Dança à beira do abismo

Por Henrique Bianchini*, convidado do CRITICATIVIDADE

Cheguei ao SESC Vila Mariana melhor preparado. Dessa vez, estava munido de ao menos alguma informação sobre o que estava prestes a assistir. E digo “dessa vez”, pois não seria a primeira. Já havia antes presenciado "Inoah", porém, desarmado de qualquer conhecimento prévio sobre a obra. E, para o bem ou não, esse detalhe faz uma baita diferença. Dentre as tantas sensações difusas, irresolutas e voláteis que a primeira exibição me proporcionou, algumas se fizeram mais contundentes, sólidas e decifráveis. Como, por exemplo, a sensação de que os parâmetros sobre “o que pode um corpo” foram desafiados e ampliados. Havia constantemente algo de extremo em cena. No sentido de “extremidade” mesmo. Como se o tempo todo eu estivesse presenciando o limite de um dos infinitos desdobramentos das potências corporais de cada um dos integrantes do elenco. Dança acontecendo à beira de um abismo, sem cordas ou rede de segurança. E eles me pareciam confortáveis ali. Como se a quina do barranco fosse o mero assento do sofá da sala. Me lembrei de uma frase de Jimmy Garrison, baixista da fase mais prolífera do quarteto de John Coltrane, falando sobre como era tocar com o saxofonista: “Você tem que estar pronto para morrer com ele todas as noites”. Pois estes dançantes me pareciam prontos.

 

As Danças Urbanas (que estão no DNA do Grupo de Rua de Niterói) têm dessas qualidades. Tanto o virtuosismo que parece se negar a aceitar o conceito de “impossível”, quanto a execução deste tal “impossível” com a mesma cara de hábito e rotina que acompanharia o indubitavelmente possível. Como se o suor fosse injustificado. Outra sensação, foi a de que não havia qualquer compromisso com Danças Urbanas – ou com qualquer estética específica, na verdade. A mim, era nítido que a maior parte das resoluções de movimento devia algo às vivências prévias do elenco com as Street Dances, mas, como se o débito já tivesse sido pago, os corpos desviavam dessa referência com a tranquilidade que só tem quem não deve coisa alguma. Faz sentido. Nesta altura do campeonato, após mais de 20 anos de experiências, a Companhia certamente não há de ter mais pendências com esta ou aquela linguagem da dança. A conta foi paga e já há tempos Bruno Beltrão parece se sentir livre dos códigos de barra da expressão. Até nisso "Inoah" me apresentava uma “beirada”. Como se, tendo ainda um dos pés apoiado no chão das Danças Urbanas, o elenco flertasse o tempo todo com o corpo vertiginosamente inclinado sobre o abismo infinito de tudo o que não é isso.

Cabe aí então, a primeira constatação importante: "Inoah" não é um trabalho de Danças Urbanas. Seria ingênuo, restritivo e até desrespeitoso o considerar como tal. E esta foi a primeira das ideias que carreguei comigo quando fui então ao SESC Vila Mariana para assistir mais uma vez ao espetáculo. E para alguém que dedicou os últimos 20 anos justamente a esse universo, essa percepção também faz uma baita diferença.

Então, já ultrapassada a etapa do maravilhamento da virtuose e sem a flacidez nociva da expectativa, o espetáculo foi outro. Notem que não há qualquer menção a “melhor” ou “pior”. Outro. Optei ainda por desta vez tentar descobrir o mote do trabalho antes de revê-lo. Talvez eu seja um pouco raso nas abstrações, mas o fato é que gosto de encontrar significados nas obras. Me falta chão e paredes quando me vejo à deriva, despido de entendimento algum sobre as motivações de um trabalho. Ainda que eu seja capturado por sua beleza ou demais qualidades, fico à caça de signos.

Pois uma conversa com um dos integrantes da Companhia foi o suficiente – Movimento! Não de qualquer sorte, mas o movimento que gera “deslocamento”, “migração”. A consciência de tal pano de fundo me trouxe mais olhos e ouvidos do que aqueles que carrego comigo. Cheguei ao local do evento já sensível à percepção de que, de certa forma, o espetáculo havia iniciado já no saguão, com todos nós, espectadores, nos deslocando para nossos assentos. Talvez antes, no carro que me levou de casa até lá. Talvez antes... Bem antes.

E assim, com o espetáculo em mim, tomei meu assento. A virtuose emblemática da companhia continuava lá. Assim como as Danças Urbanas e seus avessos. Mas outras coisas me vieram. O tal “movimento” foi efetivamente levado a sério. Em diferentes níveis de profundidade e em vários elementos da obra. A trilha sonora, por exemplo. Os sons que ambientam o trabalho soam como um continuum, sem pontos nítidos de divisão e andando em uma direção do começo ao fim. O áudio realmente me trouxe, dessa vez, uma sensação de caminho. Uma “trilha” sonora. Mais do que isso, o som trafega nitidamente de um lado para o outro, fazendo uso dos recursos do teatro em um movimento sonoro tridimensional.

A composição da cena, por sua vez, a princípio não parece evocar qualquer sensação que contribua para o tema. O palco é apresentado nu, sem coxias ou rotunda. As entranhas da caixa cênica, expostas em uma rigidez de parede, parecem se contrapor à ideia de movimento. Porém, uma fina faixa que se estende por toda a parte superior da cena, antes aparentemente inerte, começa a ganhar vida. Uma projeção inesperada passa a mostrar um céu. Um céu verossímil e corriqueiro. Destes recortados por fios de eletricidade, com eventuais passarinhos transeuntes, nuvens preguiçosas e luz que anda com o sol. Eis o movimento.

A disposição dos integrantes do elenco em cena, de certo seria o elemento de resolução mais simples da obra. Ora... Movimentar pessoas no palco não haveria de ser algo complexo. Mas há aí também um cuidado. As colocações raramente se fixam no espaço, mantendo um deslocamento dinâmico e constante por quase toda a obra. Os desenhos são orgânicos, metamórficos e inusitados, como se os corpos dos bailarinos, juntos, formassem um outro corpo, disforme, errático e andante, por vezes enorme, enérgico e desesperado, e por outras, menor e calmo, como se simplesmente esperasse o tempo passar, no simples movimento do dia sugerido pelo céu acima das cabeças.

Devo admitir que após o segundo terço, a obra começou a me passar alguma sensação de que eu já havia presenciado aquele trecho naquela mesma noite. Como se eu encontrasse minhas próprias pegadas pelo caminho. De fato, parece haver uma certa regularidade negativa na intensidade de boa parte do que é apresentado durante uma parcela considerável do espetáculo. Ainda assim, há tanto em jogo o tempo todo que fica difícil desviar a atenção do palco.

Apesar da impressão de que alguns dos dançarinos são mais recrutados do que outros ao longo da obra, em essência não há protagonismos muito contundentes. O fardo do “mover” é distribuído de forma razoavelmente igualitária entre todo o elenco. Dentre os momentos de menor contingente em cena, se destaca o que poderia ser considerado um duo, em que o tratamento ágil e amplo que é dado ao tema durante a maior parte do trabalho recebe um tipo de contraposição drástica: o “semi-movimento”; O “quase-movimento”. A antítese serve, de forma ainda mais ampla, como uma metáfora que toca a relação da própria Companhia com os caminhos tradicionais das Danças Urbanas. É como se fosse derrubada uma pergunta na mesa: “Quanto desaforo esse troço aguenta?”. E como se a resposta não fosse realmente tão importante quanto o próprio questionamento, assim que juntamos o fôlego pra falar, o movimento reaparece, abismal, e nos obriga a engolir as respostas.

Certa vez, um amigo cinéfilo me ensinou que gostava de filmes que contam “o meio”. Filmes cujos roteiros funcionam come se o começo não fosse mostrado, e nem as consequências dos acontecimentos. Apenas um recorte deles. Pois "Inoah" me parece um “meio”. Como se o começo e o fim não nos fossem revelados. Talvez porque essas duas etapas estejam intimamente ligadas à ideia de ausência de movimento. O ponto de partida e o ponto de chegada não importam. Apenas a própria jornada merece atenção. Um belo e motivante caminho à beira do abismo.

Fotos: Divulgação

* Henrique Bianchini é pesquisador da área das Danças Urbanas Estadunidenses e da Cultura Hip Hop há mais de 20 anos, atuando como professor, palestrante e jurado nos principais eventos voltados à dança no país. Educador Físico pela UNESP, atua como professor e assessor pedagógico das aulas de Hip Hop na Casa da Dança Tati Sanchis. É também professor do colégio Objetivo há mais de 10 anos. Idealizador e diretor da Urbaninhos Dança e Eventos, é também co-criador do site Dança em Mapa.

O Criticatividade é um esforço de reunir e aumentar as vozes que fazem, discutem e se interessam pela crítica de dança. A cada mês, produzimos três críticas sobre uma mesma obra.

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