Fuerza Bruta conquista público ao sobrepor o viver ao pensar

Por Amanda Queirós

Como jornalista, sempre senti um pouco de dificuldade quando precisei escrever algo sobre o Fuerza Bruta. O material de divulgação nunca deixa muito claro o que é aquele evento, enquanto textos de opinião em relação às apresentações se mostram, em geral, deslumbrados demais para servir como base de informação. Essa falta de dados é um tanto surpreendente, dado que o projeto existe há 15 anos ininterruptos.

A descrição mais próxima do que se vê em cena é a de uma “experiência imersiva” que mistura “dança, música e acrobacias”. Mas a verdade é que essas palavras dizem bem pouco do que é compartilhado pelos artistas com o público.

Dado que tudo o que vivemos já é por si só experiência, a palavra-chave dentre os termos acima é, de fato, “imersão”. A graça de estar no Fuerza Bruta é sentir-se parte do Fuerza Bruta sem que isso surja de maneira impositiva. O segredo para acessar esse campo é a aposta numa dimensão de festa mais do que de espetáculo.

 

Estamos diante de um grupo de jovens bonitos e vigorosos que dançam, tocam tambores e fazem acrobacias aparentemente impossíveis para sujeitos comuns. Estar com eles significa partilhar, por pelo menos uma hora, de suas habilidades e de seu destemor, acessando um estado de euforia quase lisérgico, despido de inibições, que seduz por se opor tão radicalmente ao dia a dia rotineiro de cada um.

 

A opção pelo formato de arena, em vez de um palco clássico, favorece essa construção. Os artistas passeiam por entre o público o tempo inteiro e, mesmo quando estão afastados dele, buscam sempre uma aproximação.

 

Esse diálogo muito imediato substitui a necessidade de uma linha narrativa– algo tão cobrado pelo público dos espetáculos de dança contemporânea. Não há amarras claras entre os quadros apresentados a não ser, ora e outra, os próprios artistas com os mesmos figurinos de antes, vivendo personagens de si mesmos. Isso faz com que este não seja um espetáculo sobre algo. Ele é algo em si mesmo, e a capacidade de se comunicar para um público massivo a partir desse lugar já é algo por si só valoroso.

 

Há, sim, cenas que evocam possíveis temas. O homem que segue andando em uma esteira sem que nada possa pará-lo ou o grupo de garotas que usa o corpo para coreografar volumes de água em uma enorme tela transparente disposta acima do público trazem noções de enfrentamento, poesia e brincadeira, mas estão longe de querer pregar qualquer coisa.

 

Em ambos os quadros, bem como em boa parte da noite, a técnica cenográfica é o que parece determinar as marcações de cena. A exploração de múltiplas possibilidades a partir daquele dispositivo chega a ser um pouco cansativa, mas cumpre uma função mercadológica. Afinal, há tempo de sobra para que a plateia, munida de seus smartphones, consiga registrar tudo o que acontece e postar em suas redes sociais.

 

O batalhão de mãos com telefone em punho visto durante o Fuerza Bruta escancara essa necessidade tão presente de compartilhar, em especial, tudo o que possa ser qualificado como extraordinário na vida das pessoas. Por tabela, essa atitude funciona como um poderoso boca a boca para o espetáculo, responsável por um sucesso tal capaz de fazê-lo encenar montagens simultâneas em diferentes partes do mundo.

 

Diante de tudo isso, fica mais fácil entender porque é tão difícil falar desse projeto argentino. Ele não exige muito do público: seu único compromisso é ficar pouco mais de uma hora em pé. Mas, durante esse tempo, ele não vai precisar pensar em nada, apenas deixar-se levar e sentir uma grande sensação de prazer.

 

Nesse sentido, o Fuerza Bruta carrega em si um quê do desfile das Escolas de Samba do Carnaval brasileiro (não é à toa, portanto, que o programa tenha participação da bateria da Rosas de Ouro).

Ambos são construídos em torno de pretextos para perpetuar a festa e a exaltação, fundando uma realidade paralela em que o tempo é suspenso e todos são performers de igual para igual. Daí vem a imensa dificuldade enfrentada pelos apresentadores de TV incubidos de narrar os desfiles. Não há exatamente o que falar, apenas viver. Por que seria então diferente na versão argentina, não é mesmo?

Fotos: Maurício Santana / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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