Em espetáculo-tributo aos 40 anos da companhia, 'H.U.L.D.A' reforça a trajetória de luta de sua fundadora

Por Katia Calsavara*, convidada do CRITICATIVIDADE 

Completar 40 anos de jornada artística, em geral, não é uma tarefa fácil para quem opta por esse caminho. Trata-se, antes de tudo, de devoção, resiliência, empenho incessante e muito amor. É por isso que a Cisne Negro, a companhia paulistana comandada por Hulda Bittencourt, 82, merece comemorar suas bodas de esmeralda.

Para trabalhar na direção artística desse espetáculo-tributo, intitulado “H.U.L.D.A” em homenagem à sua dama de ferro, foi chamado o reconhecido diretor de musicais Jorge Takla, opção que reflete de forma evidente na tentativa de teatralidade do espetáculo. Dividido em cinco partes, o balé fala sobretudo da luta da bailarina e coreógrafa para criar e manter sua escola de dança e a companhia particulares, com incentivo irrestrito do marido, o químico industrial e empreendedor Edmundo Bittencourt. 

O balé começa com a frase: “Ser artista era o meu sonho”, proferida pela diretora em depoimento. Vale reafirmar que ela conseguiu, sem sombra de dúvidas, realizar sua meta de vida. Em seus 40 anos de existência, a Cisne Negro não só formou centenas de artistas, como também criou um grupo que dançou 42 espetáculos – tudo isso sem coreógrafo-residente, o que caracteriza sua diversidade, em semelhança à trajetória do Balé da Cidade de São Paulo.

As figuras das filhas de Hulda, Dany e Giselle, também foram importantes na construção e manutenção desse legado. Dany se firmou como coreógrafa e é possível reconhecer sua assinatura em cena. Destaca-se, por exemplo, o trio que simboliza o pai e as duas filhas, belo momento do espetáculo. 

Para contar essa história de sonho e realização, as bailarinas Ana Botafogo e Daniela Severian (que consolidou carreira como bailarina clássica na Europa), foram chamadas para se revezar na figura de Hulda. Logo de saída, “ela” aparece representada com roupas diáfanas, belas, enquanto o elenco ainda busca o seu lugar em figurinos casuais e em tons pastéis. 

Como cenário, Nicolàs Boni opta por letras praticáveis que ora servem como apoios para a dança, ora para construir as palavras que advém das letras do nome de Hulda: H, horizonte; u, união; l, liberdade; d, dança, e a, amor. Essa talvez seja a solução que em vez de contribuir com a cadência do espetáculo parece emperrá-lo. É como se o elenco estivesse quase em função desse abecedário, sempre se relacionando com as letras móveis para formar palavras. 

Durante o processo de criação, foram colhidos depoimentos de dona Hulda e de alguns bailarinos. Forte como ela reconhecidamente é, as frases servem de mote ao início de histórias a serem contadas. No entanto, elas se enfraquecem ao longo do espetáculo, não pelo que é dito, mas justamente pelo recurso repetitivo. 

Fica evidente a tentativa de fazer do balé um grande acontecimento, como os musicais gostam de ser, mas as alternativas parecem ficar no meio do caminho. 

 

Dany Bittencourt e Rui Moreira fazem boa dupla na direção coreográfica e o figurino de “cisne negro”, com amarrações nas pernas, criado por Fábio Namatame, está entre os pontos altos da obra. Também se destaca o momento em que os homens dançam em grupo, em menção ao fato de o Cisne ter sido uma das primeiras escolas de dança do país a dar apoio e a acreditar no ensino de balé para a ala masculina, sempre rodeada de preconceitos.

Que dona Hulda merece tributo não há dúvidas, mas a opção pela assinatura com grife de musical ainda soa frágil e não valoriza o que poderia ser mais simples e belo – o que a Cisne sabe fazer, com o perdão do trocadilho, com o pé nas costas. 

* Katia Calsavara é jornalista e bailarina formada pelos métodos da Royal Academy of Dance e do Centro Pró Danza de Cuba. Atriz profissional, é fundadora da Abominável Companhia e escreve sobre dança regularmente desde 2001.

Fotos: João Caldas e Reginaldo Azevedo /Divulgação

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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