Dos desafios de transformar vocabulário em assinatura

Por Amanda Queirós

Anunciada como a terceira obra do Gumboot Dance Brasil, “Subterrâneo”  surge com ares de segunda criação do coreógrafo Rubens Oliveira. Desde que foi fundado, em 2008, o grupo cumpre uma invejável circulação - ainda em andamento - de “Yebo”, trabalho apresentado em versões diferentes lançadas em 2010 e 2015.

“Yebo” funciona como um enérgico cartão de visitas da técnica gumboot, escolhida para reger a movimentação da companhia. Seduzido pelas possibilidades de um jeito de dançar até então desconhecido por aqui, Rubens teve a seu favor a reunião de um elenco eclético, mas coeso, e o ineditismo da técnica no Brasil, um elemento de distinção em meio à lógica de mercado e da mídia de privilegiar a novidade, o que ajudou a conferir visibilidade à companhia.

 

As origens do gumboot, que pode ser descrito rasteiramente como uma mistura de sapateado e percussão, está nos mineradores da África do Sul do século 19 que, impedidos de falar durante o trabalho, inventaram uma forma de se comunicar a partir das batidas provocadas pelos movimentos dos pés e das mãos nas botas de borracha que eram obrigados a calçar.

 

Tanto em “Yebo” quanto em “Subterrâneo”, Rubens usa sua coreografia para fazer ao mesmo tempo uma deferência e uma saudação a esses indivíduos marginalizados em sua própria terra, em um paralelo direto com a própria situação do negro no Brasil. O que chama a atenção nas duas obras é que, apesar de constatar uma realidade bastante dura, ela aposta na dimensão da festa. Por mais que tenha se originado em um ambiente sofrido, a dança ganha ares de celebração à resistência e, nesse sentido, afaga inquietações em torno de como se colocar politicamente no mundo em um momento de desorientação institucional tão forte.

 

Essa deferência, no entanto, surge por vezes maior do que a própria criação coreográfica, com a retomada de elementos cênicos presentes em “Yebo” que estremecem a autonomia de “Subterrâneo”. É o caso do uso dos macacões e dos capacetes com lanterna, referência direta ao traje dos mineradores. Por mais que a movimentação e a organização espacial apresentadas sejam distintas entre uma obra e outra, a sensação de dejà vu é forte.

 

Como apontado no próprio título, a pesquisa de “Subterrâneo” é explicitamente focada na dinâmica desses trabalhadores que estão aterrados e, portanto, pareceria incontornável trazer isso de volta à cena, acrescentando ainda à cenografia o elevador de grades que leva aos túneis de mineração. O risco, no entanto, é que a insistência nessas imagens provoque certa indiferenciação dramatúrgica entre os próprios trabalhos.

 

Diante desse cenário, a singularidade da nova obra se concentra, especialmente, em sua primeira parte, que se propõe a investigar como o passado ecoa no presente. Com vestes que aludem às de tribos africanas, com os pés descalços, os bailarinos demarcam o palco como espaço de alegria, no qual homens e mulheres têm protagonismo semelhante e onde o canto e a dança despontam como campo de plenitude. Eles somem de cena até uma única bailarina permanecer sozinha ali, quase imobilizada, encurralada por um foco de luz que a empurra para dentro da coxia. Evocando certa melancolia, ela costura o que vimos com o que vem a seguir: o cenário desolador das minas, com seu ritmo mecanizado e aspecto sombrio.  

Acontece que, pouco a pouco, esse espaço passa a ser subvertido. Os bailarinos usam a dança para se apropriar da dor e dar a ela um novo sentido, que tem sua gênese justamente nos antepassados aludidos no início do espetáculo.

A cena final ganha um elemento especialmente interessante ao colocar a lanterna dos capacetes nos pés do elenco. Sob a penumbra, o que se vê é apenas o movimento das luzes, conferindo uma nova materialidade à dança. Por meio da subversão do que seria o lugar estabelecido das coisas, encontramos um jeito diferente de enxergar o gumboot, e essa percepção se transforma numa esperançosa metáfora da importância de se buscar novos pontos de vista quando impera a sensação de que se está no mesmo lugar.

É uma cena curta que entrega haver mais a se investigar nessa direção e prenuncia o desafio no qual o Gumboot Dance Brasil se encontra nesses seus dez anos de atuação. Como fazer frente a uma técnica tão poderosa sem ficar refém dela? Como transformar o domínio de um vocabulário em instrumento de liberdade criativa?

Quanto mais um corpo treina repetidamente os mesmos passos, mais hábil ele se torna na tarefa de recombiná-los de maneiras inéditas, libertando-se, assim, de qualquer possível  engessamento do qual a técnica possa vir a ser acusada. Dar essa chance para a emergência do novo é um importante fator para o surgimento de uma assinatura artística própria que se desenrola em dramaturgias cada vez mais complexas e repletas de significados. Adensar o caminho dessa pesquisa de linguagem é o passo que está no horizonte de Rubens Oliveira e companhia.

Fotos: Mario Cassettari/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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