Dez minutos de êxtase 

('Mulheres', da Quasar Cia de Dança)

Por Henrique Rochelle

Dez minutos de êxtase, num trabalho de gênio. A definição parece completo exagero, mas não é. Sintetizar uma história de mais de 30 anos de companhia em dez minutos seria um projeto impossível, mas “Mulheres” dá uma boa pista para se entender a Quasar Cia de Dança e o universo de seu coreógrafo residente, Henrique Rodovalho.

 

Impregnada no imaginário daqueles que conhecem a companhia, é a imagem de um grande sofá vermelho e de três bailarinas em movimento quase constante, explosivo e sentimental, que fica na mente. A associação é inevitável. A Quasar foi marcada por grandes bailarinas, e essa obra de 2000 é retrato de uma época de ouro, lembrança do que temos de melhor.

 

Rodovalho, e sua forma de movimentação não são para qualquer um. Não só porque são honestamente complicadas, mas porque ele não cria para qualquer um, indistintamente. Mais que um coreógrafo de movimentos, seus melhores trabalhos acontecem quando opera como um coreógrafo de corpos. Ele dá o impulso, a sugestão, mas a sua dança não acontece nele e depois no outro: ela é quase inteiramente do outro, pelo outro.

 

Neste caso, da outra. O elenco original de Mulheres encontra Lavinia Bizzotto e Gica Alioto, acompanhadas de Ana Carolina Bueno. As duas primeiras, não estão apenas entre as maiores intérpretes do coreógrafo, mas também são co-responsáveis pela forma de movimentação que a ele ficou associada, e que permanece hoje como a marca da Quasar. Uma criação conjunta, musas-artífices e coreógrafo-arquiteto.

 

Não só algo da segmentação do corpo e dos caminhos de cada movimento, mas uma questão da dinâmica, completamente distinta do natural, empregada na movimentação, que a suspende do tempo e espaço cotidianos, e a insere num novo ambiente. Esse ambiente é algo da mágica.

 

É possível fazer a análise do movimento desse tipo de trabalho, discutir o uso dos braços, articulações, das torções trabalhadas em giros contínuos e a alteração dos níveis e planos. Mas isso seria desmerecer o efeito principal da obra: colocar tudo isso a um serviço não da mecânica, mas da estética.

 

São dez minutos em que esses corpos parecem se desfazer e refazer na nossa frente, com um efeito quase que de conversa — mas uma conversa feita em discurso indireto livre: observamos a cena que é ao mesmo tempo um instante físico real, e um desdobramento seu, um diálogo mental.

 

É o estilo de Virginia Woolf, mas sem, de fato, nos transportar a alguma narrativa demarcada. Aqui, o cotidiano se torna abstrato, e ninguém precisa saber o que acontece na cena para entender o que se passa, ou que sentimentos e conflitos são esses.

 

O peso de se remontar essa coreografia é difícil de medir. Mas a coragem para subir em cena no lugar de musas é justificada pelo elenco dessa nova versão. Carolina Amares, Liliane Grammont e Vivian Naveg dão conta do recado. Essa obra não existe sem grandes intérpretes, e, na montagem, apresentada na Semana Paulista de Dança, ela existe demais.

 

A recepção do público mistura o êxtase à fúria. Enquanto essa história se desenrola no palco, estamos aturdidos acompanhando e concordando, sem nem saber com o que concordamos. Quando ela termina, quase como que em resposta, a plateia irrompe, em aplausos e gritos.

 

A obra toca numa veia profunda, e de pronto respondemos “eu também”. Um tanto por essa mensagem indefinida, mas presente. Um outro tanto por essa realização concreta. Coreografia, coreógrafo, elenco. Rolando por cima do sofá. Estendendo os braços. Uma, duas, três. Um olhar de canto, quase que escondido. Um gesto brusco na direção da outra. Um gesto lânguido pra voltar a uma posição inicial.

 

Nos falam de memória, nos falam de saudades. Sim, eu sei. Eu também. São mais de 30 anos de Quasar, quase 20 dessa coreografia, e ela continua fazendo sentido. Continuamos aplaudindo. Emocionadas, as novas intérpretes agradecem, de novo e de novo. 

 

Você olha pro lado, e o resto da plateia partilha desse momento. Um instante de suspensão e gênio. Ponto alto numa boa noite de espetáculos. Mais aplausos. Em movimento contínuo, como a coreografia. Você olha as intérpretes e vê a realização. E um desejo de dançar isso de novo. Elas querem mais. Só mais dez minutos… Sim, eu sei. Eu também.

Fotos: Daniel Cabrel / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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