Felizes coincidências entre descuidos de programação

Por Henrique Rochelle

Mesmo em uma cidade como São Paulo, são raras as oportunidades de encontrarmos em cena bailarinos dos elencos de companhias do porte do Ballet de l’Opéra de Paris. Por esse motivo, a apresentação produzida por Thiago Soares do grupo Les Italiens de l’Opéra de Paris, anunciada como uma mostra da elegância do estilo francês e do carisma dos italianos, já soa, de partida, como um must see.

 

O grupo, criado por iniciativa de Alessio Carbone trouxe a São Paulo 11 bailarinos para uma Grand Gala de 12 números, da qual se esperava destaques do repertório da companhia francesa, junto de seu coreógrafo de casa, Simone Valastro. Sem anúncio do programa específico que seria apresentado, os seis grandes nomes anunciados na divulgação pareciam motivo mais que suficiente pra sair de casa e ir ao Teatro Sérgio Cardoso, onde o grupo fez 5 apresentações: Nureyev, Petit, Bournonville, Béjart, Balanchine e Millepied sugeriam um programa de força e impacto, mas poucos desses desembarcaram em São Paulo.

 

Independente do repertório, há valor, e muito, no trabalho dos intérpretes do elenco — assim como há interesse, e muito, em vê-los por aqui —, mas a propaganda foi maior do que o espetáculo. O elenco em cena conta com uma bailarina recentemente promovida a estrela e Carbone é primeiro bailarino na companhia francesa. Os demais, que aqui encontramos dançando papéis principais, em sua companhia de origem guardam uma ficha de crédito restrita ao corpo de baile. Não há problema com isso, mas a forma como a produção nos faz esperar tanta grandiosidade é um pouco frustrada ao longo de um espetáculo que, mesmo não sendo ruim, se apresenta como maior do que ele de fato é.

 

O que constantemente levanta o programa da noite são algumas das interpretações do elenco masculino, como no “Pulcinella” de Valastro. Mesmo em meio à boa realização, a dificuldade com a obra é a carência de seu contexto e história — especialmente por não ser essa uma das narrativas mais batidas e reconhecíveis em seus formatos destacados — como era o caso do “Don Quichotte” dessa gala, cujo pas de deux foi creditado a Petipa (mas do qual é justo suspeitar que se tratasse da versão de Nureyev [d’après Petipa], dançada recentemente na Ópera de Paris, inclusive por alguns dos bailarinos desse elenco dos Italianos).

 

No “Quichotte”, um desajuste entre o casal deixava a dúvida de se o problema com a execução era um dos dois bailarinos, ou simplesmente o partnering e a falta de hábito deles enquanto uma dupla, e em papeis de tanto prestígio. A grande questão que se coloca para o elenco é a da presença de palco: há um motivo para esses papeis serem dançados por grandes estrelas — e esse motivo não é apenas técnico, e lida tanto com o espaço e o tempo entre um passo e outro, quanto com a execução exímia da coreografia.

 

Importante exemplo dessa dinâmica é “Arepo”, solo de Maurice Béjart, em que Carbone pode se exibir, merecidamente, para o público. Não se trata de uma coreografia hiper-técnica — ela não trabalha com a complexidade ou com o que parece impossível —, e, justamente por isso, exige experiência e carisma, que prendam nossos olhos em sua execução. Também muito bem executado é o outro solo masculino do programa, “Les Bourgeois”, de Ben Van Cauwenbergh dançado por Giorgio Foures, esse com uma carga técnica um pouco mais aparente, mas também uma dificuldade de compreensão pelo público que é inata a sua forma: a coreografia mimetiza a letra da canção de Jacques Brel da trilha sonora, e, para a plateia que não conhecer previamente a canção ou não acompanhar o francês, revela-se quase que como um abstrato.

 

As abstrações, aliás, dominam o programa da noite. E isso não é algo negativo, porque há muito espaço para o balé abstrato, muito público para a apreciação dessa forma de dança que foca a movimentação, e muito espaço para grandes execuções dentro de suas propostas. Nesse caminho, se sai muito bem “Prelude” de Ben Stevenson, que, com uma barra de balé no centro da cena, altera possibilidades das dinâmicas de movimento do clássico, e parece refletir sobre o estilo clássico num ode à aula de balé e à prática da dança.

 

Mesmo com toda essa potência para o abstrato, a organização do programa deixa uma aparente inexperiência, focando a praticidade da transição entre as obras e para o elenco, e não a experiência da Gala como um todo pelo público, que arrisca se cansar. Numa grande sequência de abstratos também vem “Delibes Suite”, de José Martinez, um grand pas de deux que poderia ter se limitado a apenas um adágio interessante, descartando suas variações e a coda que, no geral, ficaram anti-musicais na realização da dupla.

 

A obra de Martinez no programa aponta também para a miscigenação do Opéra. Natural de Cartagena, o bailarino/coreógrafo/diretor foi estrela da companhia francesa até se aposentar em 2011, passando, na sequência, à direção da Compañia Nacional de Danza (CND) espanhola. Para a companhia Francesa, ele coreografou “Les Enfants du Paradis”, mas o que vemos neste programa é o seu “Delibes Suite”, que ja foi dançado pelos estudantes da Ópera, mas sem integrar o repertório da companhia. A coreografia, no entando, faz parte do repertório atual da CND, assim como outras duas obras que os italianos decidiram nos apresentar.

 

Esses conjuntos repetitivos surpreendem pela insistência na referência a outros universos: é anunciada uma gala do repertório da Ópera francesa, mas são apresentadas 3 coreografias da CND espanhola e outras 3 de Valastro — que, respeitosamente, não está no mesmo nível dos criadores que esperávamos ver. Valastro é um coreógrafo derivativo, ou, pelo menos, suas obras selecionadas para essa gala o são. De combinações de passos previsíveis e pouco funcionais, sua “Ouverture” vem como espaço pensado para a exibição dos talentos individuais do elenco, mas nem todos eles se saem bem, e as falhas técnicas e quedas marcaram um tom sombrio e inesperado na noite de estreia do grupo. Também seu “Mad Rush”, uma das únicas coreografias para grupo no programa, traz chavões tão batidos da dança contemporânea como Philip Glass e um movimento quase contínuo, alternando dois estados, um de calmaria e outro de furor, que remete a um romantismo pós-moderno, insistentemente debruçado sobre a figura do indivíduo torturado e incompreendido.

 

Poucas das 12 coreografias de fato fizeram parte do repertório da Ópera, mas elas ficaram afogadas em um programa no qual falta organização e proposição artística que nos leve ao que prometia ser “uma jornada pelos mais diversos repertórios da Ópera de Paris”. Delas, não tanto por sua realização, mas por seu valor intrínseco, fazem-se grandes momentos e grandes expectativas para a noite. “Le Parc” de Angelin Preljocaj é um bom retrato do estilo do coreógrafo francês: lânguido, noturno, romântico, líquido, sustentado e expansivo. Como nada seu foi dançado por aqui em anos, há algo interessante para se ver em cena, além da certa curiosidade pela interpretação de Valentine Colasante,  a recente étoile da Ópera, que, infelizmente, tem pouco espaço de desenvolvimento nesta obra — sua única aparição significativa no programa.

 

O ponto alto da noite fica por conta de “In the Middle, Somewhat Elevated”, que Forsythe criou para a Ópera nos anos 1980. Marcada pela execução de artistas ímpares, como Sylvie Guillem, que colocavam as propostas e os desafios de Forsythe para além do que se pensaria como humanamente possível, a coreografia é de um peso histórico e estilístico inimaginável. 

 

Aqui, a execução não apresenta o risco constante no trabalho do coreógrafo, mas algo de inesperado que também parece lhe caber, sobretudo na percepção e recepção do público, que é a precisão. As linhas marcadas e intensamente seguras fogem daquilo que o coreógrafo propunha em seus trabalhos, mas o resultado se faz aceitar com uma pequena licença poética, por ser instigante, cativante, e despertar ávido desejo de se rever a obra toda.

 

Talvez essa realização seja apenas uma feliz coincidência, mas ela é realmente feliz. Faltam, para o todo do programa, outras felizes coincidências que cubram os espaços deixados vazios por uma direção artística deficiente e descuidada, e por uma produção que nos dá expectativas maiores do que resultados. Não há dúvida que este se trata de um elenco de destaque e de potencial, mas falta planejamento artístico e trabalho para que esse potencial seja realizado plenamente em cena, e a ponto de poder se apresentar como porta-bandeira de uma tradição tricentenária que se anuncia pela excelência.

Fotos: Luca Vantusso/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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