Profissionais em ritmo de soft opening à brasileira

Por Amanda Queirós

Posso estar enganada ou com a memória muito confusa, mas a última (talvez única?) vez que o Balé da Ópera de Paris esteve no Brasil foi em 1999, quando dançou no Festival de Dança de Joinville.

Sabemos que produzir turnês internacionais de companhias desse porte é quase um delírio em termos logísticos e econômicos, especialmente quando se quer mostrar o que elas fazem de melhor: seus balés de repertório completos, que, com seus étoiles, fazem um discurso profundo sobre tradição e transmissão na história da dança.

Como essa é uma realidade quase impossível, o brasileiro balletômano se depara com turnês de pegada extremamente marqueteira, ao estilo “Estrelas do Balé Russo”, em galas de gosto duvidoso que se apoiam em clichês como o de que todo ser proveniente da ex-URSS dança balé bem (spoiler alert: não é exatamente por aí!).

A proposta do Les Italiens de l´Opéra de Paris está em algum lugar no meio desses dois extremos. A seu favor está o fato de que, diferentemente das turnês “russas”, essa não é puxada por um produtor profissional interessado nos lucros, mas pelo italiano Alessio Carbone, primeiro-bailarino da tradicional companhia francesa, e por Thiago Soares, primeiro-bailarino do Royal Ballet de Londres, em sua estreia como produtor.

Está presente no cerne do projeto, portanto, um desejo genuíno de experimentar coreografias que não fazem parte do cotidiano habitual dos 11 integrantes da trupe. A falta de experiência no campo da produção, no entanto, abre margem para o surgimento de alguns problemas graves que afetam diretamente a experiência do público.

Gostaria de pensar que falhas como o som ora estourado, ora abafado, bem como erros evidentes de marcação de luz, foram exceções da estreia brasileira - apesar de o projeto já existir desde 2016. Para além da técnica cenográfica, no entanto, há os tropeços da própria técnica clássica - esses bem mais difíceis de se perdoar.

Com 12 obras, o programa montado para a turnê é conceitualmente interessante e reafirma o tempo inteiro o trânsito franco-italiano proposto pelo projeto, passeando entre obras superclássicas e outras de acento mais contemporâneo. Estão ali trechos de peças que fazem parte da história do Balé da Ópera de Paris, como o duo de “In the Middle Somewhat Elevated”, de William Forsythe, e o solo "Arepo", de Maurice Béjart, bem como símbolos da França - no solo “Le Bourgeois", de Ben Von Cawemberg, sob música de chanssonier Jacques Breil - e da Itália, em “Pulcinella”, de Simone Valastro, com música de Stravinski.

O que o elenco entrega a partir daí é irregular. De cara, a pompa de “Ouverture” se converte em má impressão com uma sucessão de quedas das meninas nas pontas. Como coreografia de abertura, deveria impactar o público para o que viria a seguir, mas, visivelmente carente de ensaios, produz, na verdade, certo assombro. Afinal, seria tudo assim?

Surge então o Pulcinella, dançado pelo veterano Francesco Vantaggio. No meio da coreografia, contra-regras chamam a atenção para si ao posicionarem uma barra em meio ao palco. Ficamos à espera de como o bailarino vai se relacionar com aquele material apenas para descobrir que, na verdade, o elemento é integrante do número posterior, “Prelude”, de Ben Stevenson - essa sim uma surpresa.

No duo, com piano executado ao vivo por Andrea Turra, Alessio Carbone e Bianca Scudamore vivem um jogo de espelhos entre si, cada um de um lado da barra, desenvolvendo linhas que ganham pouco a pouco mais volume quando os dois começam a experimentar elevações possíveis por cima da barra ou mesmo utilizando-a como piso. É um delicado exercício de parceria entre homem e mulher que funciona bem para a dupla.

Outra coreografia que chama a atenção, mais ao fim, é “Aunis”, de Jacques Garnier, dançada por Simone Valastro, Francesco Mura e Andrea Sarri. Embalado pelos acordeonistas Gerard Baraton e Christian Pacher, o trio se engaja em canons de movimentos inspirados em danças sociais, exalando juventude e joie de vivre. A despretensão compensa as falhas de ensaio e o resultado final é agradável.

Elemento raro nesse tipo de turnês, a presença de músicos em cena, aliás, é um tiro acertado. Não à toa, os melhores momentos contam justamente com eles ao palco. Já os demais trabalhos pecam por não conseguirem entregar algo consistente.

Em meio a um visível desconforto em cena de parte do elenco, especialmente o feminino, se sobressai o carisma de Andrea Sarri e a interpretação cheia de leveza de Giorgio Fourès para “Les Bourgeois” - talvez o mais próximo do que se esperaria do estereótipo que temos do italiano. Os números protagonizados por Carbone são corretos e elegantes, enquanto Francesco Mura chama a atenção para si por uma antipatia que nos faz, enquanto público, quase pedir desculpas por ter ido ao teatro e tê-lo feito dançar naquela noite.    

Em relação às criações de conjunto de Valastro - o coreógrafo residente do projeto -, o melhor está na forma como ele organiza os bailarinos pelo espaço, mas a insistente aposta em fouettés torna suas opções de movimento um tanto cansativas.   

Anunciado como apenas uma coreografia, o personagem de Pulcinella volta ao palco ainda várias vezes, na maioria delas sob a penumbra, para, em tese, fazer a costura entre as cenas. O resultado soa tão improvisado que parece ter sido decidido na hora para preencher silêncios constrangedores.

Diante de tudo isso, começar o ano vendo Les Italiens de l´Opéra de Paris dá a sensação de estarmos experimentando apenas o soft opening da temporada de dança que está por vir ao longo do ano. É uma pena, pois é visível a existência de um potencial de qualidade ali. Falta apenas encontrar o tom certo da liga para fazer jus à companhia a qual o elenco se referencia.

Fotos: Luca Vantusso/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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