Movimento e som recortando o espaço

Por Henrique Rochelle

A técnica do Gumboot, originária da África do Sul, carrega a tradição de uma movimentação criada com propósito comunicativo entre os mineradores das minas de ouro, que não podiam conversar durante o horário de trabalho. Esse espaço fechado, escuro, quase uma gruta, gotejando e repercutindo, cria o ambiente de "Subterrâneo", obra em que o Gumboot Dance Brasil propõe misturar essa referência original com uma situação urbana, daqui, e mais atual.

 

Para isso, essa gruta cênica é invadida pelo som alto das vozes e da percussão corporal dos bailarinos bem treinados do elenco. Apoiado num tanto de ritual, de festivo, quase devocional, o começo lento vai rapidamente tomando ritmo — intenso e se propagando, como se fosse o eco das batidas dos pés ecoando por esse espaço fechado, e desesperado para transmitir uma mensagem, para dizer algo a alguém.

 

Dessa aura quase de festa, nos afundamos dentro da mina, na qual os intérpretes entram com uniformes. A movimentação continua forte, porém mais seca e ficando mais e mais padronizada. Ali veremos o trabalho do stepping com as botas — preciso e sincrônico —misturando um tanto de cativante com algo de hipnótico.

 

A coreografia de Rubens Oliveira é altamente corporal, intensa, densa e bem trabalhada por um elenco tônico e muito disposto. Ela se mancha em alguns instantes com um tom cômico mal resolvido e sem desenvolvimento que os equipare ao todo a que assistimos, pedindo um cuidado de direção que falta na continuidade de uma obra de ótimas partes.

 

Uma proposta de boas partes nem sempre garante um todo coeso — risco contínuo que cabe às direções cênicas resolver, para apresentar ao público algo que faça o seu sentido. Se o desenvolvimento do elenco é elogiável, assim como a proposta de sonorização, por outro lado temos uma participação cênica dos músicos no palco como uma dessas ocasiões que abrem espaço para o duvidoso, tendo menos sucesso enquanto resultado cênico.

 

Uma pergunta importante é como a movimentação e a pesquisa coreográfica desse projeto desenvolvem de fato o tema e se constituem em proposta. Se a ligação da técnica com o espaço cênico são diretas, elas também demandam um tanto de conhecimento histórico e colateral que nem sempre está à disposição do público. Se o imediato da origem responde facilmente a discutir minas subterrâneas, resta entender como essa proposta se transpõe para a outra realidade que a obra intenciona tocar — a urbana e atual.

 

O paralelo metafórico está claramente estabelecido. Trata-se de uma discussão de populações marginalizadas, à beira de sistemas excludentes e de rejeição, que têm suas vozes cortadas, seus espaços cercados, suas liberdades reprimidas, suas expressões desvalorizadas. O que falta aqui é um tanto da costura que ligue os muitos pontos, e, sobretudo, que permita a esse grupo e a seus muitos talentos usar dessa referência sem a necessidade de recontar sua história.

 

Assim como a iluminação, as cenas da obra vão se recortando em insistentes blecautess: parecem instantes de entrevisão, em si interessantes, mas que têm dificuldade de se formar num todo. Dentre todas as cenas, a que faz cativa é a que trabalha com as luzes nos pés dos bailarinos, transformando a coreografia e a sua métrica, sua precisão e sua insistência, em formas de percepção alteradas do espaço da cena.

 

Nesse caso, em específico, as luzes se transformam em movimento, e o movimento se transforma em recorte do próprio espaço. Ali estamos aprofundados no título e em um dos aspectos da proposta. Ali, a qualidade dos resultados do elenco mostra seu maior grau, exibindo o que se pode fazer com o próprio corpo, mesmo em situações limitadas e limítrofes. Pelo lado negativo, essa interessante percepção alterada do espaço é sobreposta por outras tantas luzes, em focos espalhados pelo palco, que acabam criando uma aura, pouco inovadora, de show musical.

 

Há muito de interessante no trabalho da Gumboot Dance Brasil, que merece ser cultivado e desenvolvido, e suas escolhas mais simples são as que têm melhor realização — desde a forma como se estrutura a movimentação, até os figurinos, que vão direto ao ponto, sem se gastar em contornos desnecessários. O risco é recobrir essas boas propostas com uma preocupação de espetacularização: o excesso de luzes, o excesso de cenografia, os músicos no palco, arriscam roubar a atenção daquilo que o grupo tem como trunfo, e que é o que mais interessa — uma movimentação única, muito bem executada, dentro de uma ideia interessante. 

Fotos: Mario Cassettari/Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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