Como invadir o que já deveria ser seu? ('Deixa Arder', de Marcela Levi
e Lucía Russo)

Por Amanda Queirós

- O que você vai ver hoje? 

- Tem esse espetáculo, mais esse… Tem também “Deixa Arder”.

- Opa, então fica a dica: senta na última fileira. 

 

Ouvida nos corredores da Bienal Sesc de Dança, essa frase despertou uma camada adicional de curiosidade sobre o trabalho. O que haveria na performance de Tamires Costa a ponto de justificar tal recomendação? 

 

“Deixa Arder” se descreve como uma dança de invasão, conceito desenvolvido neste solo pelas coreógrafas Marcela Levi e Lucía Russo. Mas, enquanto se apresenta, a obra dilata as possibilidades desse termo. Invasão pode significar ultrapassagem de barreiras, ocupação de forma agressiva ou mesmo uma intromissão desaforada. O que se vê em cena é tudo isso, mas também é mais que isso.

 

A principal invasão em questão acontece no corpo da própria Tamires, que se deixa ser permeada pelas mais diversas referências culturais. O programa elenca Thelonious Monk, Dizzy Gillespie, Nina Simone, Michael Jackson, Valeska Gert, Josephine Baker, Pica-Pau (sim, o do desenho animado!), Macunaíma, Grande Otelo, Jorge Ben Jor e Mc Carol.

 

A grande maioria dessa lista é composta por artistas negros tal como a própria solista, e o que ela faz é costurar imagens soltas capazes de remeter diretamente à figura pública deles. São traços exageradamente caricatos - você provavelmente reproduziria alguns desses mesmos gestos na tentativa de fazer alguém identificar essas pessoas num jogo de mímica. 

 

Essas imagens se materializam rapidamente uma após a outra em um continuum, produzindo um Frankenstein de movimentos aparentemente desconexos. A transição precisa entre gestos tão distintos entre si - aliada a uma trilha composta por uma bateria jazzística - confere certo ar de vaudeville à cena.

 

Faz sentido, portanto, quando a famosa risada do Pica-Pau atravessa a música. A introdução desse elemento cartunesco aprofunda a comicidade do que se vê, mas não desperta gargalhadas. O que surge, na verdade, é um riso nervoso e angustiado.

 

Pica-Pau é um personagem subversivo. Ele é afável e criativo, mas também pode ser mesquinho e cruel. A forma como ele reage às coisas provoca surpresa, espanto… Você nunca sabe o que esperar, e essa é a sensação de se assistir a “Deixa Arder”, especialmente a partir do momento em que, com o auxílio de uma garrafa de água, Tamires quebra a quarta parede sem qualquer cerimônia. 

 

Um certo pânico se instala silenciosamente. Até onde ela é capaz de ir? Quanto do espaço do público ela efetivamente irá invadir? É possível se preparar para o que virá mesmo sem saber o que será? 

 

Essas sensações também são despertadas por filmes como “O Som ao Redor” (2012), de Kleber Mendonça Filho, e “Nós” (2019), de Jordan Peele. O primeiro apresenta um universo de não ditos nos quais os papéis sociais parecem ser muito claros, mas algo está à espreita e prestes a explodir a qualquer momento. O segundo se constrói a partir do temor inconsciente de ter seu lugar no mundo tomado pelo outro, acrescentando a esse debate um componente racial também visto em “Deixa Arder”. 

 

Tamires se embrenha por entre espectadores majoritariamente brancos e impõe a eles o calor do seu corpo, o cheiro do seu suor, o contato de sua pele. Ela cruza deliberadamente os limites acordados tacitamente pela configuração de palco vs plateia, provocando uma tensão contínua. Essa investida é recebida de forma ora afrontosa, ora hesitante, ora generosa. O único estado aparentemente inviável é a indiferença. 

 

A invasão provocada por Tamires impõe uma mudança de postura de alguma ordem, por mais incômodo que isso seja. Ali, a performer reivindica o espaço do público como espaço público, um lugar onde somos afetados por ela e ela também se afeta por nós. Tal atitude contribui para esfacelar regras de conduta já conhecidas com o objetivo de inaugurar novos parâmetros de convivência capazes de serem revistos a qualquer momento, em negociação.    

 

Sentar na última fileira, portanto, adianta muito pouco porque não há rede de segurança física para o que está por vir. Em tempos nos quais as ferramentas de controle social se endurecem cada vez mais, experimentar um pouco dessa insubordinação cai mais que bem.

Fotos: Juliana Hilal / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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