Um interessante jogo de espelhos 

('Eu por Detrás de Mim', da Companhia de Danças de Diadema)

Por Amanda Queirós

“Eu por Detrás de Mim” é uma obra de muitas qualidades, mas a maior delas, talvez, seja o fato de a coreografia de Ana Bottosso não se repetir. Sim, há sequências de movimento reiterativas, mas elas são utilizadas para embasar reflexões sobre subjetividade e representação que encontram soluções diversas a cada novo quadro. 

 

O jogo de espelhos encenado sob a inspiração do dinamarquês Olafur Eliasson assume desde formas mais óbvias, como um bailarino reproduzindo fielmente a movimentação do outro, a outras mais surpreendentes, quando o elenco praticamente inteiro, organizado em fila, escapa da função de mera sombra e emana diferentes (e animalescas) facetas do vaidoso indivíduo que, à frente de todos, mira a plateia como se enxergasse nela a si mesmo.

 

Esse olhar é determinante durante todo a obra, pois as variações dele vão permitir diferentes abordagens sobre o sujeito. Cada novo ângulo de mirada revela uma faceta distinta explorada coreograficamente a partir de pequenas mudanças incorporadas pontualmente à movimentação, tudo sintonizado com a caótica reverberação dos pratos da bateria que conduz a trilha sonora. 

 

Nesse sentido, outro aspecto importante é o reconhecimento da alteridade. A forma como o outro me enxerga diz muito não apenas sobre eu mesmo, mas sobre quem está olhando, e o trabalho favorece esse questionamento ao confrontar o público com a ideia de ele também se ver refletido em quem está dançando.    

  

O figurino platinado apresentado de início força uma padronização intencionalmente artificial que vai sendo desconstruída ao longo da peça, revelando uma diversidade enorme de alturas, tipos físicos, cores de cabelo e tons de pele. 

 

Tal panorama expõe uma defesa do que há de singular por trás das imagens prontas na qual a sociedade contemporânea insiste em encaixotar as pessoas. Essa é uma mensagem reforçada ainda por um elenco maduro, capaz de evidenciar as referências de movimento que cada um traz no corpo e que os tornam únicos para além do visual.

 

Diante de tudo isso, “Eu por Detrás de Mim” atualiza a velha oposição entre aparência e essência sem aderir necessariamente a qualquer um desses polos. Para Bottosso e os bailarinos, interessa mais explorar os matizes encontrados entre um e outro - uma escolha certeira que não dá conta da complexidade de uma questão impossível de ser encerrada, mas está plenamente a sua altura.  

Fotos: Daniel Cabrel / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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