trânsito-afluência, de pessoas, de carros e ônibus, são um tanto quanto associáveis. O corpo procura caminhos. E todo caminho é uma forma de rito.

Fotos: Daniel Cabrel / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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