Suspensa entre o teatro e a dança, vida de bailarina é recriada em cena

Por Amanda Queirós

A premissa de “H.U.L.D.A.” é quase metalinguística: usar a dança para homenagear quem fez dela a sua vida. O nome pouco comum traça sintonia com a singularidade que marca a trajetória daquela a quem a obra se refere, a fundadora da Cisne Negro Cia de Dança, Hulda Bittencourt, hoje com 82 anos.


Essa é uma carreira com roteiro já bem conhecido. Garota enfrenta família e preconceitos para perseguir o sonho de dançar e, contra todas as convenções, empreende ao criar uma escola e, posteriormente, uma companhia.


Você não precisa saber de tudo isso antes de ver o espetáculo porque a direção de Jorge Takla tem a preocupação de intercalar os quadros com depoimentos em áudio que narram, de forma cronológica, o que será colocado em cena. São falas da própria Hulda e, por vezes, de Maria Pia Finocchio, que soa deslocada dali por ser a única outra voz presente. Se por um lado o didatismo conecta o público ao que é apresentado, por outro acaba enrijecendo as possibilidades de criação de sentido e interfere justamente no que deveria ser o ponto chave da obra: sua capacidade de emocionar.  


Mesmo sem ser exatamente literal, “H.U.L.D.A.” se propõe a contar uma história, mas fica refém dos elementos mais objetivos e superficiais da narrativa. É um trabalho que, compreensivelmente, tem dificuldade de mergulhar na intimidade da homenageada dada sua proximidade com a equipe criativa e, por isso, opta pelo básico em vez de explorar o turbilhão de sentimentos que podem convergir na relação entre ela e os demais artistas. 


Para conduzir a trama, a dramaturgia de Takla se vale da ideia de personagens fluidos, que transitam entre o elenco. Ocorre que a presença de uma convidada especial, destacada pela iluminação e pelo figurino excessivamente rebuscado, faz com que o olhar depositado sobre ela queira sempre encontrar ali a protagonista da história, o que nem sempre é o caso.


Duas grandes artistas da dança se revezam nesse papel. Tanto Ana Botafogo quanto Daniela Severian são bailarinas na qual a mistura de técnica e maturidade produzem um forte caráter interpretativo. A coreografia de Dany Bittencourt e Rui Moreira, no entanto, explora pouco o potencial de ambas, que, apesar de guias da história, têm atuações mais próximas de figurações de luxo. Com isso, a presença delas acaba por vezes distraindo as atenções do elenco, detentor da verdadeira alma da companhia.


As cenas são costuradas entre si por uma premissa simples, proposta por Takla. Ela obedece a lógica do acróstico. Cada letra do nome de Hulda leva a uma palavra relacionada à vida da homenageada, que acaba “escrita” pelos bailarinos a partir da junção do mar de letras que compõem a cenografia. Os gestos que levam a isso servem aos elementos cênicos, e não o contrário, resultando em coreografias pouco instigantes para os momentos em que eles são manipulados.


A criação de movimento, por sua vez, tem seu melhor momento na cena que narra a chegada dos rapazes à companhia, ao registrar a transformação gradual do repertório gestual daqueles esportistas vindos do curso de Educação Física da USP à medida em que seus corpos ganham contornos de artistas. 


A trilha original de André Mehmari exalta alguma brasilidade em sua orquestração, pontuadas por momentos bem humorados. A tônica, no entanto, é a da reflexão e da contemplação. O piano - instrumento no qual o compositor se destaca - é o protagonista, e evoca ora melancolia, ora júbilo, ora esperança. Com isso, a música é o elemento que, de forma mais evidente, desperta o sentimento de memória em torno do qual se constrói o espetáculo, tornando-se um elemento de unidade mais eficiente do que a própria direção. 


O grand finale exalta a maior conquista de Hulda: a companhia e seus 40 anos de atividade ininterrupta. Em vez de falar das dificuldades para continuar sobrevivendo sem patrocínio, faz-se um estranho mash-up sonoro para exaltar dois marcos da dança clássica que perpassam a história do grupo: “O Lago dos Cisnes”, de onde saiu o próprio nome da Cisne Negro Cia de Dança, e “O Quebra-Nozes”, pièce de résistance encenada por ela, todos os anos, há mais de três décadas.  


O resultado surge um tanto confuso, com coreografia mais uma vez costurada à reboque da cenografia, mas é simbolicamente potente, pois fala de identidade e continuidade. Festejar 40 anos de trajetória evidenciando justamente essas características diz muito sobre a força de vontade de seguir em frente, custe o que custar.

Fotos: João Caldas e Reginaldo Azevedo /Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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