A traição da normalidade (‘Trabalho Normal’, de Cláudia Müller)

Por Henrique Rochelle

Existe uma lógica, bem na fronteira entre a dança e a performance, que intriga e provoca. Em vários dos casos, é a definição de uma ou outra área e linguagem que acorrem à mente e deixam o público buscando algum conforto para entender — como disse um senhor em uma praça, durante uma programação da Bienal Sesc de Dança 2019 — o que é performance, e porque ela é tão presente numa bienal de dança.

 

Essa reflexão, ainda que fundamental, fica pra outra hora. Porque há certas ocasiões e trabalhos que nos puxam para fora dessa lógica do "o que é o que”. É o que acontece quando nos confrontamos com obras que comunicam tanto, que deixa de ser importante definir para segmentar, e o que queremos é o pertencimento e a reflexão que aquilo nos proporciona.

 

Mesmo quando isso acontece, continuamos na dúvida de se aquilo é dança, se é performance, e se está em seu melhor lugar possível. Mas não há dúvidas de que é arte, e da melhor qualidade. Me peguei assim, olhando Cláudia Müller uniformizada, em uma mesa, secando uma pedra de gelo por 8h. É a primeira das ações de sua série “Trabalho Normal”, ao todo serão 5 ações, inspiradas em artistas que discutem a inutilidade da arte, cada uma realizada por 8h, em 5 dias consecutivos, cumprindo uma jornada “normal” de 40h de trabalho numa semana.

 

Aqui, ela é inspirada pelo “Parador of Praxis 1: Sometimes Making Something Leads to Nothing”, de Francis Alÿs. Na performance, Alÿs empurra um grande bloco de gelo pelas ruas da Cidade do México até que ele se derreta completamente, ocupando por volta de 9h.

 

Às vezes, fazer algo não leva a nada. É um ótimo ponto de partida. Reflete uma questão de expectativa da capacidade produtiva da arte, deflagra a lógica producente do sistema e economia de circulação de obras artísticas, e coloca em cheque a própria organização e propósito da ocasião em que agora se insere — uma bienal de dança, voltada quase que inteiramente para a pesquisa performática.

 

O trunfo dessa obra é seu diálogo com o público. Essa Ação 1 ocupou a área de convivência do Sesc Campinas na tarde de seu dia mais cheio — o domingo. No Sesc, domingo é dia de trabalho normal. Lógico, não só no Sesc. E, também lógico, o dia da semana interfere muito pouco na recepção da obra. Mas o público espontâneo do espaço, aproveitando sua folga de uma semana realmente quente entre a piscina, a Comedoria e as opções de lazer, encontrou uma mulher secando gelo.

 

Eles param, falam com ela, e em alguns segundos entendem o que se passa. Trocam olhares e sentimentos sinceros: muita gente sabe o que é trabalhar 40h na semana, com a sensação de não fazer nada de fato. Aonde leva o trabalho repetitivo? Qual seu resultado?

 

O gelo se derrete, ela o seca. Vira e mexe aparecem candidatos a gerenciar e supervisionar sua atividade: é melhor segurar desse jeito; é melhor secar daquele jeito. O trabalho do outro é sempre sujeito à crítica.

 

A obra de arte também. Ela é didática? Ela é comunicativa? Ela é eficiente? Ela chega no público? Ela realiza sua proposta? Sua proposta tem valia? Ela tem propósito? Eu preciso sair da casa para ver isso? 

 

Ela passa o pano no gelo e vou me perguntando sobre esse lugar estranho — planeta Bienal. 10 dias de suspensão. Este não é o mundo real. Acordamos, almoçamos, passamos o dia e dormimos em meio à arte e aos artistas. Não há nada de normal nisso. Tampouco no “Trabalho Normal” de Müller. E, ainda assim, compreendemos exatamente o que se passa, o que se propõe.

 

O normal é uma ilusão temporária, a um só tempo fingindo ser constante, e sem nenhuma rigidez e sustentação reais. E a performance acha um espaço nessa traição da normalidade.  A vida que se faz arte, que se finge de arte. A arte que se faz vida, que se finge de vida.

 

Normalmente, eu reviraria os olhos em desgosto. Mas aqui ninguém precisa fingir. Müller sabe o que faz. Ela tem convicção em suas propostas. Em meio a tantos blefes cênicos, ela não joga algo para o alto para ver se alguém pega, para ver se cola. Com um “Trabalho Normal” e alguns rastros, ela abre o espaço da identificação.

 

Ela ainda vai tensionar esse limite. Depois de secar o gelo ela vai soprar açúcar, contar os segundos passando, chorar, e ficar parada na mesma posição. Cada uma das ações, inspirada por outros artistas e obras. Cada uma delas se estendendo por 8h de trabalho normal, em uma rara ocasião em que a performance duracional mostra o valor de seu tempo específico.

 

O normal é uma ilusão, traída pelo confessional partilhado entre a performance e seu público. Quantas outras vezes não nos convencemos de que estamos numa situação normal? Quantas outras vezes nos iludimos com a utilidade daquilo que fazemos? Poderia chorar com ela, por 8h. Seria inútil. Mas seria um trabalho normal. 

Fotos: Juliana Hilal / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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