Euforia: concreta, abstrata e técnica

Por Henrique Rochelle

A proposta do Fuerza Bruta, companhia argentina, é a da produção de espetáculos físicos e altamente imersivos. Com o público dentro da cena, os diversos números que compõem “Wayra”, obra que esteve em temporada em São Paulo, alteram o posicionamento das pessoas, se passam entre eles, por cima deles e por todos os lados, entre ventiladores, chuvas de papel picado, jatos de água, possibilidades de toque, estruturas que entram e saem de cena, e um trabalho de iluminação e sonorização que cria ambientações distintas e sobrepostas, ao longo do espetáculo.

 

Ainda que não seja, estritamente, um espetáculo de dança, os trabalhos que sustentam a realização da obra são de duas ordens desse domínio: a organização espacial, e a disposição corporal. O resultado mescla o teatro físico com o cirque nouveau. Se aproxima do teatro físico pelo modo como a ação no espaço ordena a experiência cênica que temos da performance, porém sem nenhum componente de narratividade, sendo apresentada em números, não necessariamente numa lógica sequencial, nos quais o elemento principal recorrente é a acrobacia — motivo para se aproximar do circo.

 

Porém, ao diminuir — e por vezes eliminar — a separação entre o espaço de realização dos números e o espaço do qual o público assiste, o efeito que se busca e se alcança é o de transporte: somos inseridos num momento de excessão — por excelência o espaço da realização estética. Há arte, muita arte e muito trabalho, envolvidos na realização de uma proposta complexa como essa.

 

O trabalho do Fuerza Bruta se anuncia como uma mescla de show, música, dança, efeitos visuais e acrobacias. E, pensando coreografia como a estruturação do movimento no tempo e no espaço, é inegável que existe uma grande quantidade de coreografia envolvida, ainda que não haja um coreógrafo creditado para a obra. A direção de movimento é o grande trunfo do grupo, e isso se aplica a muito mais do que as realizações dos performers e as propostas de movimentação dentro de suas acrobacias: o maior de todos os efeitos é a coreografia da equipe técnica envolvida na transformação do espaço, que demanda precisão e preparo, realização impecável, mas para a qual falta, se permitimos a queixa, finalização artística.

 

Assim como os intérpretes, grande parte dos técnicos estão “em cena” a maior parte do tempo — com aspas porque, como pontuado, não há uma clara separação entre aquilo que é cena e o que não é, dentro de “Wayra”. Porém, diferentemente dos intérpretes, intensamente trabalhados de forma a sustentar continuamente a suspensão da realidade que abre espaço para a fantasia estética proposta, a equipe técnica se faz visível dentro de sua função, o que por vezes puxa o espectador de volta à realidade.

 

Isso não é de todo negativo. O espetáculo poderia ser visto inteiramente a partir de um foco na movimentação e na incrível realização do trabalho dos técnicos envolvidos. Mas, dentro dessa proposta de imersão absoluta, torna-se um risco que a técnica seja mais evidente do que o espetáculo. Desde a entrada para ele, que passa por uma estrutura de bolhas transparentes, dentro das quais músicos tocam bateria, e somos surpreendidos por constantes chuvas de papel picado — uma boa representação carnavalesca, que conta com a participação da bateria da Rosas de Ouro — o caráter imersivo da obra é palpável. Há ação dentro das bolhas, nos corredores que as interligam, podemos ver as outras bolhas do caminho, e nos aprofundar em espaços delas, enquanto um discreto número aéreo se passa por cima dessas bolhas, com intérpretes — ou seria uma só? — caminhando e girando por cima desse espaço inusitado em que nos encontramos.

 

Antes que eu visse a acrobata, no entanto — que, aliás, assim como na maioria dos números tem os equipamentos de segurança, como os cabos, perfeitamente visíveis (não há nenhuma tentativa de esconder ou criar uma fantasia sobre a construção desses elementos e possibilidades) — eu observava, pela transparência da bolha, uma dupla de técnicos, sentados em uma plataforma um pouco elevada e conversando. Não se trata de uma desqualificação de seu trabalho, porque tudo se passa sem problemas, sem dificuldades, sem percalços, mas trata-se de uma questão da estrutura cênica que sustenta a experiência proposta para essa obra. São tantos os seus elementos que alimentam a sensação de que o público é transportado completamente para um estado suspenso de percepção, que as recorrentes observações que nos levam de volta à realidade (e à crueza dos materiais e estruturas que são necessários para esse espetáculo acontecer) causam estranhamento.

 

Talvez fosse só uma observação realmente crítica e pessoal: na sessão em que estive, não houve ninguém do público que parecesse se incomodar, ou mesmo atentar para esses elementos. Mas eles estavam ali, eram visíveis, e não contribuíam para a construção da fantasia cênica proposta.

 

Logicamente, há momentos em que a grandeza da construção é tamanha que esse tipo de percepção de ruptura se minimiza e desaparece. Desde o primeiro número, um pêndulo com um pequeno grupo de bailarinos balançando por cima da plateia, estamos cativados para essa proposta. Outros momentos de destaque — como uma cena com uma esteira, em que um bailarino corre, além da espécie de aquário suspenso, que baixa sobre o público e no qual um grupo de intérpretes se lança e escorrega, numa pequena piscina de água — fazem esquecer de observar a técnica, para poder observar os efeitos de seus trabalhos. E ai estão os momentos de maior sucesso de “Wayra”.

 

Nessas ocasiões, em que esquecemos a complicada organização funcional e estrutural da obra, e somos absorvidos pela experiência de sua realização, vemos a sugestão de um universo estético e artístico. Se há uma crítica com relação ao trabalho, a partir de sua observação enquanto espetáculo cênico, é o pequeno desenvolvimento desse universo. São construídos — e bem construídos — os diversos números que nos colocam, sim, dentro dessa proposta celebrativa e participativa, quase como uma rave. Porém, também quase como uma rave, não há necessariamente uma costura de direção na progressão dos elementos que os sustente dentro de um universo estético. Sem tema, progressão, ou lógica, o espetáculo parece nos gritar continuamente “olhe para cá”, “faça parte disso”. Como resultado, quando atendemos, somos puxados para dentro de números, e eles nos fascinam, mas não se compõem exatamente enquanto grupo completo e complexo.

 

Ai, caracterização, cenografia, e até a interpretação perdem potência, porque realizam um contato, mas não desenvolvem grandes compreensões. Eufórico, o espetáculo é contagiante. Bem coordenado, sua precisão técnica é surpreendente. Saímos dele carregados dessa euforia, por um lado concreta — construída em tantos sistemas,  linguagens, máquinas e, sobretudo, corpos em ação — e, por outro lado, abstrata — por ser solta, e não se pegar a outras formas de compreensão.

 

O que o Fuerza Bruta faz é trabalhar essa euforia dentro de sua percepção mais imediata e compartilhável: a sinestesia da ocupação constante e insistente de todo o espaço, de toda a atenção, de toda a disponibilidade do público. E, por isso, o nome do grupo é tão cabível: há algo de bruto, de cru, na forma como somos solicitados a esse espetáculo. Mas, se nos dispusermos a essa entrega, não haverá saída além de sermos contagiados por uma deliciosa euforia.

Fotos: Maurício Santana / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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