Entre a homenagem e a lembrança, a Cisne comemora

Por Henrique Rochelle

Quando a voz de Hulda Bittencourt nos conta, num voice-over no começo de “H.U.L.D.A.”, que o seu sonho de criança era ser artista, não há surpresa: parece até comum sonhar com esse tipo de coisa. Menos comum é a dedicação de toda uma vida à arte, à criação de uma escola e à manutenção, por 40 anos, de uma companhia profissional de dança particular. Para celebrar esse aniversário, o diretor Jorge Takla se junta aos coreógrafos Dany Bittencourt e Rui Moreira, na criação de “H.U.L.D.A.”, obra que leva o título-acrônimo do nome da fundadora da Cisne Negro Cia de Dança.
 
Também há algo de surpreendente na escolha de um diretor especializado em teatro musical para o desenvolvimento dessa homenagem, e a companhia, com uma longa trajetória de escolhas de coreógrafos para seu repertório, chega à cena num formato inesperado, que se projeta através de cenas, de texto e de enredo. Não é tarefa fácil usar o movimento narrativamente: a própria tradição do ballet nos leva para um domínio misto de movimento e de textualidade, com a existência dos libretos, que contam ao público o que se dá no palco, e a insistência em argumentos que ou ja são clássicos literários, ou logo tanto se tornam, frequentemente carecendo de densidade e desenvolvimento.
 
Porém, a história de Hulda e da Cisne Negro é uma história complexa. Sem libreto, a solução cênica empregada é a do uso dessa voz em meio à trilha sonora. Inicialmente, ela parece apenas uma forma de dar o tom e o timbre da voz da homenageada ao trabalho, mas permanece ao longo do espetáculo como manobra narrativa de progressão de um enredo. O resultado é um formato de entrevista ilustrada com coreografia, que domina “H.U.L.D.A.”. Nessa entrevista, Hulda nos conta suas origens, sua aproximação com a dança, sua dedicação, o encontro com o falecido marido, a abertura da escola de dança, a formação da companhia, seus propósitos de trabalho, e as razões por trás do nome — mítico — da Cisne Negro, através de cinco quadros, compostos um para cada letra do nome, num acrônimo — que soa pouco espontâneo — representando Horizontes, União, Liberdade, Dança, Amor. Em cena, os bailarinos se desdobram entre alguns dos personagens dessa história de vida e alguns figurantes indeterminados, sendo constantemente afetados pela presença de uma figura mística, interpretada por bailarinas convidadas (Ana Botafogo na semana de estréia, e Daniela Severian, desde então), que é algo como “o espírito da dança”, mas que também acaba representando a própria Hulda, direta ou indiretamente, em certas passagens.
 
No primeiro quadro, é a chegada dessa figura que faz o elenco de fato dançar, e é ela que protege uma bailarina representando a jovem Hulda da figura opressora do pai, que não aceitava seu interesse pela arte e pela dança. Especialmente interessantes são os trabalhos dos quadros “União” e “Liberdade”, ambos notáveis coreograficamente dentro do todo do espetáculo. “União” foca a presença e a influência de Edmundo, marido de Hulda, em sua vida e seus trabalhos, e a coreografia organiza, com delicadeza e interessantes articulações e pegadas, Edmundo dançando com mais uma bailarina, e depois uma segunda, e depois uma terceira, assim formando a família Bittencourt através de um envolvimento com a dança, representada pela bailarina convidada.
 
“Liberdade” é o momento que reflete sobre a chegada dos homens na escola — alunos da Educação Física de USP que vinham trabalhar a flexibilidade e a articulação, dinâmica demonstrada por coreografias que se inspiram no esporte, mas sem o peso da literalidade. Com a chegada dos homens, se dá a formação da Cisne enquanto companhia, e nela podemos observar, tanto pelo discurso apresentado em cena, quanto pelo conhecimento que temos dos trabalhos realizados pela companhia, um desejo por múltiplas referências nos processos de criação coreográfica, se apoiando em criadores de diversos locais, mas mantendo uma constante valorização do elemento brasileiro. Essa característica já aparecia como relevante no retrato do trabalho de Hulda com Maria Pia — outra voz que ouvimos em voice-over — dentro da TV Tupi, e que faz referência à participação das danças de tradições populares na experiência da homenageada, e no seu desejo de ser artista da dança.
 
É curioso que essa obra comemorativa não se apoie nem numa retrospectiva dos trabalhos da companhia, nem numa observação de seus próximos horizontes, ou tampouco numa construção que siga os moldes de produção que a tornaram reconhecida na cena paulistana e fora daqui. A participação tão determinante de um diretor cênico — não só na direção daquilo que foi produzido, mas enquanto cabeça da proposta de criação dessa obra — gera algo que, muitas vezes, parece se aproximar demais das estruturas do teatro musical. Porém, sem o apoio das letras das canções, como aconteceria nos musicais, ou mesmo do texto dos diálogos, a transmissão dessa história depende unicamente do movimento e das falas de Hulda. O problema com a estratégia é que muitas das falas gravadas soam ensaiadas e artificiais, dificultando seu entendimento como se fossem um evento casual, como se estivéssemos ali sentados e ouvindo uma história. Assim, o efeito provocado passa a ser um de textos que parecem lidos, entremeados por risadas que soam forçadas.
 
Não há nenhuma dúvida da importância e do merecimento da homenagem. A manutenção de uma companhia particular por tanto tempo é algo surpreendente, tanto quanto a dedicação de toda uma vida a essa arte. Mas quando essa homenagem se realiza em cena, e em obra de dança, as expectativas que a ela vêm atreladas são de uma ordem distinta daquela do fato histórico. O que há de melhor e mais exemplar em “H.U.L.D.A.” é aquilo que a companhia e o elenco sabem fazer com destreza e maestria: é a dança, é a interpretação. E a coreografia que nos é apresentada tem momentos de grande valor, misturando trabalho com potencial técnico e realização cênica, que se tornaram marcas da companhia. As dificuldades da obra ficam mais a cargo de uma problemática escolha de proposta, e de sua trabalhosa realização, que tiram um pouco da dança, mas não alimentam suficientemente o que poderia ser justificado como um lado teatral, assim deixando o resultado com uma solução incompleta: um pouco pra lá e um pouco pra cá, sem escolher de fato um caminho claro. Ao mesmo tempo, aquilo que se mostra claramente é um envolvimento com a dança, com fazer dança, e uma dedicação longeva e insistente, que são razões merecidas para o reconhecimento e a comemoração dessa ocasião.

Fotos: João Caldas e Reginaldo Azevedo /Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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