Treino, técnica e virtuose

(‘Daimón’, de Luis Garay)

Por Henrique Rochelle

Quando vemos Maia Chigioni sobre um ringue, no meio do que parece ser um treinamento de luta, somos rapidamente transportados para o universo do esporte. “Daimón”, criação conjunta dela com seu diretor, Luis Garay, no entanto, continua por mais de uma hora, e entre um bocado de construção cênica para garantir seu transporte ao domínio do estético.

Não que seja necessária uma hora, mas o tempo ajuda a reforçar o tom da proposta, que parte do treino e do treinamento, e abre espaço para a reflexão sobre a perigosa convergência — de agora, mas também de diversas outras eras da arte — entre o atleta e o artista.

 

Durante todo o espetáculo, ela será vista ali, em cima do ringue, e continuando sua luta contra o ar, como se em preparação para o combate. Em jogo, um corpo treinado, docilizado, preparado para seguir e obedecer a uma proposta, um resultado, um efeito específico. E no caso da origem da movimentação colocada em cena, esse efeito não é estético. Ele é desportivo. Seu objetivo é rendimento, desempenho, vitória, colocação, pódio.

 

Mas é inevitável que também exista estética. Aqui, o que não é por si estético passa a sê-lo. Porque não vemos a construção real do treino, e a situação e condição de prestação/apresentação/realização é fundamental para o entendimento. Seu propósito em cena claramente não é o competitivo. Ela está ali sozinha e para a contemplação, como ponto de partida para a reflexão. Na Bienal Sesc de Dança, tão performática, tão pouco dançada, e tão pouco atlética, essa contemplação parece cair bem.

 

Refletir sobre um corpo classicamente treinado para a dança seria até bobo. Mas refletir sobre como o treinamento leva à estesia e à espetacularização dos corpos em cena — mesmo quando eles fazem (por vezes auto-)proclamados revolucionários trabalhos de pesquisa— é não só interessante, como fundamental.

 

A lógica da dança menor, da dança do “menos é mais”, do despir as obras para encontrar a verdade e o intérprete, aqui é colocada em cheque por um paradoxo de treinamento.  Tanto na prática da obra observada, como também na sua metáfora ampliada sobre a construção dos corpos dos intérpretes da dança de hoje. São tantos os treinos que se acumulam, especialmente os não-clássicos e anti-tradicionais, que arriscamos chegar exatamente ao mesmo resultado, mas pela via oposta. Esse lugar é a virtuose.

 

E a virtuose, aqui, grita. Ela não é a virtuose do balé ou da pirueta, mas ainda é virtuose. É exagero demonstrativo da capacidade técnica. Mas esse exagero não nos é apresentado para mera satisfação, e sim para a reflexão.

 

A lógica, talvez um tanto subversiva — ainda que descaradamente acalentada por esse meio em que está colocada —, é a de apontar uma possibilidade que é antiga, uma possibilidade que já fazia parte daquilo que era criticado pela formação da dança de diversos dos modernos, pós-modernos, e contemporâneos: a possibilidade de que a virtuose não se encerre em si mesma, e seja capaz de levar não só à estética, mas à reflexão.

 

De novo, isso não é novidade nenhuma. A estrutura do balé, e os vários sistemas de hiperextensão da técnica clássica, em sua origem e em suas tentativas históricas de reelaboração, são exemplos claros de como isso já foi feito. Talvez, a solução para a atualização dessa ideia esteja na tríade virtuose - estética - reflexão, aqui com a ênfase na reflexão.

 

Quando essa obra é entendida como forçoso ponto de partida para debater o lugar do treino, assistimos e sabemos que o ringue aqui é palco, mas um recado (talvez inadvertido) também fica claro: na Bienal, o palco é ringue. Mas vários artistas, tal qual Maia Chigioni, estão lutando sozinhos e contra algo que às vezes já não está lá. Há décadas.

 

O que falta a muitos desses artistas, no entanto, é a graça e a capacidade que Chigioni tem. E essas são resultado da técnica, do treino, do virtuoso — tão frequentemente rejeitados e tão fundamentais para esse grande sucesso do evento…

Fotos: Beto Assem / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

  • Grey Facebook Icon
  • Grey Instagram Icon
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now