Fuerza Bruta – Estamos celebrando o quê?

Por Isaira Garcia de Oliveira*, convidada do CRITICATIVIDADE

O espetáculo da Companhia Argentina Fuerza Bruta, que está em cartaz em São Paulo, busca envolver o espectador de várias maneiras e com uma rapidez de estímulos que chega a deixar o espectador um pouco assustado. Porque não há diálogos formais; mas há outras formas de linguagem que tornam a comunicação entre a companhia e público muito mais sensorial.

Não é um espetáculo de dança, embora apareçam alguns elementos ligados a essa prática; também não é um show música, propriamente dito, uma vez que não há uma sequência lógica de canções; não é teatro, puro e simples, porque não há diálogos e nem cenas trabalhadas. Mas todos esses elementos estão lá representados de alguma maneira. Há muito mais de circo, com sua acrobacias que surgem de todos os lados, do teto e das paredes e muito de teatro de rua, com muitas performances, desconectadas umas das outras. Baseadas, sempre, nas prioridades eleitas pela companhia: criatividade, inovação e a experimentação. 

No entanto, parece que a preocupação da Companhia Argentina, que surgiu em 2003, da parceria de Diqui James — Criador e Diretor Artístico, e Gaby Kerpel — Compositor e Diretor Musical, buscam surpreender e envolver o espectador por todos os lados, em 360 graus e a qualquer custo. Chega a cansar, de tão intenso.

Usando e abusando de efeitos especiais, trabalhando de maneira surpreendente com uma iluminação primorosa e com vários efeitos provocados por ventiladores poderosos, capazes de movimentar uma chuva de papéis sobre o público; o espetáculo busca, antes de tudo, envolver o espectador, como se ele também fosse parte integrante da apresentação.

Com um hora e dez de espetáculo, vivenciados em pé pelo espectador, a Companhia Fuerza Bruta convida o público a andar no escuro, onde tudo é preto; até que há um novo convite para se movimentar por portas igualmente pretas e giratórias, onde é possível encontrar vários túneis transparentes e bolas de ar gigantes, cheias de chuvas de papel picado.

A música que se toca boa parte do todo tempo parece meio tribal, tendo como foco as batidas dos tambores. Esse tipo som lembra mais uma balada, com um DJ instigando o público a gritar e dançar com ele, do que um espetáculo propriamente dito. Dizem os idealizadores que tudo isso é para ser uma celebração. Mas, muitos se perguntaram após o espetáculo: - “Estão celebrando o quê?”

Outra parte do espetáculo que tenta envolver o público, de qualquer maneira, é quando acontecem performances com os integrantes da companhia se jogando sobre uma espécie de piscina que está fixada no teto. Aos poucos, essa estrutura vai descendo até chegar na altura em que o público pode tocá-la.

Muitas pessoas saíram do espetáculo nessa hora. Embora a ideia da companhia fosse envolver o público de uma maneira mais próxima, alguns espectadores sentiram claustrofobia e falta de ar nesse momento. E saíram do espetáculo. 

Ao indagar alguns espectadores, ao final do espetáculo, sobre suas opiniões, alguns simplesmente me responderam que não entenderam qual era a proposta daquele espetáculo.

Embora a Companhia Fuerza Bruta tenha se apresentado em mais de 34 países e  para mais de 6 milhões de espectadores (desde a sua fundação em 2003), há de se pensar no que se quer celebrar de fato.

Se a ideia é envolver o público com o máximo de estímulos e efeitos especiais e se esse mesmo público sai cansado do espetáculo sem entender a proposta do espetáculo, creio que a Fuerza Bruta deva pegar mais leve da próxima vez.

Se há méritos nesse espetáculo, além dos doze integrantes, entre eles atores, ginastas, instrumentistas e dançarinos, por suas performances física e artística, mérito maior deve ser atribuído também aos 35 técnicos profissionais de bastidores que coordenam 80 toneladas de equipamentos em segurança e que fazem todos efeitos funcionarem adequadamente até o final.

Fuerza Bruta é isso: um espetáculo para ser vivenciado, pois trata-se de uma experimentação, onde o espectador tem que se permitir a fazer parte do espetáculo. Do contrário, não haverá celebração.

* Profa. Dra Isaira Maria Garcia de Oliveira, pesquisadora na área de entretenimento,música e dança. Autora dos livros: “Produção executiva: Logística de shows e eventos artísticos”- São Paulo – editora Escrituras, 2016; “Recepção em Dança – O especialista e o espectador” – Curitiba – Editora Prismas, 2016; e "Hospitalidade em shows de Música - um estudo  sobre as relações  entre profissionais de bastidores, artista e espectador nas casas de espetáculos" - São Paulo - Editora Laços, 2012, além de vários artigos. ​Professora dos cursos de Pós Graduação do Senac em Gestão Cultural, Branded Content, Comunicação Integrada: Mídias Digitais, Curadoria em Arte e Aúdio Visual.

Fotos: Maurício Santana / Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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