Nenhuma donzela indefesa 

('O Mandarim Maravilhoso', da Studio3 Cia de Dança)

Por Henrique Rochelle

“O Mandarim Maravilhoso”, de Anselmo Zolla para o Studio 3, abriu a programação da segunda edição da Semana Paulista de Dança, no Auditório do Masp. Com curadoria assinada também pelo coreógrafo, a seleção variada de obras trouxe um enfoque indireto (mas não completamente) para mulheres. Por esse motivo, vem um tanto de surpresa com se começar a programação com um “Mandarim”. 

 

O balé, composto logo após a Primeira Guerra por Béla Bartók, conta uma história violenta, de uma mulher forçada por três bandidos a seduzir homens que passavam pela rua de seu esconderijo, para que eles fossem assaltados e violentados. Estreada em 1929, a obra foi imediatamente proibida por seu tema e teor, e passou anos afastada da cena.

 

Esse caso de escândalo e censura, que lembra um tanto a recepção da “Sagração da Primavera” de Stravinsky, responde por um interesse inspirado na provocação, que deixa uma certa popularidade dessa referência, ainda hoje. Mas, numa análise do enredo, o foco que a partitura dá às relações retratadas é inteiramente problemático. Temos uma mulher numa situação de cativeiro e obrigada a seduzir e enganar homens, uma tentativa de estupro, e um final em que tudo parece se justificar por amor (que mal é desejo): o mandarim não morre, até que beije a moça e tenha uma libertação.

 

A versão do Studio 3, ainda que se inspire na obra de Bartók, inverte o jogo. Aqui, são quatro mulheres e um homem que constroem uma obra de violência um tanto menos problemática: não se vê mais um bando que força uma moça a algo, mas um grupo de mulheres decidido àquilo que vai fazer.

 

Aqui, o mandarim já surge aprisionado, e ainda que haja um imenso jogo de sedução, de desejo e de sexo nada velado, é difícil ver vítimas nas mulheres, e até mesmo no homem. A violência acrobática da obra se constrói quase como fetiche, entre o sadomasoquismo e o voyeurismo. Donas de suas ações, as mulheres dessa versão não são obrigadas a nada. Elas sabem aquilo que fazem e o aceitam.

 

Elas olham o Mandarim e falam com ele, provocam, incitam, anunciam sua perdição e se divertem com isso. Em um plot twist selvagem — aqui, todas as violências são diretamente corporais, e extremamente animais —, elas mordem seu pescoço e lhe arrancam pedaços.

 

Quase toda a obra se constrói a partir de uma mesa, que aparece como um objeto, mas, sobretudo como espaço, como forma de organização da ação cênica. Ela é usada para pautar cenas, do aprisionamento à cama, mas também para realçar as dinâmicas coreográficas, que refletem sobre os limites, transportados a esse domínio físico pela representação do dentro e fora, do sob e sobre, do um lado e o outro. E dos trabalhos e acrobacias para transpor ou lidar com essas representações.

 

Curta e direta ao ponto, a obra leva só o tempo necessário para vermos que essas mulheres brincam com a sua vítima, como gatos com uma presa. Ainda que haja um tanto de prazer sexual, o prazer que prevalece é o do poder, o da dominação sobre o outro.

 

Há uma missão, há um objetivo maior? Não sabemos nem se esse homem precisa ser roubado, nem mesmo se ele tem dinheiro, e muito menos se ele tem algo de maravilhoso como o título sugere. Na versão original, mesmo atacado pelos bandidos, o Mandarim não morre. Nem sendo sufocado, nem apunhalado, nem enforcado. Seu corpo brilha no escuro, resistindo por puro desejo. Só depois do beijo da moça é que ele sangra e morre. 

 

Aqui, não temos nem Mandarim nem maravilha, e o título remetendo à obra serve sobretudo para erguer a sobrancelha e forçar a esse questionamento da mudança da história. Uma nova leitura. Violência sem coação, traduzida em acrobacia, do chão para a mesa, por cima e por baixo dela, se debatendo contra um espaço que não existe no concreto, mas se faz enxergar. Sem uma libertação, mas com um tanto de outras liberdades. Sem um conto vendido como “de amor” justificando posturas problemáticas, mas uma mistura do desejo e do descontrole explicando excessos.

 

Aqui, a única mulher da versão de Bartók já matou o Mandarim original, matou os vagabundos, tomou seu esconderijo e criou sua irmandade. Quase uma seita. Agora, um século depois, ela não é nenhuma donzela indefesa. Um próximo Mandarim até pode ter desejos, até pode se apaixonar, nesse jogo. Mas essas mulheres têm uma missão, e nenhum homem, não importa o quão maravilhoso ele possa ser, passa por cima da marcha delas.

Fotos: Daniel Cabrel / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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