Para redescobrir o prazer de dançar 

('Dancing Grandmothers', da 
Eun-Me Ahn Company)

Por Amanda Queirós

Há algo de adorável na proposta de “Dancing Grandmothers” que contamina qualquer leitura a ser feita dessa obra. Afinal, como é possível resistir à fofura de um grupo de senhoras que atravessou o planeta para apresentar o seu joie de vivre no Brasil?

A coreógrafa sul-coreana Eun-Me Ahn se vale desse artifício para capturar a atenção do público de partida e, com isso, reposicionar o olhar dele, nem que seja por alguns minutos, sobre um grupo social ao qual esse espaço costuma ser rejeitado.  

O que poderia ser apresentado como um choque de gerações ganha a forma de um diálogo no qual os jovens e enérgicos bailarinos da companhia prestam reverência ao repertório gestual desses corpos idosos e não treinados.

Vestidos com saias longas e blusas de manga comprida coloridas, eles incorporam das vovós elementos como passadas ritmadas e arrastadas, saltinhos serelepes e braços erguidos alternadamente para o alto. Esse processo é embalado por repetitivas batidas eletrônicas que revestem a cena de uma aura ao mesmo tempo pop e ritualística, tornando-a uma arena na qual passado e presente se cruzam quase sem distinção. 

Imersos nessa espécie de transe, os profissionais somam suas próprias referências de movimentos, produzindo um crescendo de saltos explosivos e sequências de grande domínio técnico que fragmentam o corpo rapidamente tal como nas coreografias de k-pop.

Esse primeiro ato é interrompido para uma longa exibição da série de vídeos que deu origem ao espetáculo, uma viagem pela Coreia do Sul na qual Eun-Me Ahn pedia para idosas dançarem como bem entendessem. Sem o amparo de qualquer som, as imagens forçam a uma observação à diversidade daquelas senhoras, além da relação que elas estabelecem com a câmera e com as pessoas e o ambiente ao seu redor. Só depois disso é que os profissionais e as vovós efetivamente se encontram no palco.

A partir daí, a dramaturgia afrouxa em prol da injeção de espontaneidade, representada por um entra e sai dos dois elencos em cenas aparentemente aleatórias que alternam ternura e kitsch, sem uma conexão muito clara entre si. Ainda estamos vendo um espetáculo de dança que coloca artistas de um lado e público de outro, mas há uma confusão sobre o quanto daquilo é propositalmente cênico e quanto é apenas celebração da dança que pode ser feita por qualquer um, a qualquer tempo e em qualquer lugar. A dúvida sobre o nível de representação presente ali bagunça qualquer interpretação pronta para o que se vê. 

Essas fronteiras borradas dão vazão ao grand finale, já pós-aplausos, quando o público é convidado a se juntar às avós dançantes em uma balada improvisada e um tanto hesitante, numa ação que quebra junto com a quarta parede a formalidade típica de uma noite de abertura de um evento como a Bienal.

Nesse movimento, a obra quebra também uma gravidade muito associada ao tipo de dança contemporânea autoral que esse evento se propõe a apresentar, devolvendo a ela o direito de provocar e evocar prazer. No fundo, tudo é bem menos complicado do que parece. Eun-Me Ahn não busca transformar a visão que temos da velhice nem problematizar esse estágio da vida, mas fazer de seu "Dancing Grandmothers" um espaço idílico de convivência entre diferentes - e, para ela, isso já é o suficiente.

Fotos: Juliana Hilal / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Instagram Icon
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now