Olhares, expectativas e realizações

Por Andrea Thomioka, convidada do CRITICATIVIDADE *

Cada vez que me sento na plateia, são várias gerações de mim que assistem ao espetáculo. Prazer e responsabilidade adquiridos com a minha trajetória profissional que me dão — com toda a humildade — um lugar privilegiado como contempladora. E assim, escrevo sobre este espetáculo através de vários olhares.

 

Enquanto me preparava em casa para assistir ao espetáculo peguei-me lembrando com deliciosa saudade a época em que, ansiosa, aguardava para assistir aos preciosos espetáculos internacionais que apareciam por aqui. Ora o Ballet Bolshoi (dos “Concertos Internacionais” da Rede Globo) no Theatro Municipal de São Paulo, ora o Balé Nacional de Cuba – com a Dame Alicia Alonso, no Memorial da América Latina, e, dentre outros, a “Gala das Estrelas do Bolshoi”.

 

Este último, remete-me muito ao espetáculo de agora: os Italianos da Ópera de Paris. A proposta daquela gala era inusitada na época: um elenco russo — nem todos do Ballet Bolshoi, e poucas “estrelas” de fato — dançando trechos de obras do Repertório do Ballet Clássico Tradicional, num formato de Gala que, em minha leitura, graças a eles, passou a ter um significado de celebração.

 

Hoje, poder celebrar a Dança, através da realização de ideias e ideais de artistas — como as de Alessio Carbone, que idealiza o projeto dos italianos — é algo imensurável. Oportunizar este espetáculo aos nossos alunos (e seus responsáveis) apaixonados e dedicados pelo “estar” em formação na Dança, é justificar cada gota de suor em sala de aula, e garantir as próximas. É poder ver ao vivo, todos aqueles bailarinos "impossíveis de existir" dos vídeos estudados.

 

Como curadora, na plateia antes do início, um certo incômodo. O público bem abaixo do esperado, como resultado de uma divulgação um tanto quanto aquém do potencial. Na sequência, o mistério do que estávamos prestes a assistir: não há programa de sala, ou folder com o conteúdo da noite. Tocado o terceiro sinal, o Maître e Coordenador Artístico da temporada local, sobe ao palco e cordialmente anuncia todas as informações ao microfone, mas elas se perdem, afinal são doze obras, compositores, coreógrafos, intérpretes musicais e onze bailarinos distribuídos em doze formações de elencos distintas.

 

O espetáculo iniciou com atraso devido a um problema técnico. Os 90 minutos de duração informados na realidade foram 120 minutos. Seria pouca diferença, se não considerarmos os integrantes da plateia dependentes de transporte público e residentes distantes do local. Um processo que chega a tratar o público como coadjuvante no planejamento deste espetáculo. São detalhes — dentre tantos — que somados demonstram certa inexperiência por parte da Produção do espetáculo.

 

Da Produção, numa visão curatorial, outros quesitos não demonstraram eficiência: análise do público local, conhecimento das práticas de programação semelhantes, definição de público alvo (e estratégias de alcance), possibilidades de parcerias (para otimização dos resultados) e ações paralelas (para formação e fidelização). Ferramentas que  poderiam tornar este espetáculo menos “estrangeiro” em nosso solo — privilégio exclusivo de uma produção assinada por um brasileiro. 

 

Do lado artístico, a composição do espetáculo poderia ser repensada, em ordem e duração, bem como sua narrativa de desenvolvimento. A obra de abertura nos coloca num ápice de expectativa que se dissipa ao longo da noite, em que assistimos a uma  sucessão de solos e duos, organizados pela logística da troca de elenco (e de figurinos e instrumentos). Apesar de alguns bailarinos se repetirem na execução das obras, não há viés artístico que permeie a noite como um todo. Somente ao final, quando, exaustos, todos se encontram novamente em cena, lembramos que se trata de um elenco único, num espetáculo em turnê. E o nosso público — habituado a festivais de dança — responde bem a isso.

 

Como bailarina profissional, penso no desejo de muitos de traçar uma carreira na Dança. Também comum à maioria dos profissionais em carreira é o anseio de experimentar coisas diferentes. Companhias estáveis possuem sua própria história, perfil artístico e hierarquia. Mesmo depois de ser escolhido, o que no início é um desafio e sonho do bailarino pode se tornar frustrante e insaciável. Quando um projeto paralelo é idealizado e praticado, ele pode ser muito gratificante para os artistas envolvidos, porém o público não necessariamente compartilha de todas as verdades que embasam estas ideias.

 

Em outra perspectiva, quando nos chega a informação de um espetáculo composto por bailarinos da Ópera de Paris — uma das nossas maiores referências do Ballet mundial, desde sempre — espera-se que, independente da nacionalidade, os intérpretes apresentem o mesmo esmero e rigor de um espetáculo da própria instituição. Especialmente porque o “da Ópera de Paris” consta no título do espetáculo, e não apenas nos currículos dos bailarinos.

 

Física e tecnicamente, não há o que se questionar. Afinal, todos do elenco foram em algum momento selecionados para integrar a companhia e isto os eleva a um lugar de “dentre poucos”. Porém, a performance artística e profissional — agora sim, considerando que a “paixão e carisma típico dos Italianos” foi o evidenciado na divulgação, além da “excepcional elegância do estilo francês” — não atendeu o esperado.

 

Como grupo, o elenco ainda precisa achar seu senso de coletivo. Nas poucas coreografias em que se juntaram houve problemas de alinhamentos, desenhos e harmonia. Em outras palavras: diferentes direções de corpo na execução do mesmo passo, bailarinos fora de fila, divergência nas contagens e nas dinâmicas de movimentos.

 

As bailarinas se apresentaram nervosas, quase como se o que dançavam não fosse o que habitualmente praticam. Promenades com rostos tensos, quedas das pontas, queda ao solo, sequência de fouettés en tournant incompleta, equívocos em passos em duetos — com trombadas com o partner nítidas aos olhos.

 

O elenco masculino é notadamente mais experiente e nos guarda os melhores momentos do programa — à exceção do Basílio da noite, autor de uma desagradável conduta: o fato de interpretar o personagem com uma certa seriedade descabida à obra, não foi tão relevante quanto, após um erro do operador de luz ao final da Coda do Grand Pas de Deux, ele se dirigir à coxia batendo os calcanhares e abanando a cabeça negativamente, em cena aberta.

 

O repertório de coreógrafos é invejável, apesar do Don Quixote mencionado como de Petipa, não ser bem condizente ao seu estilo e coreografia conhecidos por aqui. Das coreografias não Clássicas, entende-se que cada obra, além das sequências de movimentos, deveria carregar em si a personalidade de seu criador e cada intérprete buscar, através de seu corpo, mecanismos para evidenciar estes códigos, despojando-se do lugar seguro da execução. 

 

Contra isso, corpos verticais permearam todas as coreografias, fazendo com que — apesar das diferentes assinaturas — as execuções técnicas fossem tratadas com grande similaridade. Amplitudes alcançadas pelas extremidades (e não pelo centro), ausência de deslocamento de peso e de eixo (off balances) — diferente de grandes posições abertas com cambrés, carência de uso das laterais, das espirais e ápices para sucessão dos movimentos — fazem questionar: desconsiderando o vocabulário pré-estabelecido que modifica a estética, do que se difere esta movimentação da Técnica da Dança Clássica?

 

Expectativas à parte, assistir Dança é fundamental para todos – profissionais, alunos e público não especializado. Lembrando que tão importante quanto assistir, é desenvolver uma visão crítica e analítica do conteúdo. Propostas como esta Gala são relevantes e ótima opção para produções que visam facilidade de logística, flexibilidade de programa versus local de apresentação, e intercâmbio profissional e artístico — ressaltando que a Arte deve ser sempre desenvolvida em sinergia com seu público.

 

Por fim, e talvez o mais valioso de tudo, assistir a um artista como Alessio Carbone é algo imprescindível. É a oportunidade de poder ver aplicados em cena todos os ensinamentos da sala de aula: da disciplina ao primor técnico, da humildade (nos conjuntos e duetos) à excelência (nos solos), da simplicidade à virtuose, da sutileza ao vigor, em cada interpretação, e ainda poder compreender as razões de o ser primeiro, além de bailarino — por toda sua generosidade, elegância e respeito à sua Dança, que por esta noite, se tornou nossa.

* Bailarina e professora de ballet clássico e dança contemporânea, atuou como Curadora de Dança da Secretaria Municipal de Cultura (SP) e é parecerista de Dança da CAP – Comissão de Análise de Projetos, do ProAC ICMS da Secretaria de Estado da Cultura (SP). Coreógrafa, produtora e gestora de dança, como bailarina integrou o Balé da Cidade de São Paulo (2000 – 2008), a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, em Lisboa (1998 – 2000). Além de ser diplomada pela RAD – Royal Academy of Dancing of London, até o grau Advanced, desenvolveu carreira autônoma como bailarina clássica, tendo sido a primeira brasileira a conquistar a medalha de ouro no International Ballet Competition, em Varna (Bulgária – 1996). Também laureada com a medalha de super bronze no Masako Ohia World Ballet Competition, em Osaka (Japão – 1995) e com o Troféu Mambembe de Dança, pela Funarte (1997). Atualmente, é Diretora Executiva da Artisan Ballet, professora da Bravo! Ballet e trabalha, juntamente com Cássia Navas, Ana Yazlle, Vanessa Porcino e Renata Nunes, na formatação do upgrade.BR – um método brasileiro de ensino de Dança Clássica, criado com foco na readequação da aplicação da Técnica Clássica destinado à formação e prática da dança de maneira efetiva, viável e condizente à nossa realidade geopolítica e sociocultural. 

Fotos: Luca Vantusso/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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